21.9.08

04/IV - ALBERTO CONVENCE O PAI. E VISITA PARIS PELA PRIMEIRA VEZ.

*


                                                             Paris - Belle Epoca


Alberto vivia à frente de seu tempo. Participativo, carismático, sonhador e entregue à paixão pelos estudos da ciência, tinha tudo para viver bem em Paris, cidade que oferecia, além da sofisticação do velho mundo, um avançado ensino de matemática, física e mecânica.
 







Alberto logo avista o senhor Henrique, de pé, falando na varanda da sede com um dos encarregados da fazenda. Para não interromper a conversa, ele se acomoda num banco de madeira à entrada do jardim, debaixo de uma velha Figueira de folha miúda.

Enquanto esperava, tira do bolso um saquinho de papel cheio de canjiquinha de milho e espalha a comida no chão. Não demora, atraídos pelo gesto do adolescente, bandos de canários-da-terra, rolinhas, tico-ticos e papa-capins descem para o solo, seduzidos pelo alimento.

Henrique Dumont, ao ver o filho esperando por ele, despede-se do empregado e desce a escadaria da varanda. 

- Olá, meu filho! Pelo jeito quer falar comigo?

- Oiiê! Posso?

O empresário consulta o relógio de bolso e senta-se ao lado de Alberto, sorrindo.

- Sim. Sou todo ouvido.

- Obrigado, pai.

- Vamos, fale.

- Nem sei como começar.

- Tão grave assim?

Alberto enrubesce:

- Julgo que sim.

- Aposto que quer adiar por uns dias seu retorno à Escola de Minas. Ideia da sua mãe, não é?

- Não. Não. Mais sério.

- Está doente? – assusta-se o pai.

- Também não é isso.

- Então diz logo, menino!

- Não quero voltar para Ouro Preto.

Henrique Dumont passa a mão pelos cabelos.

- O quê?

- Isso mesmo, pai. Não penso voltar para a Escola de Minas.

- Não?

- Não.

- Não me diga que deseja mudar de escola no meio do ano?

- Quero.

- O que está a imaginar?

- Sabe. Sabe...

- Vamos, não tenha medo de contar.

- Quero estudar em Paris.

- Pá-rís! – itera Henrique, acentuando cada uma das sílabas.

- Isso mesmo, Paris.

-Assim, assim... De repente.

- Não vejo outro lugar para me aprofundar nos estudos da matemática e da física.

- Sei.

- Preciso desses ensinamentos, pai. Tenho planos...

- Imagino.

- Minha vocação é a mecânica. O senhor bem sabe.

- Sim. Desde menino demonstra esse dom. Tem facilidades para desenhar e muito intimidade com os cálculos matemáticos. Filho brilhante, mas...

 - Então?

- Paris! Paris! Não é melhor terminar seus estudos em Ouro Preto?

- Penso que não.

- Bem, se não quer ir para Minas, quem sabe vai para o Instituto São Bento, no Rio de Janeiro?




- Mesma coisa?

- Vamos ser realista, pai. Que mais uma escola no Brasil pode me oferecer? Nada. Tudo diferente do que eu penso. Quero uma escola positivista, onde os estudos científicos prevaleçam. Tenho aptidão pela mecânica e não abro mão. Alimento de novas alternativas para a minha formação.

- Concordo, filhão. Também penso que uma escola deve propiciar ao jovem liberdade para explorar áreas de seu interesse. Mas...

- Mas o quê, pai?

- Então pretende mesmo seguir o caminho da mecânica?

- Está no sangue. Já nasci com uma bússola encravada no cérebro, apontando nessa direção. Tenho a quem puxar, não acha?

Risos. Henrique Dumont aprova fazendo sinal com a cabeça. Depois, abre um sorriso e fala:

- Sem dúvida, meu filho. Sem dúvida. À medida que o filho cresce e se anuncia a floração de seu talento, o Brasil torna-se demasiado estreito para um aprendizado científico. Reconheço que é preciso partir, sim. No seu caso, Paris é a melhor opção. Lá as coisas acontecem de verdade, porque a cidade é o grande motor da Continente Europeu, quiçá do mundo.

- Claro.

Pausa. Henrique:

- Então meu Alberto quer estudar em Paris?

- Sim, sim. A gente precisa de ter sonhos para ter uma direção na vida, não é assim que o senhor nos ensinou?

- Evidente. Não me agrada o homem cuja mente não aprende, enquanto jovem, a colocar confiança no rumo de sua vida.

- Posso ir?

O pai coça a barbicha, meio afligido.

- Betinho!

- Qual a diferença para o senhor e para a mamãe se eu estudar em Ouro Preto ou em Paris? De todo jeito, eu estarei ausente, longe quilômetros e quilômetros de casa.

- Ouro Preto fica ali mesmo!

- Ali... Ali..., mas a geografia separa a família do mesmo jeito.

- Arre! Tem argumentos para tudo, não é?

- Sei que é uma decisão difícil para um pai amoroso como o senhor. Mas, estamos falando do meu futuro.


- Ou devo tirar da cabeça essa ideia?

- Não pode, não deve – afirma o pai com eloquência.

- Não?

- Não dá para abrir uma porta sem fechar outra, mesmo sabendo que o amor está acima de tudo, não é? Pois bem, se quer ir para Paris, precisamos ter uma conversa de adultos.

- Aqui ou no seu gabinete?

- Vamos aproveitar a manhã, que está linda, e caminhar um pouco. Vem, vem.

- Claro.

Com um gesto fraterno, Henrique Dumont passa o braço direito em volta dos ombros do filho e saem os dois pela alameda, que ia dar na estrada que cortava a Fazenda Dumont até a cidade de Ribeirão Preto. Duas fileiras de árvores ao bordo do barranco, finas e altas, derramavam no ar um cheiro forte de resina. Eram os eucaliptos, irradiando a natureza..., fazendo manchas escuras na terra avermelhada da região. No infinito, o sol levantava-se num cristal ardente, porém não emitia tanto calor. Doutor Henrique, continuava:

- O difícil, filho, é convencer meu coração que vai partir para muito longe, ainda tão moço. Por outro lado, orgulha-me saber de suas pretensões numa área da ciência que, hoje em dia, empolga o planeta.

- É isso, pai. Preciso tirar os pés do chão.

- Hein!

Alberto, com as mãos apontadas para o espaço.

- Não vou mentir. Das minhas pretensões na França, uma é ver como funciona o balonismo.

- Então quer voar de balão?

- Também. Aerostação é uma área da ciência que me atrai. Alguma coisa contra?

- É um esporte radical, dá medo.

- Não se preocupe. A segurança no voo é cada dia maior.

- Não sei. Ainda temo uma aventura dessa altura.

- Fique tranquilo.

- Bem, nada contra.  Mas não acha que isso é uma tentação passageira, influenciada pelos livros de Júlio Verne, que não se arredam da cabeceira de sua cama?

- Nem poderiam. A narrativa dele me fascina desde criança. O senhor esqueceu que, no ano em que nasci, foi lançado seu livro A Volta ao Mundo em 80 Dias.

- Não, não sabia.

- Coincidência ou não, a capacidade criadora desse autor francês me deslumbra, completamente – excita Alberto.

- É.

- Seus livros me proporcionam fantástica viagem ao futuro. Por isso mesmo mergulho de cabeça na obra desse gênio da ficção científica, que projeta um mundo de aventuras científicas deslumbrantes, como submarinos e naves espaciais.

- Claro. São temas propícios a esses voos, filho. Ainda mais quando encontram um jovem com a imaginação fértil como a sua. Não é mesmo?

- Sim, pai. A sadia imaginação desse escritor, verdadeiramente grande, atirando com magia sobre as imutáveis leis da matéria, me fascinou desde a infância. Nas suas concepções audaciosas eu via, sem nunca me embaraçar em qualquer dúvida, a mecânica e a ciência dos tempos do porvir, em que o homem, unicamente pelo seu gênio, se transformaria em um semideus.

- Júlio Verne! Júlio Verne! Ah, me lembro muito bem de uma frase dele que, confesso, me deu rumo na vida.

- Qual?

Henrique Dumont vira os olhos para o verde de sua plantação de café e, em tom recital, diz:

- Tudo o que um homem é capaz de imaginar outro é capaz de realizar. Como se vê, levei a mensagem ao pé da letra.

- É isso, pai. É isso. Os romances do escritor francês estão aí, cada vez mais, apontando novos caminhos para a humanidade, como se dissessem que devemos rever e formular novas leis da ciência. Por exemplo, as locomotivas a vapor de nossa fazenda podem ser os embriões do Trem Lunar, a nave espacial imaginada por Júlio Verne para conquistar o espaço atmosférico do nosso planeta. Ou não?

- Não sei. Não sei. Mas, não posso negar que Verne capturou uma visão avançada da ciência com suas maravilhosas criações. Por exemplo: os submarinos que navegam em águas profundas e naves que viajam para a lua. Mas, tem um porém: não podemos esquecer que se trata de uma obra de ficção. Não devemos nos iludir, filho.

- Sim. Sim. Ô, pai, não é difícil perceber que alguma coisa concreta pode surgir da ficção de Júlio Verne. Não percebeu ao ler seus livros?

- Gostei muito de Viagem ao Centro da Terra em que concebeu um interior do planeta com seres pré-históricos. Fantástico! Mas...

- Mas?

- Para mim, suas obras não passam de distração e entretenimento. Daí a imaginar coisas...

- Mais do que isso, pai. Seus livros fazem parte do que podemos chamar de literatura transformante, sem nunca deixar de ser entretenimento, de aventura, de formação, tudo. Diante deles, eu tenho a dimensão e a clarividência da modernidade.

Doutor Henrique reabre o sorriso.

- Olhando por esse lado...

- Júlio Verne me inspira a estudar para um dia, quem sabe, vencer as alturas e conquistar o espaço que ele imagina na ficção.

- Tudo bem. Mas, mão acha que deveria entreter-se lendo mais outros autores. Aqueles que exploram o lado romântico da vida... Na sua idade, cultiva-se muito o amor.

- Ô, pai! Sempre fui e continuo sendo um bom leitor. Os livros constituem um mundo melhor dentro do mundo, já ensinava o filósofo escocês Adam Smith. Sou apaixonado pela literatura e ciente do que um bom livro proporciona ao cidadão, portanto, posso afirmar que minha leitura não é só Júlio Verne. Aprecio também Machado de Assis, Castro Alves, Tomás Antônio Gonzaga, Alvarenga Peixoto, Camões, Vieira, Eça de Queirós, Herculano, Balzac, Flaubert, Lorde Byron, Garret, Victor Hugo... Quer que eu cite mais?

- Não, não precisa. Pelo dedo se conhece o gigante!

Risos. Alberto com voz mais enfática:

- Mas posso dizer que foi a literatura que me levou a Júlio Verne. E foi ele que me levou ao interesse pela ciência e pela mecânica.

- Sei.

- Aprendo com os clássicos a sabedoria e a maturidade para entender as coisas no presente, e sonhar com um futuro ideal para mim e para a Humanidade. Cultura é conhecimento, pai.

- Meu Deus! Estou surpreso com o dom que tem para articular as palavras e persuadir quem está do seu lado! Não imaginava que tenho em casa um mancebo tão letrado assim.

E cofiando a barba:

- Porque não sei, mas sempre achei que você deveria seguir a carreira política.

- Eu, pai! Logo eu que nunca mostrei afinidades com a política.

- Sim. Sim. Mas, agora, com a recente troca do regime para República, estamos vivendo um momento de grandes mudanças.

- É o que se espera da Nação. Mas... Mas, pelo andar da carruagem tudo vai ficar como dantes no quartel de Abrantes.

Henrique Dumont solta uma gargalhada e insiste com o filho:

- O Brasil respira novos ares e precisa de boas cabeças na direção do país, não acha?

Alberto censura:

 - Carreira política, pai! Nem gosto de discutir política, muito menos pensar em ser um membro do Congresso Nacional. Arre, nada a ver comigo! Completamente fora do meu foco.

          - Por quê?

- São vorazes demais. Ali se pratica, sem o menor pudor, nepotismo, clientelismo, fisiologismo, populismo, empreguismo... ‘Ismo’ demais para minha cabeça.

         - Tenho que reconhecer que a mentira sempre foi a base do nosso sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, nunca a verdade foi límpida à nossa frente.

- No Brasil, mesmo com o novo regime, continuamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor, 'explicáveis' demais.

- Mas, temos que reconhecer que temos políticos sérios.

- Minoria absoluta, claro. No entanto, tão inútil, impotente, desfigurada. Pais, o que já estava ruim antes, fica pior a cada dia, porque a grande maioria dos políticos brasileiros sãos atores de uma guerra pelo fisiologismo cada dia mais suja. Casa dos maiores horrores! Não passam de espertalhões que se reúnem para discutir seus próprios interesses. O que falta, pai, é vergonha na cara de certos parlamentares. Tão imunda que obrigaria Nicolau Maquiavel a se atualizar, pense nisso.

- Arre!

- Todo mundo sabe que a instituição tem sido vítima de uma disputa de interesse pessoais e da vaidade de alguns parlamentares, que se colocam acima das verdadeiras funções de uma casa legislativa. Triste a situação do Senado Brasileiro que nasceu com origem tão nobre no início do Império, e que hoje se vê envolvido numa situação tão atroz! – emenda Alberto com a testa franzida.

- Ora, filho.

- Ora, pai, grande parte dos parlamentares são maus políticos que não se importam nem de serem xingados na rua, desde que recebem o valor da fatura mensalmente liquidada. Tudo em nome da governabilidade, o que significa barganhar, ‘toma lá dê cá’. São vorazes! Apropria-se, cada vez mais, de bens públicos por todo o país. Lendo Foucault aprendi a enxergar a mão furtiva do poder, mesmo nas sociedades aparentemente livres. O resto é utopia pura, ilusão.

- Arre!

- A farra é deles. A conta é nossa, do povo. Vivemos em um país na contramão do mundo civilizado. Ou já se esqueceu disso?

O pai, com um olhar cúmplice:

- É. Tem alguma razão.

- Não, pai! Meu universo é outro. Prefiro acreditar mais em programas e projetos do que em políticos.

            - Se é assim que raciocina, esqueça o que eu disse.

            - Melhor.

            - Quando pensa embarcar para Paris?

- O quanto antes. Não posso deixar o bonde de história passar. Sinto que posso refazer, para minha satisfação e uso, traçados e cálculos sugeridos ou resolvidos pelas obras de Júlio Verne.

- Hein?

- São hipóteses. Hipóteses, pai. Uma coisa é certa: a ficção científica mostra que muita coisa nesse mundo pode se tornar real.

Pausa. O pai com uma comoçãozinha, logo pronuncia:

- Paris! Adoro Paris.

- Sim.

Henrique Dumont alarga um pouco mais o sorriso, enquanto fazia comovente varredura na memória. Alberto pergunta

- Guarda saudades de lá, não é mesmo?

- Claro. Claro – exclama o pai, dando uma risada.

- Com certeza lembra de todos os grandes momentos na Cidade Luz?

- Alguma coisa. A cabeça já não anda tão boa assim para guardar lembranças. Mas, não me incomoda, porque traz vantagens. Diz um velho ditado popular que o benefício de uma memória ruim é que se aproveita várias vezes pela primeira vez as mesmas coisas boas.

 Risos. O pai continua:

- Paris é a cidade mais amada do mundo. Seja pelo charme de seus bulevares ou pelo patrimônio cultural e científico, pela sua gente hospitaleira. Arre! Quando, por dentro, conhecemos a profundidade de uma cidade como Paris, a gente se dá conta de que a felicidade é possível nesse mundo. Meu Deus, quanta lembrança! Cidade das artes, da ciência e da boa comida!

- Imagino.

Pausa. Henrique Dumont, como que flanando pela cidade, num devaneio que transita entre o passado e presente, admite:

- Ai, meu Deus, agora me passa pela cabeça recordações de meus tempos da universidade!

- Bons tempos, eu imagino.

- École Centrale de Arts Métiers.  Não tem em Paris nada que retrata melhor o espírito audacioso da capital francesa. Fui muito feliz ali... Saudades!

- Boas e inesquecíveis lembranças?

O engenheiro responde de forma suspirada:

- Bois-de-Boulogne!

- Bem, se quiser, pode me contar tudo que viveu em Paris.

Henrique Dumont, entusiasmado começa a falar dos tempos em que estudou na França, narrando passagens agradáveis e curiosas que ele viveu em Paris, principalmente, dos piqueniques nos grandes parques da cidade. Alberto ouviu com atenção e paciência até o fim.

 - Bois-de-Boulogne! - repete o filho.

- Maravilhoso! Deve estar do mesmo jeito até hoje, não?

- Talvez.

- Paris é Paris, não é?

- Sim, sim. Então, pai, estudo em Paris?

Henrique acena com a cabeça, afirmando:

- Vamos.

- O senhor também vai?

- Sim.

- Agora? Comigo?

- Não. No ano que vem.

Alberto meio desapontado:

- Ano que vem?

- Melhor assim, sem afogadilhos. Preciso ver como vão meus negócios lá e, na sua companhia, terei maior tranquilidade. O que acha disso?

- Se é assim que o senhor quer, tudo bem. E a Escola de Minas?

- Você segue amanhã para Ouro Preto e termina o ano letivo. Só mais um semestre, passa logo.

 – Papai!

- Teima não, Betinho. Assim, contamos com o tempo necessário para pensar direitinho no que vamos fazer em Paris. Seus parentes esperam ansiosos por você em Ouro Preto. Imagina a decepção de seu avô se não chegar lá no final das férias!

- Mas, pai! Não seria melhor...

- Não. Cuido de nossa viagem. Uma coisa eu garanto: quando chegar em Paris, filho, você é quem vai escolher o que aprender, como e da forma que lhe convier. Desde já, tem meu apoio para viver em Paris. Palavra de Henrique Dumont!

- Obrigado, pai. Então tenho mesmo que ir para Ouro Preto?

- No momento é o melhor.

Alberto obedeceu sem relutância, embora intimidante abalado. Abre um sorriso e abraça o pai, demoradamente. Com os olhos umedecidos:

- Tudo bem, papai. O senhor tem razão. E depois, pensando bem, só falta um semestre. Passa logo, não é mesmo?

- Dou graças a Deus de ter um filho obediente assim! Entre todas suas qualidades há a uma admiro mais ainda.

- Qual?

- A capacidade de compreensão das coisas.

- Tudo bem, pai. Obrigado pelo apoio.

- Agora, vamos dar a notícia à sua mãe. Ela deve ter algo a acrescentar, não é mesmo?

- Sem dúvida. Sem dúvida.

- Nenhuma influência é tão poderosa quanto aquela de mãe.

- Sim.

Pausa. Doutor Henrique:

 - Betinho, alegra-me saber que você conhecerá nossos parentes do outro lado do Atlântico.

- Vou adorar.

De súbito, quando caminhavam de volta pela alameda, um zunido forte e inesperado interrompe a conversa dos dois. Eram abelhas desgarradas de uma colmeia. Temendo o ataque, os dois correm para a varanda da casa grande, enquanto, aos gemidos, eles enxotavam os insetos que zumbiam por cima de suas orelhas. Sem perder o humor, eles começaram a rir da cena ao se verem protegidos dentro da casa.

- Ufa! Diacho de abelhas! – desdita o pai.

Dona Francisca, preocupada:

- Foram picados?

- Apenas uma picadinha no braço – responde o filho. Papai teve que lutar muito para não ter o rosto atacado. Ainda bem que, além da boina, estava de paletó e colete.

A mãe prontifica-se:

- Vou buscar uma mecha de algodão com vinagre e sal para passar no local.

- Que nada, mulher, na roça a gente usa é terra mesmo – contesta Henrique já estendendo uma das mãos até um vaso de plantas ao seu lado, colhendo um punhado do produto natural.

- Toma filho, passa que não deixa inchar. Fricciona bem, viu?

- Ah, Henrique, onde já se viu sujar o braço do menino! – protesta a mãe.

- Depois ele lava com vinagre, álcool ou sabão, como quiser. Muito bem! Muito bem! Francisca, meu bem, quer saber da última?

- Lógico.

- Temos boas novas.

- Qual é? Fala logo, Henrique.

- Alberto vai estudar em Paris.

- Paris! - exclama a esposa, surpresa. – Santo Deus, quando?

- Ano que vem – responde Alberto.

- Então é verdade?

- É.

- Ai... Só de ouvir isso, meu coração começa a ficar apertado.

Henrique Dumont leva as duas mãos ao peito:

- Mas ele não vai sozinho.

- Não?

- Vamos todos juntos.

- Todos? A família inteira?

- Possivelmente. Depois de alojar nosso filho na cidade, podemos voltar com mais tranquilidade.

- Claro.

- Francisca, alguma coisa me diz que Alberto vai dar muito bem em Paris. Que acha?

- Vou rezar muito.

Alberto caminha em direção à mãe, dizendo:

- Dona Francisca, amo e admiro muito a senhora. Muito, muito mesmo.

- Obrigado, filho.

Voltando-se para o pai:

- Farei de tudo para que sejam os pais mais orgulhosos do mundo.

- Tenho fé! – professa a mãe abraçada ao filho.

Nesse instante, as duas irmãs de Alberto, Sofia e Francisca entram na sala e se comovem com a decisão da família. Em seguida, uma delas chama:

- Gente, já são dez horas da manhã. O almoço está servido. Não suporto almoçar sozinha.

- Oba! – exclama Alberto.

- Francisca, o que mandou preparar para hoje? – pergunta Henrique, curioso.

- O prato preferido do Betinho: frango ao molho pardo, com angu e quiabo. Para a sobremesa eu mesma fiz o doce que ele adora.

- Aletria com canela, mãe?

- Acertou. De dar água na boca. Vamos.

- E meu prato? – questiona Henrique meio enciumado.

- Seu bobo, acha que ia esquecer do paladar de meu querido esposo. Também está lá uma suculenta canjiquinha com costela de porco e couve rasgada.

- Hmmmmm! Então vamos que já estou com água na boca.

Dona Francisca toma os filhos pelas mãos e caminham juntos para a sala de jantar, onde a mesa estava posta com os deliciosos quitutes preparados pela nhá Jacira.

No dia seguinte, Alberto parte para Ouro Preto. Antes de completar o ano letivo na Escola de Minas, recebe uma carta de dona Francisca dizendo que seu pai havia sofrido um acidente de charrete e se achava gravemente enfermo. Ele bateu com a cabeça numa pedra e tornou-se hemiplégico – paralisação de um dos lados do corpo.

De regresso à fazenda, Alberto encontra Henrique Dumont doente, infeliz e sem ânimo para administrar os negócios. Diante das crescentes dificuldades, apoiado pelos familiares, o engenheiro vende a Fazenda Dumont a um grupo inglês pela fabulosa quantia de doze milhões de contos de réis - o maior preço, até então, pago no Brasil por uma propriedade agrícola.

Em abril de 1891, o engenheiro embarca com a esposa e os filhos para a França, a bordo do navio Elbe, para tratamento em termas francesas.

Em Paris, durante sete meses o jovem Alberto, além de admirar os balões tripulados voando ao sabor do vento, perambulava horas inteiras pela cidade, seduzido pela saborosa comida dos cafés, principalmente, pela bouilabaisse especial, servida nos bares da Praça Pigalle, em Montparnaise.

Encanta-se com a imponente e arrojada estrutura metálica da Torre Eiffel com seus16 mil pedaços de ferro, encaixados numa armação com mais de trezentos metros de altura. Tão imensa, que não precisa de sol para ser vista de qualquer ponto de Paris. Outra atração urbana que empolgava Alberto era passear pelos parques, praças e avenidas arborizados, como também, admirar o rio Sena, suas pontes e os bateauxs navegando por suas águas.

Para Alberto não tinha frenesi melhor do que ver Paris anoitecer, linda e cheia de luzes, irradiando o brilho dourado da claridade de seus palácios e prédios públicos. Era uma forma de sentir um verdadeiro francês em Paris, a maior riqueza cultural do globo terrestre com seus ideais extravagantes e revolucionários.

Após o tratamento nas termas Lamalou-les-Bains, Henrique Dumont e a família deixam a França. Alberto, em solidariedade ao pai doente, não quis ficar em Paris. Comprou e trouxe para o Brasil o primeiro automóvel a petróleo que rodou em solo nacional: um Type 25 hp, da Peugeot Phaeton, fabricado pela Usina Valentigney.

Entusiasmado com a iniciativa do filho e consciente de que seu futuro estava Europa, na manhã do dia 12 fevereiro de 1892, Henrique Dumont leva Alberto ao Cartório Terceiro Tabelião de Notas e manda lavrar a escritura de sua emancipação.

Questão resolvida, Alberto recebe mais recomendações do pai:

- Já lhe dei hoje a liberdade; aqui está mais este capital. Tenho mais alguns anos de vida; quero ver como você se conduz; vai a Paris, o lugar mais perigoso do mundo para um rapaz. Vamos ver se você se faz um homem; prefiro que não se faça doutor, muito menos, por enquanto, caia nas armadilha do amor. As universidades não servem apenas para produzir conhecimento teórico; servem também para fechar lá dentro esses produtores de conhecimento. Em Paris com o auxílio de nossos primos você procurará um especialista em física, química, mecânica, eletricidade, etc., estude estas matérias e não se esqueça que o futuro do mundo está na mecânica. Você não precisa pensar em ganhar a vida; eu lhe deixarei o necessário para viver. Terá cerca de 5 milhões de francos em seu nome, depositados em conta remunerada no Banco Francês.

E depois de refletir um pouco, reforça:

           - Meu filho, de acordo com um provérbio chinês há três coisas na vida que jamais voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida. Se o futuro está na mecânica, amplie os estudos dessa ciência, seja um pesquisador por excelência e surpreenda o mundo com sua sabedoria. O futuro não está escrito, nós fazemos o próprio destino. Certo.

            - Certíssimo, pai. Certíssimo.

            - Siga seu trecho com a graça de Deus.

            - Amém.

            - Deus nosso Senhor vai lhe proteger, sempre. Tenho fé.

            - Ô pai, obrigado. Obrigado.

            Pausa. Henrique Dumont:

            - Ninguém prescinde da ciência e de sua filha dileta, a tecnologia. Assim, como todos que temos uma dimensão de fé, ainda que restrita ao amor que une pais e filhos, eu e sua mãe vamos sempre rezar para que Jesus ilumine seus passos no desbravamento de novos caminhos para a ciência.


Em maio desse mesmo ano, acompanhado novamente de seus pais, Alberto volta à Europa, decidido a residir em Paris.

 

 

* FBN© - 2013 – Alberto Convence o Pai. Visita Paris pela Primeira Vez – Cap. 04 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/alberto-convence-o-pai-e-visita-paris.html

 

 

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