21.9.08

* VOLE, VOLE, VOLE!... SANTOS-DUMONT, EN AEROPLANE.

*
              Santos Dumont Documentary
You Tube



Muitos homens tentaram de tudo para voar.
Alberto Santos-Dumont fez melhor: deu asas a um sonho.


O desejo de voar sempre mexeu com o imaginário dos homens. No Século V, apareceu o primeiro artefato voador: a pipa. No século XVI, Leonardo da Vinci projetou vários equipamentos aeronáuticos. Entre eles, os adaptadores de asas ao corpo humano, o paraquedas, a hélice e o protótipo de um helicóptero.

Mas, foi no dia 23 de outubro de 1906 que o sonho se realizou e se transformou em uma realidade tecnológica. O brasileiro Alberto Santos-Dumont, a bordo do aeroplano 14-Bis, decola, voa e aterrissa com sucesso nos campos de Bagatelle, em Paris.

Aclamado pelo mundo como Pai da Aviação, Santos-Dumont torna-se um dos maiores cientistas de todos os tempos, inspirando cidades do mundo inteiro a batizar ruas, avenidas ou praças com seu nome, rendendo homenagens ao aerocriador que deu asas aos homens e colocou o Brasil no pódio permanente da ciência universal. 


Sábio incontido, Alberto Santos-Dumont não conheceu limites para suas criações. Pensando no céu como seu local de trabalho, logo se tornou figura indissociável da história de uma cidade como Paris nos princípios do século XX, quando respirava a revolução industrial, estética e de costumes.



Nosso trabalho resgata na memória do povo brasileiro o orgulho de ter como compatriota o cidadão Alberto Santos-Dumont, visionário que cultivava virtudes de cientista, designer, estilista, astrônomo, patriota, humanista, escritor, fazendeiro e inventor dessa máquina tão extraordinária que, não há criança ou adulto, que olha para o céu surpresa, quando passa uma aeronave que não se fascina.


Amparado em rica pesquisa sobre a vida e obra do inventor, nosso trabalho não se resume a uma compilação literária do que foi escrito sobre o Pai da Aviação. Enovelamos acontecimentos diversos na existência do mineiro de Cabangu, desde seus primeiros anos de vida na zona rural até os impactos de sua presença no cotidiano de uma cidade como Paris, que há séculos fascina a todos usufruem do seus dia a dia.


Nenhum cientista até hoje foi tão ilustre e festejado em sua própria época, quanto o brasileiro Alberto Santos-Dumont. Sem dúvida, ele é um dos maiores gênios que humanidade produziu, ao lado de Da Vinci e Thomas Edison, em todos os tempos.


 

 

Welington Almeida Pinto

 

*Alberto Santos-Dumont nasceu numa cidadezinha mineira de nome Palmira. Ainda garoto, mudou-se com os pais para a zona rural de Ribeirão Preto, em São Paulo, onde passou a infância e a adolescência. Ao completar 18 anos, decidiu aquilo que queria fazer da vida: voar.

Logo se mudou para Paris e deu início aos estudos para concretizar os sonhos de navegar pelos ares da cidade.

Preocupado em registrar cada passo de suas experiências de voo resolveu documentar sua trajetória através da fotografia - outra novidade tecnológica que entusiasmava os novos tempos. Entre 1896 e 1909, contratou profissionais para registrar vários aspectos de seu processo criativo, inclusive nos bastidores do oficio de piloto e inventor, com a tarefa de perpetuar a sua obra através de imagens por todos os tempos.


 

* UM LIVRO PARA TODOS

*

                                                     
Prólogo
 


 

 


Alguns escritores são capazes de capturar o espírito de uma época ou de um lugar, sem cair num lugar comum. É o caso de Welington Almeida Pinto com o livro Santos-Dumont. A Força de um Sonho. Nele, o autor concentra o essencial de um dos capítulos mais audaciosos da história da humanidade ao retratar a vida e a obra do cientista brasileiro.

Inicia como se fosse uma reportagem sobre a trajetória de Alberto Santos-Dumont, para depois romancear a vida em órbita do inventor. Mistura engenhosa de realidade e ficção que se alonga por inteligentes e curiosos diálogos com familiares, mecânicos, professores, balonistas e jornalistas.

Para dar originalidade ao trabalho, o autor insere no contexto da obra várias frases ditas pelo inventor, garimpadas de seus livros e declarações em jornais e revistas da época. A narrativa começa pela infância do biografado na área rural, passa pela sua mocidade na fase escolar e se estende pela sua vida adulta em Paris, onde o jovem brasileiro encontrou condições e conhecimentos para colocar em prática seu grande sonho: criar uma máquina para navegar no espaço celeste e estreitar as relações entre os povos.


Além de inventor, referenciado por toda a humanidade como o homem que tornou possível a conquista do espaço aéreo, Santos-Dumont foi considerado o primeiro designer brasileiro pela diversidade de projetos que desenvolveu e pelas ideias que se transformaram em produtos.

Ensaio de composição híbrida, pontuado por um texto marcado pela fusão da linguagem ágil do jornalismo e pela densidade de uma escrita histórico/literária bem elaborada. O autor foge da receita clássica da biografia e imprime um formato diferente ao trabalho, sem perder de vista o caráter de uma narrativa ancorada numa narração rica e atraente. 

Livro completo. Promete conquistar leitores de todas as idades. Dos oito aos 80 anos.  E ficar na memória de cada um pelo prazer de leitura agradável.

 


 


O Editor.


 

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* 01/I - A INFÂNCIA DE ALBERTO.

*




 
... Assim começa a história do inventor Alberto Santos-Dumont.
Observado de perto pelos pais, o pequeno Alberto, desde cedo, revelou-se um
menino de espírito inquieto, investigativo, extremamente precoce que raciocinava
 mais do que sentia as coisas em seu redor.


 

 


ALBERTO SANTOS-DUMONT nasceu em 20 de julho de 1873, na Fazenda do Engenho, próxima ao túnel 27, na região de Cabangu, distrito de João Aires, então município de Palmyra, em Minas Gerais.

Sexto filho do engenheiro Henrique Dumont e dona Francisca de Paula Santos Dumont, o inventor teve sete irmãos mais velhos: Henrique, Maria Rosalina, Virgínia, Luis e Gabriela. Depois dele: Sophie e Francisca.

Em 1874, terminada a Estrada de Ferro Pedro II, a família Dumont passa a morar na Fazenda do Casal, município de Valença, no sul fluminense. Daí para a região de Ribeirão Preto, interior da província de São Paulo, onde Henrique Dumont comprou uma fazenda, atraído pelo admirável ciclo do café.

A constante troca de endereços não afetou a vida de Alberto. Criança alegre e curiosa cresceu brincando com os irmãos, com os filhos dos escravos ou dos colonos pelos arredores da sede. Como também nunca deixou de visitar a biblioteca do pai, onde se refugiava sempre para ler os livros do engenheiro Henrique Dumont.

Outro entretenimento de Alberto era observar a revoada dos pássaros, principalmente, o voo dos urubus, lá no alto, planando por um longo tempo no ar. Admirava também ver a agilidade de um bando de pombos atravessando o extenso terreiro da fazenda, que logo tornava a passar na mesma velocidade.

Alberto gostava de desenhar. Vez ou outra se distraia reproduzindo casas, pássaros, nuvens, sóis, luas e balões voando em festas juninas – temas comuns aos meninos de sua idade que enchiam seus cadernos escolares com rabiscos ilustrativos. Desenhava tão bem que suas irmãs viviam encomendando-lhe esboços de bonecas, que elas confeccionavam de pano ou palha de milho.

A evolução dos pequenos balões de papel de seda e das pipas, lançados ao céu, nos folguedos populares seduzia o espírito observador de Alberto. Tanto que aprendeu a fazer os objetos para realizar a brincadeira com seus amigos no pátio da fazenda.

Certo dia, com pouco mais de nove anos de idade, após a mucama Minalva retirar o jantar, Alberto espanta a todos com uma pergunta:

- Papai, por que o homem não tem asas que nem os pássaros?

Henrique Dumont surpreso com a curiosidade de Alberto tenta explicar:

- Meu filho, o homem não tem asas, mas tem o dom da inteligência. Queria mais?

- Sim. Gostaria de voar como os pássaros.

- Quem sabe, usando a inteligência, um dia o homem poderá voar através de uma máquina qualquer, não é mesmo?

Alberto balança a cabeça, observando em tom curioso:

- Não seria bem melhor se a gente pudesse voar?

- Ora, Alberto. Deus quando criou o mundo não pensou assim. Caso contrário teria feito o ser humano com asas, não é mesmo? Mas, posso garantir que, para os pássaros, o poder de voar foi muito bom e para nós também.

- Sim. Mas...

- O mais importante, Betinho, é que nesse voo a fauna alada presta um grande serviço à natureza e ao ser humano.

Dito isso, Henrique volta os olhos em direção aos outros filhos e brinca:

- Ganha um doce quem dizer como os passarinhos beneficiam a natureza!

Rosalina levanta um braço, todo serelepe:

- Eu sei. Eu sei.

- Sabe. Então fala para seus irmãos.

- Eles comem as frutinhas e saem por aí espalhando suas sementes.

- Isso mesmo! - aplaude a mãe, toda orgulhosa, sentada na outra ponta da mesa.

Alberto franze a testa.

- Não entendi nada.

- Pelo coco, seu bobo! – adianta o irmão mais velho, com ar de sabichão.

Todos riram. Alberto cora, meio confuso:

- O quê? Pelo quê?

- Isso mesmo, seu irmão está certo – confirma o pai.  - Os pássaros são carregadores de sementes para vários locais. Pela borrinha deles que muitas árvores são espalhadas no solo. Se não fossem os pássaros, cumprindo esse importante papel ecológico, quem semearia plantas para formar e restaurar as tantas florestas no Brasil?

- Gente, o pai tem razão – confirma Rosalina.

- Assim mesmo que uma floresta vive cheia de variedade de plantas – confirma o pai. - Das alturas os pássaros, como semeadores naturais, garantem um mundo verde que tanto precisamos para viver aqui embaixo. Não é legal?

Dona Francisca levanta o braço e pergunta:

- Alguém pode me dizer que outro pássaro trabalha muito para a preservação das plantas?

Rosalina adianta:

- Os beija-flores.

- Parabéns, filha. Não comem semente, mas são eles os maiores polinizadores das matas – abona a mãe.

Alberto ainda insiste:

- Tudo bem, papai. Ainda acho que alguém deveria inventar uma máquina voadora e nela sair voando, que nem nos tapetes mágicos que vejo nos seus livros, ou, nas vassouras das bruxas.

Henrique Dumont coça a cabeça, sorrindo:

- Pensando bem, você tem razão. Ficaria tudo mais fácil, não é? Sair por aí voando ia encurtar muito as distâncias entre os lugares. Que bom, hein! Meu filho, voar sempre foi o sonho do homem. Ícaro até colou penas no corpo com cera e tentou voar. Agora, inventar uma máquina para voar! Sei não... Mas quem diria que o homem inventaria um meio de transporte tão rápido como o trem de ferro, não é mesmo?

Todos balançaram a cabeça, concordando. Alberto logo quis saber:

- Ícaro? Quem foi?

Henrique Dumont pisca o olho direito para dona Francisca, insinuando:

- Sua mãe pode falar melhor do que eu, ela tem mais jeito para contar histórias.

 - Eu, Henrique! Ah, nem sei se ainda me lembro dessa lenda.

A mãe hesita, mas veio o coro:

- Conta! Conta! Conta!

- Ora, Chica, conta à sua moda– atalha Henrique. - Revelar aos filhos curiosos as velhas histórias da civilização é um dever dos pais.

- Está bem! Está bem. Antes, vamos selar um compromisso. Ao terminar de dizer a fábula, cada um chispa para sua cama. Prometem?

Os filhos concordam. Em silêncio, aguardando pelo início da lenda, os meninos fixam o olhar na mãe, paciente e terna, com um leve sorriso estampado no rosto.

 

* FBN© - 2013 – A Infância de Alberto – Cap. 01 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/infncia-e-adolescncia-de-alberto.html

 

 

- 01 -

 


 

* 02/II - ÍCARO. O VOO DA MITOLOGIA

*


                                              O sonho de Ícaro era escapar da prisão, voando.




Dona Francisca escorrega uma das mãos pelo rosto até a garganta e começa a história num tom suave:

- Séculos e séculos atrás vivia em Atenas um menino chamado Ícaro, filho do arquiteto Dédalo. Tão inteligente e ativo que, aos doze anos de idade, surpreendia o pai com o que sabia sobre construção de casas e palácios. Tudo ia bem, até que um dia Dédalo desentendeu-se com um de seus operários e o feriu de morte. Com medo de ser preso, o construtor e o filho fugiram para Creta, uma ilha governada pelo poderoso rei Minos, filho de Zeus e de Europa.

Lá foram contratados, pelo palácio real, para construir um enorme e misterioso labirinto. Depois de tudo pronto, ao examinar a obra, Minos apontou muitos defeitos na arquitetura e resolveu não pagar nada pela construção. Dédalo protestou e acabou preso e deportado com o filho para outra ilha, longe de Creta.

Desolados com o cruel destino, pai e filho começaram a arquitetar planos para fugir do lugar. Observando os pássaros, Ícaro imaginou que se pregassem penas de aves ao corpo poderiam voar para longe e escapar da prisão. Assim foi feito. No dia marcado para a fuga, o rapaz ouviu do pai:

- Filho, não vá se embriagar pelas delícias do voo e cometer loucuras nas alturas. Mantenha-se em altitude média. Voando muito alto, o calor do sol pode derreter a cera e soltar as penas. Voando muito baixo, a umidade do mar torna as asas mais pesadas. Portanto, não quero que ponha tudo a perder, afogando-se no mar.

Dona Francisca faz uma pausa, raspa a garganta e continua:

- Ícaro abraça o pai e salta para o infinito. No entusiasmo de poder voar, esquece os conselhos que ouviu e se eleva cada vez mais no céu. Não deu outra.  A cera não suportou o calor do sol e se derreteu, depenando o rapaz. Desamparado no ar, Ícaro caiu no mar e no mar morreu.

Alberto fica de pé, aplaudindo.

- Lindo, mamãe! Lindo!

- Bom que você gostou, filho. E o resto da turminha? – pergunta a mãe sorridente.

Todos os filhos responderam numa só voz:

- Siiiiiimmmm.

- Pois bem, agora vamos todos dormir – finaliza dona Francisca. 

- Não, mãe. Com Dédalo o que aconteceu? – pergunta Alberto.

Dona Francisca ri e continua:

- Ah, o pior. Ao ver o filho morrer ele não quis mais saber de voar. Construiu uma pequena embarcação e, meses depois, conseguiu chegar à Cecília e se tornou o mais importante arquiteto do rei Cócalo.

Rosalina arredonda os olhos e quis saber:

- Papai, isso foi mesmo verdade?

- Não, claro que não. É uma história da Mitologia Grega.

- Hein? - antena Alberto.

- História da Mitologia Grega. Coisa dos povos antigos.

- Explique melhor, pai.

- Mitologia, Alberto, é a história dos deuses e heróis da antiguidade.

- Tudo de mentirinha, ‘né? - exclama Luís, fazendo muxoxo de pouco caso.

A mãe levantando-se da cadeira:

- Isso mesmo! Isso mesmo!

- Já acabou? – pergunta Rosalina.

- Amanhã eu conto mais. Agora, vamos dormir. Vocês prometeram...

- Só mais uma perguntinha, mamãe.

- Uma só, filha.

- A senhora disse que Dédalo e Ícaro construíram um labirinto em Creta. O que é isso?

 - Pois bem, meninos. Labirinto é uma construção cheia de caminhos e passagens dispostos um ao lado do outro - dona Francisca começa a gesticular com as mãos tentando reproduzir no ar a forma e a imagem de um labirinto. - Assim... Assim... Tudo confusamente entrelaçados. Um caminho que vai para lá, outro para cá. Uns tem saída, outros, não. Uma confusão danada!

- E aí, mãe? Por que o rei de Creta queria o labirinto? – pergunta Alberto.

Henrique Dumont interrompe:

- Isso é história para outro dia. Amanhã mamãe conta o outro episódio, não é Chiquinha?

- Isso mesmo, gente. O pai de vocês tem razão, são quase nove horas de noite.

- Ah, mãe! A gente vai dormir com esse mistério todo? - protesta Rosalina.

Os filhos pediram mais. Entreolham-se os pais, trocando risos e palavras.

- Esses meninos! - murmura Henrique Dumont, bocejando por baixo do sorriso.

Dona Francisca, para alegria de todos, de novo acomoda-se na cadeira, enquanto o pai voltava a se esticar no canapé, quase morto de sono.

- Tudo bem, meus meninos, para o bem de todos termino de contar a história do labirinto. Depois, cada um chispa para a sua cama, certo?

- Combinado – repetiram em coro.

- Muito bem!  Muito bem! – ela riu-se e retoma o fio da narrativa - Segundo a lenda, o rei Minos era muito cruel. Tão cruel que os deuses resolveram castigá-lo, dando-lhe um filho na forma de um monstro horrível: meio homem, meio animal. Isso mesmo..., e muito feroz.  Inconformado com a sorte, o rei denominou o infante de Minotauro e decidiu encarcerá-lo em um labirinto. Para piorar as coisas, a ordem dos deuses era que o monstro, todo ano, devorasse sete rapazes e sete moças atenienses, como punição a Atenas por ter perdido a guerra para Creta.

No terceiro ano do martírio, Atenas enviou entre os jovens o guerreiro Teseu, que tinha a missão de derrotar e matar o Minotauro. Muito bem, assim que desembarcaram na ilha do rei Minos, sua filha Ariadne, ao ver o belo jovem grego, logo se apaixonou pelo herói e fez de tudo para salvá-lo da morte. Usando a inteligência, a princesa passou a Teseu um novelo, com milhares de metros de linha, para ser desenrolado na medida em que fosse avançando dentro do labirinto. Assim fez o herói até encontrar, lutar e sacrificar o Minotauro.

Para sair do local com seus amigos, bastou enrolar a linha novamente. Mas, temendo a fúria do rei Minos, Teseu fugiu com Ariadne para a ilha de Naxos. Como não viveram felizes para sempre, o herói voltou para Atenas. Ariadne desposou o príncipe Dionísio, com quem viveu até o fim da vida. Ponto final.

- Lindo, mamãe, lindo – elogia Rosalina.

- Muito bem... Agora, agora cada um para sua cama.

Henrique Dumont logo se posiciona ao lado da esposa e, os dois, começaram a encaminhar as crianças para seus aposentos, abençoando cada um com um beijinho na testa e um pedido:

- Não se esqueça da oração ao menino Jesus, viu? Bom sono.

 

 

* FBN© - 2013 – Ícaro. O Voo da Mitologia  – Cap. 02 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/caro-o-vo-da-mitologia.html 

 

 

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03/III – OS PRIMEIROS ESTUDOS

*


Júlio Verni

 



Santos-Dumont em seu hangar


Apesar da noção da responsabilidade de uma criança interessada por tudo, Alberto Santos Dumont era um menino que não gostava da escola formal. Percebendo o problema, os pais decidiram apostar numa outra forma de ensino, educando o filho em casa no início de sua vida de aprendizado, certos de que a vida seria a melhor professora.  Foi assim que Santos-Dumont, em conversa com o mecânico Brown, que trabalhava nas oficinas propriedade, descobriu que tinha um jeito para a ciência mecânica.

 


 



Com apenas cinco anos de idade, Alberto Santos Dumont já demonstrava seu interesse pela leitura, recortando e juntando letras que via em jornais e revistas da época. Aos seis, escrevia frases completas. Dessa forma, estudou até os dez anos de idade com a mãe, dona Francisca, e sua irmã Virgínia, época em que começou a desenhar até para fugir dos deveres escolares. A partir daí começa os cursos regulares, matriculando-se na escola Colégio Culto à Ciência, na cidade de Campinas. Em 1886, muda para a Escola Menezes Vieira, depois passa pelos ginásios Morethzon, Kopke, Morton, e encerra suas atividades estudantis na Escola de Minas, em Ouro Preto, sem ter concluído um curso superior.

 

Durante o período de férias escolares Alberto passava na Fazenda Dumont. Incansável apreciador da natureza, todos os dias, logo após o lanche matinal, corria para fora de casa para respirar o ar puro e ouvir a bulha dos pássaros, cantando no quintal repleto de árvores de todas as frutas, um paraíso encantado. O jovem era capaz de distinguir quando cantavam nas laranjeiras e nos mamoeiros os Pássaros-Pretos, os Sanhaços, os Bem-Te-Vis, os Sabiás e os Canários da Terra que, aos montes, também repicavam nos mourões das cercas e nas cumeeiras das casas da fazenda.

Outra boa distração de Alberto era sentar-se à sombra de uma tamarindeira para ler um bom livro. Ou, estendido de costas, com os olhos perdidos no céu, distraindo-se com a movimentação das nuvens suspensas no ar, como também dos pássaros em revoada. Na verdade, ele transformava o aconchego das árvores em um constante posto de observação da natureza aérea.

- Era uma delícia ficar desdobrado à sombra de uma árvore de sombra fresca olhando para cima - dizia ele aos pais.

Permanecia um bom tempo ali muito atento, como se estivesse instigando seus sonhos, a imaginação e a fantasia. Quando cansava a vista, cochilava por um instante, com o chapéu de palha sobre os olhos para a proteção do rosto. Vez ou outra recitava para si um versos de Castro Alves, que ele sabia de cor e salteado:

 

É da araponga o canto, que soluça,

Acorda os ecos nas sombrias grotas;

Quando sobre a lagoa, que se embaça,

Passa o bando selvagem das gaivotas...

E a onça sobre as lapas salta urrando.

Da cordilheira os visos abalando.

 

Aos dezesseis anos de idade, Alberto dominava o francês e o inglês, fluentemente. Da biblioteca do pai tinha lido quase todos os livros de literatura, além dos compêndios de ciências que falavam de curiosidades mecânicas. As obras de ficção científica de Júlio Verne era sua leitura predileta. Para ele, o escritor francês antecipava o progresso da Ciência ao narrar aventuras e conquistas futuristas, com suas mirabolantes ideias que previam as invenções mais incríveis, como do trem lunar, do submarino, da televisão, dos mísseis teleguiados e dos satélites artificiais - a importância da descoberta do escritor Júlio Verne a Alberto Santos-Dumont foi definitiva, marcando o caminho que ele seguiria ao longo de toda sua carreira.

Desde os sete anos de idade, tinha autorização do pai para guiar os ‘locomoveis’ de grandes rodas, empregados nos trabalhos do campo. Aos doze, aprendeu a reparar e manejar as locomotivas Baldwin que puxavam os vagões carregados de grãos de café nas 60 milhas de via férrea, assentadas na Fazenda Dumont.

Na oficina da Fazenda, com estreita obstinação, Alberto ocupava-se em aprender tudo relacionado às máquinas, demonstrando sua precoce tendência pela mecânica. Tanto que logo conquistou a confiança do chefe da maquinaria, Arthur Brown, escocês de meia idade, muito alegre e de boa instrução. Com ele iniciou o aprendizado técnico para reparar, montar e desmontar as grandes máquinas e todas as engenhocas rurais existentes na propriedade. No último dia das férias escolares de 1890, Alberto procura pelo profissional:

- Ei, Brown!

- Bom dia, rapaz – responde o mecânico com largo sorriso no rosto.

- Estou aqui para me despedir. Amanhã, domingo, parto para Ouro Preto.

- Eu sei.

- Não estou nem um pouco satisfeito. Dessa vez, não gostaria de ir.

- Ora, que bobagem é essa – espanta Brown.  - Tem que estudar. Ser um doutor. Meta de todo rapaz na sua idade, não é mesmo?

- Pode ser, mas eu não penso assim. A escola que frequento não me atrai em mais nada. Incrível, não é? Queria uma escola que me perguntasse qual é o meu sonho. Nenhuma escola que estudei até hoje foi capaz de me oferecer estudos avançados da ciência mecânica. Minha vocação é outra, você sabe.

         - Não diga isso. O liceu é muito importante para qualquer um que pensa no futuro. Acredite em mim, mocinho, e tome o rumo de Ouro Preto. Espero você nas próximas férias, certo?

Risos. Alberto desabafa:

- Não. Não quero voltar para a Escola de Minas. Para dizer a verdade, lá me sinto um ser na vertical no meio de gente demasiadamente horizontal. Arre!

- Ora, Beto...

- Gosto daqui. Desde criança descobri que minha paixão é a mecânica. Nada me satisfaz mais do que uma bancada cheia de ferramentas.

Brown arregala mais ainda os olhos.
- Oh, não! O que está me escondendo?

- Preferia ficar na fazenda, pelo menos por enquanto.

- Não! O doutor Dumont não consentiria que abandonasse a escola.

- Sei disso. 

- Você tem um potencial enorme a ser lapidado, meu filho. Precisa terminar os estudos. Sabe disso, não sabe?

- Hummmmm!

- Ou acha que, para ser bom mecânico, não tem que enfiar a cara nos livros? Comigo foi assim. Meus pais falavam que para ser alguém na vida tinha que estudar muito. Foi o que fiz e valeu o sacrifício. Se não fosse bem instruído não estaria aqui trabalhando com o seu pai. Certo?

Pausa. Alberto assume expressão séria e confessa:

- Ah, Brown, os estudos regulares, em todas as escolas, em todos os países, em todos os tempos, são os que se referem ao já feito. Com eles, a gente aprende atos que os outros já praticaram, pesquisas que os outros já fizeram, conquistas que os outros já efetuaram, intuições que os outros já tiveram, ou que os outros já coordenaram. Com eles, a gente aprende sabedoria já pronta, completa em si. Não é o que quero.

- Arre! Certa vez seu pai me mostrou um boletim de sua vida escolar. Nada bom, hein, rapaz! De estudar nunca gostou. Estava sempre procurando tempo para desenhar – recorda o mecânico.

Risos. Alberto sorridente:

- Verdade. Mas, papai não me puxou a orelha, acredita? Apenas disse para prestar mais atenção nas aulas. Quer saber, não aguento mais essa história de professor ditar a matéria e a gente ter que escrever tudo, vírgula por vírgula, ponto por ponto. Para depois, repetir tudo de novo na prova. Bolas! Não acho isso legal. Por desencargo de consciência, folheio os livros e só vejo neles coisas que me interessam, mais elevadas para armazenar em minha cabeça.

E conclui:

- Essa espécie de sabedoria que me querem incultar nada tem com minha personalidade íntima. Eu quero fantasia. E, ao mesmo tempo, quero realização. Quero uma escola que forme indivíduos criativos e independentes, que pensem por si mesmos. Quero uma escola que proporcione ao aluno a oportunidade de debater e de pesquisar para que ele apure seu senso crítico. Precisamos aprender ciências com mais profundidade. Só assim, a juventude pode pensar o futuro com mais segurança, não acha?

- Caramba!

- Desse ideal, Brow, não abro mão. Amigo, não vim ao mundo a passeio, pode crer – admite Alberto.

O mecânico contempla-o com uma espécie de admiração.

- Bacana. Nunca vi um sujeito da sua idade com tanta convicção. Parabéns. É um moço que sabe o que quer da vida.

- Por isso preciso de escolas mais avançadas, que dão mais ênfase aos estudos científicos. A era pré-industrial pede inovação, conhecimentos e, sobretudo, rebeldia. Quero uma escola que me abra portas para o mundo da tecnologia. Só isso, amigo. Só isso.

O mecânico dá tapinhas no ombro de Alberto, elogiando:

- Bravo! Bravo! Falando tão bonito assim e tão certo do que pretende seguir, me emociona.

- Aprendi muito com você, Brown. Principalmente a olhar para o futuro com convicção. Obrigado, amigão.

- Não precisa agradecer, fiz por você o que faria por um filho.

- É um homem bom. Tem prazer de ensinar o que sabe aos outros.

- Sou assim mesmo. Muito bem, acha que, no Brasil, vai encontrar a escola que deseja?

- Nunca. Ando sonhando com viagens pelos países estrangeiros. Quero ir para Paris.

O mecânico, surpreso:

- Arre! França? Pensando alto, rapazinho. Mais sem terminar os estudos regulares?

- Gostaria, sim. A Torre Eiffel tem tudo a ver com minha história porque meus avós paternos são franceses e meu pai estudou engenharia em Paris.

- Temo que ele não goste da ideia até porque é muito novo. Na juventude ainda somos um projeto, um croqui com linhas provisórias, que precisa amadurecer mais para não jogar fora um destino, não acha?

- Acho.

- Então?

Com um risinho cheio de intenções, Alberto insinua:

- Estão ‘mangando’ comigo. Arre! Não posso permitir que assim prossiga minha carreira escolar.

- Sobre isso já conversou com alguém de sua família, sua mãe ou seus irmãos mais velhos?

- Não. Nunca.

- Então procure o doutor Henrique e fale de suas aspirações. Ele deve compreender e apoiar sua decisão, claro. Afinal é pai de um jovem tão imaginativo e criativo quanto ele.

- Disgrama! Tenho medo.

- Medo de quê?

- Dele não me entender e levar uns torrões.

- Tem que arriscar.

- Claro.

- Seu pai tem cabeça boa. Pode ser que, entre vocês dois, surja uma solução.

- Tudo que preciso é o apoio do meu pai.

- Terá.

- Não sei.

- Posso fazer alguma coisa?

- Pode. Peça ao velho a permissão para eu deixar a Escola de Minas. Ele bota muita fé em você.

- Não. Não. Isso não, Betinho. Você mesmo vai dizer a ele o que pensa.

- Por favor, Brown!

- Se ele pedir minha opinião, aí sim, falarei a verdade, afirmando que seu futuro está na Europa. Paris, sem dúvida, é o destino mais sedutor.

- Tudo bem! Você tem razão. Quer saber, vou conversar com ele agora mesmo. Se compreender e consentir que eu siga meu trecho, garanto que nunca mais me dedicarei aos estudos metódicos, programáticos, curriculares. Agora, tenho que seguir o caminho de minhas pretensões futuras. Preciso de física, matemática, mecânica, eletricidade. É isso! É isso!

O mecânico coloca a mão no queixo, pensativo.

- Patrãozinho! Concordo em gênero, número e grau.

Alberto ri da cumplicidade do amigo.

- Bacana.

- Vá em frente, rapaz. Torço e rezo por você.

- Obrigado. Acha que o velho vai concordar?

- Penso que sim. Com esse palavreado inteligente, todo cheio de termos bonitos, você convence qualquer um.

- Acha mesmo?

- Claro. É um rapaz de ouro, tem a quem puxar. Inteligente e perspicaz, igual ao seu pai. Tenho certeza que ele vai apoiar e dar a maior força aos seus planos.

- Legal. Agradeço o alento. Tiau!

- Caramba, não vai sujar as mãos na oficina?

- Hoje não. Ficarei por conta de convencer o velho porque a vida borbulha a mil dentro de mim.

Brown, em sinal de ternura, espalma a mão na cabeça de Alberto e dá uma leve sacudida:

- Boa sorte, meu camarada!

- Tiau.

O rapaz, imediatamente deixa o local e corre para encontrar o pai no seu escritório. A manhã estava limpa de nuvens e fresca.

 

 

 

* FBN© - 2013 – Os Primeiros Estudos  – Cap. 03 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/os-primeiros-estudos.html

 

 

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