21.9.08

* 10/X – SANTOS-DUMONT NAS ALTURAS. O PRIMEIRO VOO.


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- Fiquei estupefacto diante do panorama de Paris visto de grande altura; nos arredores,
campos cobertos de neve... Era Inverno. [...].  Durante toda a viagem acompanhei a viagem do piloto; compreendia perfeitamente a razão de tudo quanto ele fazia. Pareceu-me que nasci mesmo
para a aeronáutica. Tudo se me apresentava muito simples e muito fácil; não senti nem vertigem, nem medo. [...]E tinha subido! Como ele diz, sofre de aerite, (doença) que nunca mais me deixará - Alberto Santos-Dumont

 




Na manhã de 23 de março de 1898, Alberto Santos-Dumont, acompanhado pelo professor Garcia, estaciona seu automóvel no Parc-de-Vaugirard, ansioso para realizar o primeiro passeio pelos céus. Encontra Lachambre, Machuron e funcionários que inflavam o balão contratado para o voo.

Em menos de uma hora, o aeróstato estava pronto para decolar. Santos-Dumont, muito animado, pega um cestinho com lanches, pendura no pescoço a máquina de retratos, o binóculo e, já a bordo, acomoda-se ao lado de Machuron, que logo pergunta:

- Podemos desatar as cordas, rapaz?

- Claro.

- Muito bem. Não se esqueça de pedir ajuda aos deuses, porque haja proteção divina para quem está com os pés no espaço. Não é mesmo?

- Não se preocupe. Na verdade me sinto como se estivesse em terra: tranquilo, tranquilo. Vamos subir.

O piloto logo ordena:

- Pode soltar as amarras, mano.

- Oui. Dou-lhe uma... Dou-lhe duas e zás!

- Obrigado.

- Bons ventos para o balão. Divirtam-se – grita o balonista em terra.

O professor Garcia, atento ao movimento, acena com as duas mãos, gritando:

- Vão com Deus! Vão com Deus!

Livre o balão começa a se elevar. Subia lentamente, mas tão seguro e agradável, que logo aquieta a conversação entre os dois companheiros de viagem. No primeiro momento, mesmo surpreso com a cidade cada vez mais distante, dissimulando seu formigueiro humano lá embaixo, Santos-Dumont experimenta uma pequena sensação de frio na barriga que, depois de alguns minutos, desaparece por completo.

Do alto, o brasileiro fica admirado com o solo de Paris em visão cartográfica, que repartia com precisão o aglomerado urbano e rural ao mesmo tempo, tudo em dimensões mínimas como se fosse de brinquedo.

- Veja que bonito Machuron, ver a cidade lá embaixo completamente pequena!

- Também gosto.

- Perfeita com uma maquete, não é mesmo?

Naquela inspeção surpreendente de Paris, com o olhar espalhado na claridade aberta, Alberto admirava toda a variedade de tons do céu, da água e da vegetação. Excitado pelo cenário, prepara a máquina e começa a fotografar tudo lá embaixo: o Bois-de-Vincennes com seus lagos, o Panthéon e sua majestosa cúpula, a Catedral de Notre Dame, o Palais L’Eysée e a Torre Eiffel, construída na margem esquerda do Sena, o rio mais emblemático da Europa, com seus Bateaux Mouche.

Duas horas após a decolagem, a mais de três mil metros de altura, o balão voava ao sabor de uma leve e acolhedora corrente aérea. Depois de fotografar tudo que lhe interessava, Santos-Dumont passou a registrar numa caderneta de rascunhos os fenômenos atmosféricos.

Pouco depois, o brasileiro quebra o silêncio:

- Machuron?

- Oi! - atende o piloto, fitando o rapaz de forma distraída.

- Bonito tudo isso, não é mesmo?

- Muito.

- Experiência para a gente não esquecer nunca mais. Olha como o sol abençoa Paris lá embaixo?

- Sim.

- Meu Deus, jamais imaginei ser tão boa a sensação de uma viagem no meio do céu!

- Ã-hã.

- Estamos alto que sinto que o ar que respiro vem de outro tempo, daquele que só existe nos livros de Júlio Verne. Coisa de louco!

- Bom sinal, rapaz.

Alberto elogia a cidade:

- Visual de cair o queixo. Especialmente, do Vale do Loire.

 - É certo.

- Aquele é o Castelo Le Château D’Esclimont? - pergunta Santos-Dumont com entusiasmo.

- Ele mesmo. Fica pouco mais de cinquenta quilômetros de Paris.

- Fantástico!

- Foi cenário para medonhas batalhas. De um lado, um grupo defendia suas torres e o os altos muros de pedra. Do outro, um bando de guerreiros procurava invadir a propriedade para uma nova conquista na base da força.

- Conheço a história. Os castelos sempre mexeram com a imaginação das pessoas, não é mesmo?

Machuron concorda, ressaltando:

- Os franceses antigos não deixavam por menos. Davam tudo por uma guerra!

- Sim.

Risos. Machuron:

- Percebo que o brasileiro é um grande observador.

- Por isso mesmo fotografei o que minha lente pode captar. Tudinho.

- Pretendo o quê com tantos retratos?

- Depois eu conto. Por enquanto, vamos cortejar a Torre Eiffel lá embaixo, a bela dama Paris.

- Ah, sim.

Pausa. Em seguida, Machuron com as mãos no estômago, observa:

- Muito bem. Muito bem. Não sei a razão, mas voar me dá uma fome danada.

- Fala isso porque sabe que trouxe uma cesta com lanches, não é mesmo?

- O que tem de gostoso aí?
- Ovos cozidos.
- Adoro ovos cozidos. Que mais?

- Já seria um sucesso saborear ovos cozidos, flutuando entre as nuvens, não?

- Certamente.

- Trouxe frango assado, queijo, frutas, brioches e croissants de maçã. Também uma garrafa de Champagne.

Machuron ri de prazer.
- Háháhá... Adoro Croissant!

Santos-Dumont pega o cesto de vime, afasta a tampa e deixa o piloto à vontade para pegar o que quiser. Depois, abre a garrafa do vinho borbulhante, enchem os dois copos e celebram a viagem.

- Um brinde ao meu primeiro voo. Saúde!

- Tim-Tim.

- Melhor impossível.

Depois, o instrutor com ar cândido, devora o lanche oferecido por Alberto. Satisfeito, pergunta:

- Agora, rapaz, me conta o que tanto anota nesse caderninho.

- Registro tudo que me parece importante, principalmente, as variações das correntes de ar, as espessuras das nuvens e as mudanças de temperatura..., coisas assim. Preciso saber. Futuramente podem me ajudar a driblar as dificuldades e os perigos num voo. Observações climáticas. Entendeu?

- Pretende mesmo fazer novas ascensões?

Alberto, convicto:

- Sem a menor sombra de dúvida. Ou acha que estou brincando de voar?

- Não teve vertigem hora nenhuma?

- Nada.

- Então é um balonista nato. Ambiciona seguir a carreira?

- Evidente.

- Pois bem. Precisa de disposição, gosto pela coisa e o bolso recheado de dinheiro. E, quando estiver no ar, a manobra de balão exige atenção redobrada do piloto e alguma sorte – avisa Machuron.

- Não se preocupe, vim a Paris determinado a encarar esse desafio. Por isso estou exercitando o otimismo para dar mais peso ao empreendimento.

- Très bien.

- Conto com o seu apoio e de seu irmão. Está de acordo?

- Claro.

- Se é assim, tudo bem. Vamos conversar em terra firme.

- Claro, claro. Não há melhor escola do que as viagens de balão para aprender tudo que se conhece no mundo de hoje sobre balões.

- Evidente.

Machuron tira o relógio do bolso e confere.

- Três horas de navegação. Melhor descer, não?

- Estamos a quantos quilômetros do ponto de partida?

- Cerca de cem, calculo.

- Onde vamos aterrar?

- Ali, olha..., no parque do Castelo de La Ferrière, propriedade do senhor Afonso de Rothschild.

Santos-Dumont balança a cabeça concordando. O piloto ressalta:

- Espero que ele goste da movimentação.

-Também.

- Então, ao solo. Preparar! – grita o piloto.

Ao perceber o balão descendo em seus domínios, o Barão reúne os familiares e os funcionários para assistir a aterrissagem. Em terra firme, após acalorados cumprimentos e largos elogios, o nobre senhor convida os pilotos para tomar chá no Castelo. Antes, escala quatro empregados para recolher o balão e seus apetrechos, acomodar tudo num carroção e, em seguida, transportar a bagagem até la gare próxima.

Após o lanche, numa confortável carruagem, o ilustre senhor leva os balonistas para embarcar em le train sur rail de volta a Paris. Momento em que os três, numa conversa animada, além de falar da ciência do balonismo, contaram casos e riram muito durante o trajeto rodoviário.

No retorno, enquanto o trem de ferro sacolejava engolindo os trilhos, Alberto sorria satisfeito para provar a si próprio que a aventura de voar era possível na sua vida. Ao apear, ainda com os raios de sol tingindo de tons alaranjados o céu parisiense, Santos-Dumont promete a Machuron tornar a conversar sobre uma nova ascensão.

         - Adorei o passeio, amigo. Podemos combinar outras ascenções.

         - Quando quiser. Estamos à sua disposição.

         - Obrigado, me aguarde. Vivi um momento de inesquecível beleza, pode crer.

         - Boa noite, rapaz.

         - Hey ho, let’s go.

Despedem-se. Alberto toma um coche e vai descansar em casa, convencido de uma coisa: tinha adorado passar boa parte do dia envolvido com um balão flutuando no ar.

- Como é gostosa, fascinante a sensação de voar. Meu Deus, sonhar é bom, realizar é tudo - dizia para si a caminho de casa, repetidas vezes.

 

 

 

* FBN© - 2013 – Santos-Dumont nas Alturas. Primeiro Voo – Cap. 10 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link:


http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/o-primeiro-vo-em-balo.html


 

 

 

 

 

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