21.9.08

03/III – OS PRIMEIROS ESTUDOS

*


Júlio Verni

 



Santos-Dumont em seu hangar


Apesar da noção da responsabilidade de uma criança interessada por tudo, Alberto Santos Dumont era um menino que não gostava da escola formal. Percebendo o problema, os pais decidiram apostar numa outra forma de ensino, educando o filho em casa no início de sua vida de aprendizado, certos de que a vida seria a melhor professora.  Foi assim que Santos-Dumont, em conversa com o mecânico Brown, que trabalhava nas oficinas propriedade, descobriu que tinha um jeito para a ciência mecânica.

 


 



Com apenas cinco anos de idade, Alberto Santos Dumont já demonstrava seu interesse pela leitura, recortando e juntando letras que via em jornais e revistas da época. Aos seis, escrevia frases completas. Dessa forma, estudou até os dez anos de idade com a mãe, dona Francisca, e sua irmã Virgínia, época em que começou a desenhar até para fugir dos deveres escolares. A partir daí começa os cursos regulares, matriculando-se na escola Colégio Culto à Ciência, na cidade de Campinas. Em 1886, muda para a Escola Menezes Vieira, depois passa pelos ginásios Morethzon, Kopke, Morton, e encerra suas atividades estudantis na Escola de Minas, em Ouro Preto, sem ter concluído um curso superior.

 

Durante o período de férias escolares Alberto passava na Fazenda Dumont. Incansável apreciador da natureza, todos os dias, logo após o lanche matinal, corria para fora de casa para respirar o ar puro e ouvir a bulha dos pássaros, cantando no quintal repleto de árvores de todas as frutas, um paraíso encantado. O jovem era capaz de distinguir quando cantavam nas laranjeiras e nos mamoeiros os Pássaros-Pretos, os Sanhaços, os Bem-Te-Vis, os Sabiás e os Canários da Terra que, aos montes, também repicavam nos mourões das cercas e nas cumeeiras das casas da fazenda.

Outra boa distração de Alberto era sentar-se à sombra de uma tamarindeira para ler um bom livro. Ou, estendido de costas, com os olhos perdidos no céu, distraindo-se com a movimentação das nuvens suspensas no ar, como também dos pássaros em revoada. Na verdade, ele transformava o aconchego das árvores em um constante posto de observação da natureza aérea.

- Era uma delícia ficar desdobrado à sombra de uma árvore de sombra fresca olhando para cima - dizia ele aos pais.

Permanecia um bom tempo ali muito atento, como se estivesse instigando seus sonhos, a imaginação e a fantasia. Quando cansava a vista, cochilava por um instante, com o chapéu de palha sobre os olhos para a proteção do rosto. Vez ou outra recitava para si um versos de Castro Alves, que ele sabia de cor e salteado:

 

É da araponga o canto, que soluça,

Acorda os ecos nas sombrias grotas;

Quando sobre a lagoa, que se embaça,

Passa o bando selvagem das gaivotas...

E a onça sobre as lapas salta urrando.

Da cordilheira os visos abalando.

 

Aos dezesseis anos de idade, Alberto dominava o francês e o inglês, fluentemente. Da biblioteca do pai tinha lido quase todos os livros de literatura, além dos compêndios de ciências que falavam de curiosidades mecânicas. As obras de ficção científica de Júlio Verne era sua leitura predileta. Para ele, o escritor francês antecipava o progresso da Ciência ao narrar aventuras e conquistas futuristas, com suas mirabolantes ideias que previam as invenções mais incríveis, como do trem lunar, do submarino, da televisão, dos mísseis teleguiados e dos satélites artificiais - a importância da descoberta do escritor Júlio Verne a Alberto Santos-Dumont foi definitiva, marcando o caminho que ele seguiria ao longo de toda sua carreira.

Desde os sete anos de idade, tinha autorização do pai para guiar os ‘locomoveis’ de grandes rodas, empregados nos trabalhos do campo. Aos doze, aprendeu a reparar e manejar as locomotivas Baldwin que puxavam os vagões carregados de grãos de café nas 60 milhas de via férrea, assentadas na Fazenda Dumont.

Na oficina da Fazenda, com estreita obstinação, Alberto ocupava-se em aprender tudo relacionado às máquinas, demonstrando sua precoce tendência pela mecânica. Tanto que logo conquistou a confiança do chefe da maquinaria, Arthur Brown, escocês de meia idade, muito alegre e de boa instrução. Com ele iniciou o aprendizado técnico para reparar, montar e desmontar as grandes máquinas e todas as engenhocas rurais existentes na propriedade. No último dia das férias escolares de 1890, Alberto procura pelo profissional:

- Ei, Brown!

- Bom dia, rapaz – responde o mecânico com largo sorriso no rosto.

- Estou aqui para me despedir. Amanhã, domingo, parto para Ouro Preto.

- Eu sei.

- Não estou nem um pouco satisfeito. Dessa vez, não gostaria de ir.

- Ora, que bobagem é essa – espanta Brown.  - Tem que estudar. Ser um doutor. Meta de todo rapaz na sua idade, não é mesmo?

- Pode ser, mas eu não penso assim. A escola que frequento não me atrai em mais nada. Incrível, não é? Queria uma escola que me perguntasse qual é o meu sonho. Nenhuma escola que estudei até hoje foi capaz de me oferecer estudos avançados da ciência mecânica. Minha vocação é outra, você sabe.

         - Não diga isso. O liceu é muito importante para qualquer um que pensa no futuro. Acredite em mim, mocinho, e tome o rumo de Ouro Preto. Espero você nas próximas férias, certo?

Risos. Alberto desabafa:

- Não. Não quero voltar para a Escola de Minas. Para dizer a verdade, lá me sinto um ser na vertical no meio de gente demasiadamente horizontal. Arre!

- Ora, Beto...

- Gosto daqui. Desde criança descobri que minha paixão é a mecânica. Nada me satisfaz mais do que uma bancada cheia de ferramentas.

Brown arregala mais ainda os olhos.
- Oh, não! O que está me escondendo?

- Preferia ficar na fazenda, pelo menos por enquanto.

- Não! O doutor Dumont não consentiria que abandonasse a escola.

- Sei disso. 

- Você tem um potencial enorme a ser lapidado, meu filho. Precisa terminar os estudos. Sabe disso, não sabe?

- Hummmmm!

- Ou acha que, para ser bom mecânico, não tem que enfiar a cara nos livros? Comigo foi assim. Meus pais falavam que para ser alguém na vida tinha que estudar muito. Foi o que fiz e valeu o sacrifício. Se não fosse bem instruído não estaria aqui trabalhando com o seu pai. Certo?

Pausa. Alberto assume expressão séria e confessa:

- Ah, Brown, os estudos regulares, em todas as escolas, em todos os países, em todos os tempos, são os que se referem ao já feito. Com eles, a gente aprende atos que os outros já praticaram, pesquisas que os outros já fizeram, conquistas que os outros já efetuaram, intuições que os outros já tiveram, ou que os outros já coordenaram. Com eles, a gente aprende sabedoria já pronta, completa em si. Não é o que quero.

- Arre! Certa vez seu pai me mostrou um boletim de sua vida escolar. Nada bom, hein, rapaz! De estudar nunca gostou. Estava sempre procurando tempo para desenhar – recorda o mecânico.

Risos. Alberto sorridente:

- Verdade. Mas, papai não me puxou a orelha, acredita? Apenas disse para prestar mais atenção nas aulas. Quer saber, não aguento mais essa história de professor ditar a matéria e a gente ter que escrever tudo, vírgula por vírgula, ponto por ponto. Para depois, repetir tudo de novo na prova. Bolas! Não acho isso legal. Por desencargo de consciência, folheio os livros e só vejo neles coisas que me interessam, mais elevadas para armazenar em minha cabeça.

E conclui:

- Essa espécie de sabedoria que me querem incultar nada tem com minha personalidade íntima. Eu quero fantasia. E, ao mesmo tempo, quero realização. Quero uma escola que forme indivíduos criativos e independentes, que pensem por si mesmos. Quero uma escola que proporcione ao aluno a oportunidade de debater e de pesquisar para que ele apure seu senso crítico. Precisamos aprender ciências com mais profundidade. Só assim, a juventude pode pensar o futuro com mais segurança, não acha?

- Caramba!

- Desse ideal, Brow, não abro mão. Amigo, não vim ao mundo a passeio, pode crer – admite Alberto.

O mecânico contempla-o com uma espécie de admiração.

- Bacana. Nunca vi um sujeito da sua idade com tanta convicção. Parabéns. É um moço que sabe o que quer da vida.

- Por isso preciso de escolas mais avançadas, que dão mais ênfase aos estudos científicos. A era pré-industrial pede inovação, conhecimentos e, sobretudo, rebeldia. Quero uma escola que me abra portas para o mundo da tecnologia. Só isso, amigo. Só isso.

O mecânico dá tapinhas no ombro de Alberto, elogiando:

- Bravo! Bravo! Falando tão bonito assim e tão certo do que pretende seguir, me emociona.

- Aprendi muito com você, Brown. Principalmente a olhar para o futuro com convicção. Obrigado, amigão.

- Não precisa agradecer, fiz por você o que faria por um filho.

- É um homem bom. Tem prazer de ensinar o que sabe aos outros.

- Sou assim mesmo. Muito bem, acha que, no Brasil, vai encontrar a escola que deseja?

- Nunca. Ando sonhando com viagens pelos países estrangeiros. Quero ir para Paris.

O mecânico, surpreso:

- Arre! França? Pensando alto, rapazinho. Mais sem terminar os estudos regulares?

- Gostaria, sim. A Torre Eiffel tem tudo a ver com minha história porque meus avós paternos são franceses e meu pai estudou engenharia em Paris.

- Temo que ele não goste da ideia até porque é muito novo. Na juventude ainda somos um projeto, um croqui com linhas provisórias, que precisa amadurecer mais para não jogar fora um destino, não acha?

- Acho.

- Então?

Com um risinho cheio de intenções, Alberto insinua:

- Estão ‘mangando’ comigo. Arre! Não posso permitir que assim prossiga minha carreira escolar.

- Sobre isso já conversou com alguém de sua família, sua mãe ou seus irmãos mais velhos?

- Não. Nunca.

- Então procure o doutor Henrique e fale de suas aspirações. Ele deve compreender e apoiar sua decisão, claro. Afinal é pai de um jovem tão imaginativo e criativo quanto ele.

- Disgrama! Tenho medo.

- Medo de quê?

- Dele não me entender e levar uns torrões.

- Tem que arriscar.

- Claro.

- Seu pai tem cabeça boa. Pode ser que, entre vocês dois, surja uma solução.

- Tudo que preciso é o apoio do meu pai.

- Terá.

- Não sei.

- Posso fazer alguma coisa?

- Pode. Peça ao velho a permissão para eu deixar a Escola de Minas. Ele bota muita fé em você.

- Não. Não. Isso não, Betinho. Você mesmo vai dizer a ele o que pensa.

- Por favor, Brown!

- Se ele pedir minha opinião, aí sim, falarei a verdade, afirmando que seu futuro está na Europa. Paris, sem dúvida, é o destino mais sedutor.

- Tudo bem! Você tem razão. Quer saber, vou conversar com ele agora mesmo. Se compreender e consentir que eu siga meu trecho, garanto que nunca mais me dedicarei aos estudos metódicos, programáticos, curriculares. Agora, tenho que seguir o caminho de minhas pretensões futuras. Preciso de física, matemática, mecânica, eletricidade. É isso! É isso!

O mecânico coloca a mão no queixo, pensativo.

- Patrãozinho! Concordo em gênero, número e grau.

Alberto ri da cumplicidade do amigo.

- Bacana.

- Vá em frente, rapaz. Torço e rezo por você.

- Obrigado. Acha que o velho vai concordar?

- Penso que sim. Com esse palavreado inteligente, todo cheio de termos bonitos, você convence qualquer um.

- Acha mesmo?

- Claro. É um rapaz de ouro, tem a quem puxar. Inteligente e perspicaz, igual ao seu pai. Tenho certeza que ele vai apoiar e dar a maior força aos seus planos.

- Legal. Agradeço o alento. Tiau!

- Caramba, não vai sujar as mãos na oficina?

- Hoje não. Ficarei por conta de convencer o velho porque a vida borbulha a mil dentro de mim.

Brown, em sinal de ternura, espalma a mão na cabeça de Alberto e dá uma leve sacudida:

- Boa sorte, meu camarada!

- Tiau.

O rapaz, imediatamente deixa o local e corre para encontrar o pai no seu escritório. A manhã estava limpa de nuvens e fresca.

 

 

 

* FBN© - 2013 – Os Primeiros Estudos  – Cap. 03 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/os-primeiros-estudos.html

 

 

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