21.9.08

27/XXVII - IRMÃOS WRIGHT. EU VOEI PRIMEIRO.

 
 
De um dia para outro, os irmãos Wilbur e Orville Wright, ex-fabricantes de bicicletas
de Ohio, desembarcam em Paris para vender seus aeroplanos ao governo francês, como também reivindicar a paternidade da aviação. Não estou chocado, surpreso apenas. Quem garante que por trás disso, os norte-americanos não vieram aqui escarafunchar todas as variantes aeronáuticas já inventadas na França. É bem possível!... Lembrando Dante: ... De boas intenções está muito bem calçado o caminho do inferno – observa Santos-Dumont aos amigos.



 
Em 1908, os irmãos Wright desembarcam em Paris com várias propostas nas malas. Uma delas era reivindicar a paternidade do primeiro voo mecânico de uma aeronave, realizado por eles em 1903. Portanto, antes de Alberto Santos-Dumont. Outra era vender suas aeronaves ao governo francês. Para atrair a atenção das autoridades governamentais e da mídia, os aviadores norte-americanos realizaram uma apresentação pública do Flyer, contornando a Torre Eiffel. 
            Alberto Santos-Dumont, convidado para conhecer o aparelho dos norte-americanos achou melhor não ir à recepção e, muito menos, comentar o fato da presença deles na França, mesmo diante da insistência da imprensa. Desculpava-se com ironia:
         - No dia seguinte ao recebimento do convite fui derrubado por um vírus de gripe, cujo ponto alto era uma dor nos ossos e nos ligamentos, que me deixou fora do ar por uma semana. Por isso, achei melhor não ir. Tudo me parecia muito desconfortável, até porque tenho uma descrente compreensão de seu invento aeronáutico, apresentado longe de qualquer testemunha ocular. E pior, em data prestada por eles mesmos: 17 de dezembro de 1903. A vinda dos Wright negociar o Flyer com o Governo Francês nos leva a uma região tomada por areia movediça, onde encontramos coisas desprovidas de razão. O que tudo isso representa, alguém pode me dizer?
         Diante da insinuação de um jornalista que deu a última estocada, Santos-Dumont balançou a cabeça e, com um olhar misto de espanto e desconforto, respondeu:
         - É praticamente doloroso, nesse momento em que sai de uma gripe infernal, que eu tenha que me defender de alegações infundadas e maliciosas de quem quer que seja. Que façam, então, essa imagem de mim. Eu não nasci para fazer isso. Virei bode expiatório. Ou melhor, começo a me sentir como um ratinho de laboratório pronto para a experiência.
         E depois de espirro, amparado por um lenço vermelho, pede:
- Espero que parem de pegar no meu pé. Preciso sobreviver, inteiro, para enfrentar esse momento da hipocrisia.
Uma semana após a apresentação do Flyer, Alberto Santos-Dumont resolve quebrar a barreira do silêncio. Ao ser abordado por um jornalista no Museu do Louvre, desabafa:
         - A quem a humanidade deve a navegação aérea pelo aparelho mais pesado do que o ar? Às experiências dos irmãos Wright, feitas às escondidas?  Pois são eles os próprios a dizer que, na época, fizeram todo o possível para que não transpirasse nada dos resultados de suas experiências. Ou a mim que voei em plena luz do sol, rigorosamente, acompanhado pelo povo de Paris, por observadores do Aeroclube? Tudo fotografado, filmado e coberto pela imprensa mundial.
            E adverte:
            - Que diriam os inventores Edison, Graham Bell e Marconi se, depois que apresentaram em público a lâmpada elétrica, o telefone e o telégrafo sem fios, outros se apresentassem com uma lâmpada elétrica, um telefone ou um aparelho de telegrafia dizendo que os tinham construídos antes dele?
            O engenheiro Gustave Eiffel, também ouvido pela imprensa, saiu em defesa do brasileiro:
         - Os irmãos Wright, se fizeram alguma experiência de voo autônomo antes de Alberto Santos-Dumont, foram malsucedidos. Por isso mesmo, na época, ficaram fora das competições realizadas em Paris. Agora, reivindicam o pioneirismo na aviação, só pensando em fazer fortuna. Não tem sentido. Em 1906, o 14-Bis conseguiu realizar o voo histórico e se tornou parte indissociável da própria evolução da conquista do espaço aéreo pelo homem, desde Ícaro até o final dos tempos. E, com aeronave auto propelida, coisa que o aparelho deles, o Flyer, não faz até hoje. Não tenho a menor dúvida de que a carreira de Santos-Dumont, esse raro talento e inexcedível dedicação que, nos últimos anos, foi o cientista que mais trabalhou para o progresso ciência aeronáutica. Portanto, é possível que Wilbur e Orville Wright, acometidos de amnésia temporária, estão aqui para dizer que o mérito da nova era mecânica é deles. Não é. Para convencer a população francesa disso, muita água ainda há de passar sob as pontes do Sena. Ora, isso é cascata!
- Em todo discurso o que se espera é a coerência que produza um sentido compreensível, convincente. Como em todo discurso há armadilhas e fissuras, em torno delas é que se tem articulado o invento do avião dos irmãos White. Eles chegaram tarde demais. E ainda se acham os tais, falando pelos cotovelos, como faroleiros que contam vantagens e não se contentam com pouco. Conversa! Para mim somente duas coisas são infinitas: o universo celeste e a falta de bom senso de algumas pessoas.
O joalheiro Louis Cartier, estimulado pela vaidade sem limites dos discursos e das palavras, também critica a presença dos Wright em Paris:
         - Os irmãos Wright estão misturando alhos com bugalhos. Não fosse assim como entender que pode uma pessoa fazer uma coisa dessa?  Não que eu queira tirar o mérito deles, muito menos vou dizer que estão agindo de má fé, pois seria uma grave acusação, mas isso que estão dizendo, para mim, é conversa fiada. Imaginem! Só depois de quase três anos veem a Paris com essa cavaqueira, dizendo que o aparelho atual é cópia fiel da aeronave construída em 1903. Com esse jeito de bom samaritano mentem a não poder mais. Ah, se isso pega! Eles podem tirar o cavalinho da chuva e que vão vender azeite às canadas! No lugar do Santô eu também perderia as estribeiras.
Com sorriso silencioso, o joalheiro alfineta:
-Transtorno de personalidade narcisista é outra doença relacionada à mentira. Ora, Ora! Hoje em dia é tão comum a mentira entre os homens que sugiro que primeiro de abril deveria ser o dia da verdade, porque a mentira é um hábito cada vez mais diário das pessoas.
Ao terminar seu depoimento Louis Cartier, emocionado, faz a plateia rir e aplaudir sem parar.
Enquanto isso, procurado por jornalistas para dar seu depoimento sobre as pretensões dos irmãos Wright, o presidente do Aeroclube da França, Ernest Archedeacon foi enfático:
- Não passa de uma afronta gratuita. O 14-Bis ganhou, em 1906, a Taça Archedeacon e o Prêmio do Aeroclube da França porque, até aquela época, era o único aeroplano no mundo que reunia condições de competir aos prêmios anunciados. Agora, com o ego inflado, os irmãos Wright reclamam a paternidade da aviação. Ah, essa é boa! Mas, se voaram com esse Flyer em Kitty Hawks no dia 17 de dezembro de 1903, voaram em segredo absoluto. Tanto, que a Federação Aeronáutica Internacional, sediada em Bruxelas, atribuiu a glória do primeiro voo ao 14-Bis, de Santos-Dumont. Seria mais prudente que esses fabricantes de bicicletas reconhecessem o fato e tomassem o caminho de volta aos Estados Unidos, dando o caso por encerrado, porque é de Alberto Santos-Dumont o título de Pai da Aviação. Não vale a pena perdermos tempo com esses indivíduos na França.
A presença dos irmãos Wright na França para derrubar o título do brasileiro de Pai da Aviação não feriu a soberania de Alberto Santos-Dumont, muito menos do povo francês que louvava seu nome e aplaudia suas vitórias. Pelo contrário, veio tranquilizar Santos-Dumont e outros pilotos europeus, diante da posição firme do inventor brasileiro em se defender e posição da França de ter assistido o primeiro voo de um aparelho mais pesado do que ar na história da humanidade.
 
 
DURANTE A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL, o governo norte-americano, para sensibilizar e estimular sua tropa de combate aéreo diante da poderosa Lufwaffe alemã criou a versão de que os irmãos Wright inventaram o avião.
            Apoiaram a campanha um representativo número de jornalistas e escritores norte-americanos, como John R Mac Mahon e Ferber. E mais: os norte-americanos queriam impor a comemoração do Dia da Aviação Pan-Americana em 17 de dezembro de cada ano. A ideia foi rebatida e rejeitada pelo Aeroclube do Brasil através de seu presidente Coronel Ivo Borges, que contou com apoio dos Aeroclubes da América do Sul.
            Polêmica desfeita em outubro de 1997 pelo presidente Bill Clinton ao declarar, publicamente, que o brasileiro Alberto Santos-Dumont é mesmo o Pai da Aviação. Em seguida, a escritora norte-americana, Nancy Winters, também empenhada em por fim à controvérsia, lançou o livro O Homem Voa – A História de Santos-Dumont. Outro livro, do jornalista Paul Hoffman: Asas da Loucura, restituiu o crédito de Pioneiro da Aviação ao brasileiro que encantou Paris no início do século XX com suas invenções aeronáuticas.

 

 

 

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