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Princesa Isabel
Durante a viagem, logo após a expulsão de minha família do
Brasil para a
Europa, passei meus dias engolindo minha repulsa pela elite
ruralista brasileira que não entendeu que a escravidão engessava o
desenvolvimento social brasileiro. Foi o preço que pagamos pela sanção da Lei
Áurea. Princesa Isabel
do Brasil.
Dias depois das comemorações do Prêmio Deutsche, num
final de tarde de uma terça-feira do mês de novembro, a sinaleira do
apartamento de Santos-Dumont toca insistentemente. Sem imaginar quem, o
inventor deixa a prancheta de trabalho, atravessa a sala iluminada pela
claridade das janelas, abre a porta e depara com um senhor magro, bem vestido e
um sorriso muito largo no rosto, falando em português:
- Monsieur Alberto Santos-Dumont?
- Sim.
- Trago-lhe uma encomenda.
- Encomenda?
- Venho por parte da Condessa d’Eu, ex-Princesa Imperial
Regente no Brasil, Isabel Cristina Leopoldina Augusta Michaela Gabriela Rafaela
Gonzaga de Orleans e Bragança.
- Entre, por favor.
- Não se incomode.
- Por favor, entre.
- Não precisa.
- Muito bem.
- Aqui está o sobrescrito, enviado por sua Excelência, a
Condessa.
- Obrigado.
- Por obséquio, devo retornar com uma resposta.
Alberto Santos-Dumont abre o envelope, dele retira uma
medalhinha e um bilhete em que lê na frente do mensageiro: ... Envio-lhe uma medalha de São Benedito, que
protege contra acidentes. Aceite-a e use-a no pescoço, na corrente do relógio
ou na sua carteira. Ofereço-lhe pensando na sua boa mãe, pedindo a Deus que lhe
guarde na palma de sua mão. Sempre! Na expressão do criador, ela orienta e cura
muita gente. Quando quiser, venha me ver. Muito do coração, Isabel.
Emocionado, o brasileiro agradece:
- Sinto-me honrado, cavalheiro. Diga a ela que farei uso
da medalhinha constantemente. Agradecerei, pessoalmente, em data agendada pela
Princesa.
- Direi. Grato pela atenção, meu jovem senhor – assegura
o porta-voz.
- Passar bem.
Uma semana depois o inventor convidado para uma tarde de
chá na residência da Condessa D´Eu. No dia marcado, a ilustre brasileira recebe
o compatriota nos jardins da casa. Em seguida, os dois caminham conversando
para a sala de visitas.
- Muito me honra tê-lo em minha casa, Alberto. Sinta-se à
vontade.
- A honra é minha, Majestade. A medalhinha de São
Benedito, como pode notar, uso-a presa no pulso esquerdo.
- Santo poderoso, tenha fé. Na entrevista que deu aos
jornais, entre tudo de interessante que disse, um ponto me chamou mais atenção:
revelou que na propriedade rural de seus pais, antes da decretação da Lei
Áurea, não existia mais escravos.
- Meus pais sempre foram contra a
escravatura, Majestade. Acima de tudo, eles defendiam que todo ser humano
merece respeito, independentemente da cor da pele.
- Muito me orgulha saber.
- Realizamos na Fazenda Dumont uma grande festa quando
Vossa Excelência sancionou a Lei Áurea. Rezamos e louvamos sua coragem e a
audácia para tomar uma decisão tão relevante para o Brasil. No grande pátio, em
frente a sede da Fazenda, realizamos uma
folia regada a muita comida, bebida, batuque e cantoria que varou a noite com
todos, negros e brancos, em sublime confraternização de fé e alegria.
- Não poderia ser diferente, meu filho. O Brasil era um
dos poucos países no mundo que ainda sustentava a escravidão humana. Uma
aberração! – confessa a Princesa.
- Como encontrou forças para enfrentar os escravocratas?
- Na fé em Deus e pela
mobilização popular. Um dos mais importantes movimentos da história política
brasileira, que começou com a supressão do tráfego de escravos. Depois, a
sanção da Lei do Ventre Livre, em 1871. Mais tarde, 1884, papai sancionou a Lei
dos Sexagenários, até que no dia primeiro de maio de 1888 decretei a Lei Áurea.
- Parabéns.
- Vencemos esse round,
mesmo vítima de intrigas até dentro do Palácio Imperial.
- Pedro Augusto, seu primo?
- Principalmente. Como primeiro neto do Imperador, filho
de Leopoldina, sempre resistiu à ideia de uma mulher ocupar o trono no Brasil.
Achava que, como homem, o lugar era dele. Declarado escravocrata assumido e,
com o apoio de grande número de seus pares, de todas as formas ele tentou
derrubar o movimento para livrar nosso país da vergonhosa condição de
explorador da mão de obra escrava.
- Inacreditável!
- E totalmente fora de propósito, meu filho.
- Além da liberdade, por que o Império não criou fundos
para financiar projetos de aproveitamento da mão de obra liberta?
- Outra face importante do projeto de libertação que não
vingou. Lutei para instituir um fundo indenizatório àquela gente. Pensava que,
livres e com o dinheiro no bolso, poderiam comprar terras e produzir. Batalha
perdida.
- Por que razão?
- Logo após a Abolição, descrente com a rejeição do
Congresso Nacional ao projeto de transposição das águas do Rio São Francisco
para resolver o problema da seca no Nordeste, que também iria absolver boa
parte dos libertos na grande construção, papai pensou criar um fundo para
indenizar as vítimas da servidão no Brasil. Mas, temendo a reação dos
congressistas, resolveu buscar aportes de recursos com amigos da iniciativa
privada, porque sabia que libertos eles vagariam por aí arrastando seu
abandono, farejando a sobrevivência.
- Conseguiu?
- Pouca coisa. Entre os colaboradores, não posso deixar
de citar, o Visconde, o Visconde..., aí, como é que ele se chama mesmo, meu
Deus?
- Visconde de Mauá?
- Claro! – exclama a Princesa, dando uma palmada na testa
com a mão esquerda. – Que diabo está acontecendo com a minha memória?
- É o Visconde de Mauá?
- Não, o Visconde de Santa Vitória, ex-sócio no Banco
Mauá. Ele disponibilizou 2/3 da venda de seus bens ao movimento. Tanto me
emocionou com sua atitude que, em 11 de agosto de 1889, agradeci-lhe o aporte
financeiro através de uma carta pelo majestoso senso de cidadania.
- Não sabia.
- Minha intenção era diminuir a penúria daquela gente,
que passou a viver na periferia das cidades como um bando de miseráveis. Papai,
com seu espírito humanitário, que já gastava mais de dez por cento de seus
ganhos na forma de ajuda aos pobres, também estendeu o benefício a vários
negros libertos da escravidão, pensando que desse modo estimularia as pessoas
mais aquinhoadas a fazer o mesmo. O gesto também não logrou êxito.
- Pena.
- Fiz o que pude, certa de que a sensibilidade do ser
humano tem que operar todos os dias, em todos os lugares e sentidos. Vencida
pela arrogância dos escravocratas, o jeito foi entregar a Deus o destino dessa
gente.
- Sem dúvida. Sem dúvida. Sei também que a senhora tentou
aprovar o Sufrágio Feminino?
- Outra derrota no Congresso. Imaginava que se uma mulher
poderia reinar um país como o nosso, também era capaz de votar e ser votada,
não acha?
- Certamente.
- Posso dizer que os republicanos e os escravocratas não
nos permitiram sonhar um pouco mais. Essa é a verdade.
- Como o Imperador suportou o exílio?
Num gesto desolado, a princesa revela:
- Pedro II ficou no poder enquanto foi tolerado pelos
interesses das elites econômicas e políticas do Brasil. Até que, na madrugada
de 17 de novembro de 1889, aos 63 anos, perfeitamente consciente do que se
passava, o imperador tomou um coche com os seus familiares, e seguimos para o
cais de onde rumamos para o exílio.
- Na calada da noite?
- Ordem dos militares. A discrição foi uma maneira que os
republicanos encontraram de evitar manifestações de apoio ao meu pai,
destronado.
- Por que o Imperador não manifestou reação ao golpe?
- Não teve o menor interesse de reagir. Durante todo o
tempo manteve-se abúlico e fatalista, numa ausência mórbida de vontade.
No dia 16 de
novembro de 1889, com as tropas do marechal Deodoro nas ruas, papai, em vez de
articular a reação, dedicou maior parte do dia a ler revistas cientificas e
livros - era um intelectual apaixonado pela leitura. No final da tarde,
conversando com ele, me disse: se os
brasileiros não me quiserem para seu imperador, irei ser professor. Papai
tinha clara noção dos limites de seu poder.
- Não esboçou nenhuma revolta?
- As únicas palavras que ouvi dele, nesse sentido, foram
dirigidas aos guardas: Por quê? Não sou
nenhum fugido. No mais, Dom Pedro II e comitiva partiram para o exílio na
França sem esboçar reação, embora seus partidários insistissem que reagisse.
Mas não, ele seguiu com nobre dignidade e perfeita segurança de si mesmo. Nem
ao menos uma palavra de queixa ou reprovação saiu de seus lábios. Manteve a
mesma atitude até a morte, dois anos depois, em um quarto do modesto Hotel Belfort,
em 1891.
- Sabemos que era um Monarca com pensamento republicano,
verdade?
- Simpatizante da República, mas cumpriu seu dever com
rigor e patriotismo governando nosso país por 49 anos. Um dia, folheando seu
diário, deparei com uma frase em que dizia: Eu
sou republicano. Todos sabem. Se fosse egoísta, proclamaria a república para
ter as glórias de Washington. Logo em seguida, pincei outra frase: ... Nasci para consagrar-me às letras e às
ciências, e, ocupar posição política, preferiria a de presidente da República
ou Ministro à de Imperador.
- Santo Deus, republicano confesso!
- Escuta mais essa dele, Alberto: ... A nossa principal necessidade política é a
liberdade de eleição. Sem esta e a de imprensa não há sistema constitucional na
realidade. E o ministério que transgrida ou consente na transgressão desse
princípio é o maior inimigo do estado e da monarquia.
Surpreso, Santos-Dumont exclama em voz alterada:
- Incrível! Incrível!
- Para dizer a verdade, meu pai era um democrata nato.
Sintonizado com seu povo, não escondia aversão ao processo eleitoral do Brasil,
que distorcia o sistema representativo brasileiro. Para ele, governantes não
deveriam interferir nas eleições para que o resultado espelhasse a opinião
pública do país.
- Olha, só!
- Pedro II defendia a educação pública como a principal
necessidade do brasileiro.
- Sem dúvida.
- O excessivo rigor no trato da coisa pública era uma das
marcas do Imperador, desde que assumiu o Governo aos 14 anos. Para mim e, com
muito orgulho, posso falar que papai foi uma máquina de governar, um estadista.
Nunca se deixou arrastar pelo gosto do poder e pelos lucros que a posição
garantia. Pelo contrário, levava uma vida austera, dentro de um palácio
desprovido de fausto. Não tinha pompas. Nunca exigiu aumento de seu salário nos
49 anos, três meses e 22 dias de governo, mesmo cercado de políticos ambiciosos
e corruptos. Certa vez, escreveu ao
Visconde de Sinimbu, criticando a corrupção no judiciário que escapava a linha
dos princípios legais:... A primeira necessidade é a responsabilidade
eficaz, e que enquanto alguns magistrados não forem para a cadeia, como, por
exemplo, certos prevaricadores conhecidos do Tribunal de Justiça, não se
conseguiria esse fim.
- Puxa, não sabia!
- Ele também recusou a pensão que o governo da República
lhe ofereceu, após derrubá-lo. Achava que não era uma atitude correta. Com isso
passou por dificuldades financeiras em seus últimos anos, velho e doente aqui
em Paris.
- Meu Deus, que ingratidão!
- Além do mais, com seu perfil democrático, Pedro II
nunca permitiu que o governo reprimisse a liberdade de imprensa e de expressão.
Para ele, os jornais e a tribuna eram as principais fontes de informações para
um governante.
- Com certeza.
- Hoje, a liberdade de imprensa é coisa do passado. Sem a
imprensa atuando como deveria, a corrupção corre mais solta. Como de um lado o
Brasil vem tornando cada vez mais abertamente corruptos e do outro o povo está
mais condescendente, instalou-se entre os brasileiros uma epidemia moral sem
igual.
- Nem sei o que dizer, Condessa.
- Ai, menino, ainda vivo das lembranças de um passado de
glórias. Meu pai, de cima de seus 1,90 de altura, cabelos louros, olhos azuis e
barba plenamente embranquecida, morreu no ostracismo, mesmo aclamado chefe de
um país de 9 milhões de mestiços e negros, sendo a imensa maioria de escravos,
índios e uma boa parcela de brancos. Herói desde a infância quando ficou órfão
de mãe com 1 ano de idade, órfão de pai aos 9 (com a abdicação) e órfão de
nação aos 64 anos.
- Triste!
- Sem falar que teve uma infância difícil. Foi criado por um
batalhão de regentes, tutores e governantes, junto com três irmãs. Aos 18,
impuseram-lhe o cargo de Imperador, obrigando-o a contrair o matrimônio com
Tereza Cristina de Bourbon.
- Sim. Uma história de um grande estadista, sem dúvida.
Pausa. Isabel:
- Obrigado por ser paciente e ouvir minhas lamúrias.
- É uma honra.
- Passo o dia revirando fotografias. Saímos do Brasil,
mas ele não sai nunca da gente, não é mesmo?
- O que é muito bem. Nada é melhor do que cultivar
lembranças – apoia o inventor.
- Sem a menor dúvida.
- Sei que a senhora é a única princesa no mundo que tem
uma coleção de fotografias tiradas desde a infância.
- Tive esse mérito, sim. Nasci sete anos após a invenção
do Daguerreotipo. Meu pai, como era um homem dos livros e das ciências, foi
logo contaminado pela nova arte. Vivia fotografando tudo que via pela frente,
principalmente os filhos.
- Nosso Imperador sempre viveu à frente de seu tempo,
todos nós sabemos disso – afirma Santos-Dumont entusiasmado.
- Legou exemplos para os governantes futuros. Papai
viajava à custa de suas posses ou de empréstimos de amigos, mesmo em
compromissos oficiais. Outra coisa importante, ele financiava bolsas de estudos
a 151 jovens brasileiros que estudavam nas melhores universidades da Europa e
dos Estados Unidos da América. O objetivo era formar jovens capacitados em áreas científicas
para favorecer o desenvolvimento de nosso país.
- Meu pai, Henrique Dumont, foi um deles.
A Princesa abre mais o sorriso.
- Eu sei. Muito me orgulha o trabalho que Henrique Dumont
fez pela implantação da estrada de ferro no Brasil, ao lado dos irmãos
Rebouças.
- Obrigado. Agradeço por ele.
- Seu pai foi um dos engenheiros que
confirmaram a linha de raciocínio do Imperador, que dizia que nossa nação tem tudo para ser, com o avanço da ciência, o pais
mais afortunado do mundo em termos rurais e industriais. A matéria prima que a
tecnologia futura precisa para transformar bens de capital, Deus colocou em
abundância em solo brasileiro, de baixo e acima da terra fértil.
- O brasileiro, na sua grande maioria, também pensa
assim.
Pausa. A Princesa abre um sorriso de satisfação,
convidando:
- Muito bem, muito bem... Agora, vamos provar um
delicioso sorvete e depois um pratinho de baba de camelo. Gosta?
- Mousse de doce de leite?
- Isso mesmo. A sobremesa preferida do meu pai. Não podia
faltar depois da canja de galinha com ovos escalpados ou de um pato com purê de
laranja.
- Maravilha.
Risos. A Princesa Isabel com um largo sorriso, revela:
- No Brasil, eu comandava a cozinha imperial, mas era de
papai qualquer sugestão do cardápio.
- Olha!
- Ele era apreciador da boa cozinha, todo mundo sabe
disso. Basta dizer que vivia recebendo, no paço imperial, os editores do
almanaque Cozinheiro Nacional para falar sobre a culinária brasileira e seus
avanços. Foi um bom colaborador do anuário desde a sua fundação, em 1874, até
sua última edição atualizada em1888.
- Admirável!
Depois do lanche, que também foi servido chá com croissant, os dois brasileiros ainda
discorreram sobre vários assuntos por mais um longo tempo. Visitaram os jardins
da casa e Santos-Dumont conheceu várias plantas trazidas do Brasil.
- Aqui, – explica a Princesa - sentada num dos bancos e
tomando ares nesse jardim, toda manhã, vivo momentos de profundas recordações
de nossa pátria amada. Local da casa onde mais recordo e cultivo as palavras do
velho Imperador que dizia que todas as
coisas estão em permanente processo de mudança. Por isso a vida, do início ao
fim, é um eterno aprendizado.
- É assim mesmo – concorda Santos-Dumont em tom
emocionado ao perceber o brilho nos olhos da velha senhora.
Conversaram
um pouco mais e, do jardim mesmo, Santos-Dumont despediu-se da Princesa,
levando uma nova imagem daquela mulher, conhecida apenas como redentora da
escravidão do Brasil.
- Meu Deus, que grande pessoa os políticos exilaram de
nosso país! – pensava em voz alta o aeronauta a caminho de casa de si para si.
* FBN©
- 2013 – Princesa
Isabel Recebe Santos-Dumont – Cap. 19 de
SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor:
Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em
português - IIustr.: Imagens da Internet - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/princesa-isabel-recebe-santos-dumont.html