21.9.08

07/VII - AUTOMOBILISMO. OUTRO FASCÍNIO DE DUMONT.

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História da Peugeot

História do Automóvel

No final do século 19 a mania entre a rapaziada de Paris
era substituir as charretes com tração animal pelos veículos movidos à gasolina. Dumont
aproveita a ocasião e lança a primeira disputa de velocidade entre os choferes das
máquinas que pipocavam pelas ruas da cidade.







Alberto deixa de lado as tentativas de voar em balões por uns tempos, compra um mototriciclo e descobre nas máquinas uma beleza tocante e viril.  Além de se divertir rodando em alta velocidade pelas ruas de Paris, tirava proveito técnico do veículo ao desafiar obstáculos nas alamedas irregulares de Montmartre, como se o ronco dos motores reproduzissem um hino otimista à vida moderna.
Em novembro de 1892, ele embarca para o Brasil no navio Orénoque. Depois de passar dois meses com a família, regressa à França, ainda abalado pela morte do pai. Numa manhã fria no início de janeiro, retoma as aulas com seu preceptor.
- Bom dia, professor Garcia.
- Bonjour!... Como foi de férias?
- Aconchego dos parentes faz bem ao coração, apesar da triste ausência de meu pai.
- Recebi seu telegrama. Minhas condolências – conforta o Professor.
- Meu pai sai de cena deixando saudades. Perdi o melhor amigo – confessa Alberto com a alma profundamente ferida.
- Toda perda é uma dor sem medida, porque a dor dos que ficam parece não ter fim. É a vida, filho. Faz parte.
- Estou muito abalado. Esse é o sentimento que tenho.
- Imagino.
- Deixou-nos aos 60 anos, arruinado pela doença. Chegou ao ponto que nem Deus, nem os médicos poderiam fazer algo por ele. De fazer dó.
Alberto, apertando os olhos:
- Sabíamos que esse dia chegaria, mas que tristeza, meu Deus! Porém, enquanto isso, o que vigorava era a incerteza vendo meu pai preso a uma cadeira de rodas. Pensava: por que as coisas ruins acontecem com as pessoas boas?
- Difícil entender. Não há sentido nelas.
- Não. Não há.
- Seu coração parou durante a noite e ele adormeceu para sempre, rodeado por amigos, familiares e todas as pessoas que ele amava. Morreu em paz e feliz. Mas, foi um baque para todos nós – confessa o rapaz desalentado.
- A morte, meu filho, é uma perda triste para todos, difícil de superar.
- Com certeza.
- De acordo com os especialistas, o primeiro ano após a morte é o mais difícil de ser enfrentado pelos parentes.
Melancólico Alberto:
- Ainda bem que faleceu com seus entes queridos ao seu lado, dando-lhe a maior assistência. Um conforto sem preço, não é mesmo?
- Sem dúvida. Sabendo de seu estado de penúria, rezava por ele todos os dias, mesmo sem conhecê-lo.
- Obrigado. Papai era muito querido por todos nós. Aliás, ele era um anjo. Alegre, espontâneo, solidário, carregado de sorrisos luminosos – sua marca registrada. Ninguém mais simples na maneira de ser, de se vestir, levar a vida. E assim soube construir um relacionamento familiar que se nutria de muito carinho e sabedoria entre os filhos. Dele herdamos essa coisa de lutar, lutar e nunca esmorecer diante dos obstáculos. Uma grande lição que me enche de forças continuar vivendo numa terra estranha. Temos tudo a ver.
- Claro. Claro.
- Onde quer que esteja, obrigado, pai.
- Bonito.
- Por justiça divina, deveria ser proibido perder pai tão cedo, não é mesmo?
Pausa. Professor Garcia:
- Isso é algo que escapa à nossa compreensão.
- Totalmente.
- Não sabemos se é Deus, o destino ou a natureza que ordena nossa existência. Eu, por exemplo, estou convencido de que o morto assume solitário um destino de onde jamais retornará. Até hoje nada conseguiu me tirar isso da cabeça.
Alberto, depois de um breve silêncio:
- Meu pai sai de cena deixando saudades. Apesar da tristeza, do peso oprimindo no peito, que só o tempo possui o poder de curar, devemos fazer alguma coisa para que o sofrimento não apague a vontade de viver, não é mesmo? Enfim, a vida segue.
- Evidente. O negócio é apagar da sua mente as imagens dolorosas, físicas e emocionais pelas quais ele passou, mesmo sabendo que, quanto maior a cruz, maior o crescimento espiritual.
- É. Meu pai sofreu bastante nesse final de expediente.
- Muito bem, rapaz, voltou disposto a procurar o Aeroclube, apesar das afirmações duras desses pilotos?
Alberto hesita em responder. Mas, ao fim de 30 segundos, tomado por um forte entusiasmo, revela:
- Não. Tenho outras ideias na cabeça.
- Desistiu de voar, de ser argonauta?
- Mesmo contaminado pela decepção do meu primeiro contato com os balonista, ainda penso nisso. Não vou perder, de jeito nenhum, o foco nos balões.
- E ai, o que você pretende fazer?
- Por hora, penso me dedicar ao automobilismo.
- Automobilismo! – surpreende-se o professor Garcia.
- Isso mesmo.
- Acha que é o melhor para você?
- Imagina ser um choufeur?
- Espero ter vocação para tal. Pensando com meus botões, voltei para fazer Paris trepidar ao estampido dos motores a petróleo.
- Como assim?
- Quero promover uma competição de mototriciclo na cidade.
- Agora?
- O mais rápido possível. Não tem época melhor para se pensar num acontecimento dessa natureza.
- Por quê?
- Cada dia Paris anda mais motorizada do que nunca, professor. Não vê a quantidade de motos circulando pela cidade? Caiu no gosto da moçada.
- Verdade.
- Andar de mototriciclo tornou-se mania, virou uma questão de atitude social para uma geração movida a mudanças radicais no mundo. Muita gente já aderiu à onda e, de quebra, ganhou qualidade de vida, traduzida em mais agilidade e velocidade para se locomover. Anda mais rápido do que qualquer bicicleta da Michaux ou um veículo de tração animal.
- Sem dúvida.
- Portanto, ambiciono levar a ideia aos fabricantes de automóvel e pedir apoio para promover o evento.
- Onde pensa realizar a corrida?
- No Parc-des-Princes. Pretendo alugar a área por um fim de semana e promover a corrida com a participação da rapaziada parisiense. Vai ser assim: cada um por si e Deus favor de todos na competição, mostrando que a vida é movimento.
- Hummmm!
- Espera despertar suficiente interesse do público jovem?
Alberto respira fundo e confessa:
- Tem tudo para dar certo. A moçada está cada vez mais atraída pelo auto esporte. É a ‘coqueluche’ do momento.
- Por aí, sim. Eles estão procurando algo novo para fazer, não é mesmo? Os jovens de hoje querem movimento, ação, desafios, turbulência para se radicalizar na emoção da vida moderna. Tenho fé que vai dar certo. Tenho fé.
Risos. O professor sorrindo:
- Calcula tudo. Parabéns, Alberto.
- Vrummmmm!!!.
- Com imaginação é possível chegar a qualquer lugar.
- Quero um acontecimento com muito barulho, literalmente falando. Estrondo máximo de motor para acirrar a disputa entre os motociclistas. Coração a mil.
- Você é mesmo muito inventivo. Sonha alto e pensa longe. Admiro sua verve extravagante, sempre nutrida por otimismo. O que é muito bom.
- Monsieur Garcia, o mundo está evoluindo. Basta comparar as fechaduras de hoje com as de outros tempos. Não é muito, mas foi um avanço. Portanto, algo me diz que será uma modalidade esportiva que a sociedade parisiense aceitará numa boa e para toda a vida.
- Deus o ouça.
- Merci. Em um íntimo tributo vou dedicar o evento à memória de Henrique Dumont, deixando viva a marca de meu pai que não morreu completamente. Ele está na janela do céu observando e protegendo a dimensão humana cá embaixo. O que o senhor acha?
- Magnífico. Boa homenagem a um pai.
- Papai continua vivo dentro de mim. Admirava sua determinação. Tanto que nem nos piores momentos da doença se abalava, nem a proximidade do acaso tirou-lhe seu sorriso, sua firmeza madura. Não era de reclamar, muito menos proferir palavras de revolta, indignação, nada. Aceitou tudo com incrível serenidade.
- Com certeza.
- De onde ele estiver sei que vai gostar da homenagem. O automóvel estava na alma dele também e vivia dirigindo as máquinas da sua fazenda de café. Essas cenas grudaram no meu coração, e vou poder recordá-las sempre que precisar.
- Imagino. Afinal, ele era um grande empreendedor.
- Amava a mecânica, o desenvolvimento tecnológico.
- Pois então segue adiante vosso caminho. Seja fiel à vossa propria natureza que tudo vai se realizar com sucesso – estimula o professor com um sorriso estimulante.
Alberto curioso:
- Acha que a imprensa dará boa cobertura, professor?
- Sem a menor dúvida. A iniciativa é ambiciosa e, na certa, deve render boa projeção a você, meu filho.
Alberto, sorrindo sem disfarçar seu otimismo:
- O que não é nada mal para quem sonha conquistar Paris.
E brinca:
- O automobilismo pode ser o palco adequado para quem gosta de esporte radical se esbaldar. Enche o praticante de satisfação e de adrenalina.
Risos. O professor animado:
- Sucesso, rapaz. Sucesso.
- Deus queira! Minha mãe sempre fala que os rios de nossa existência têm caminhos subterrâneos muito mais profundos do que imaginamos. Precisamos ficar atentos para acertar uma dessas correntezas e alcançar o mar.
- Mãe sábia.
- Muito. Agora, mais do que nunca, ela é o meu porto seguro.
- Como anda a nova máquina que comprou?
- Divirto-me à beça.
         - Formidável.
Durante semanas, antes e após as aulas com o professor Garcia, Alberto conduzia seu veículo pelas ruas de Paris, despertando curiosidade a todos que assistiam o piloto fazer manobras radicais com seu automóvel.
O brasileiro despertava tanta atenção em Paris que as moças francesas suspiravam quando ele passava ou, com ele davam um passeio no seu automóvel Voiturette. Ou no Peugeot Roadster. Eles eram bonitos e velozes.
 
 
 
 
* FBN© - 2013 – Automobilismo. Outro Fascínio de Dumont.   – Cap. 07 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/automobilismo-outro-fascnio-de-dumont.html
 
 
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