21.9.08

* 11/XI - BALÃO BRASIL. IMAGINAÇÃO E MUITA EMOÇÃO EM JOGO.

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- Era como se o ar em volta de nós se tivesse imobilizado. É que havíamos partido, e a corrente de ar
que atravessávamos nos comunicava sua própria velocidade. (...) Esse movimento imperceptível de marcha possui um sabor infinitamente agradável. A ilusão é absoluta. Acreditar-se-ia, não é o balão que se move, mas que é a terra que foge dele e se abaixa. (...) Aldeias e bosques, prados e castelos desfilavam como quadros movediços, em cima dos quais os apitos das locomotivas desferiam notas agudas e longínquas. Com os latidos dos cães, eram os únicos sons que chegavam ao alto. A voz humana não vai a essas solidões sem limites. Alberto Santos Dumont.

 



 

Alberto Santos-Dumont procura a Oficina Lachambre. Apresenta-se a Machuron com um projeto para construção de um balão.

- Bon jour.

- Bom dia, amigo – saúda o piloto.

- Muito trabalho?

- Muito.

- Maravilha.

- Pretende voar de novo, Alberto?

- Claro. Dessa vez, venho contratar um novo serviço.

- Como quiser.

- Trouxe o projeto de um balão.

- Um projeto?

- Desenhei e projetei um novo modelo de aeronave. Imagino que sua oficina possa construí-lo.

O construtor de balões sacode, suavemente, a cabeça.

- Está no lugar certo, meu caro.

- Bom ouvir isso.

- Estamos ao seu dispor, companheiro. Não sei se sabe, dez anos atrás, fabricamos para outro brasileiro, monsieur Júlio César, o balão Le Victoria com dez metros de comprimentos.

         - Julio César Ribeiro de Souza?!

         - Lui-meme.

         - Claro que sei quem é. Com menos de 10 anos de idade acompanhei, pela imprensa, a trajetória do balonista em Paris.

         - Um herói, pode celebrar!

- O Brasil guarda boas histórias nessa área esportiva. Antes dele, teve outro balonista que também ficou famoso. Sabe quem é?

- Não. Não sei.

            - Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.

            - Pardon. Nunca ouvi falar.

            - Criador do primeiro balão a ar quente da história da humanidade, que ficou conhecido pelo nome de Passarola.

            - Interessante! Quando aconteceu?

            - Início do século 17. Dia 8 de agosto de 1709 o padre apresentou seu aeróstato à corte do rei Dom João V, em Lisboa. Pena que as coisas não saíram como ele havia planejado.

            - Isso prova que o brasileiro tem mesmo vocação para voar.

            - Dans le sang. Muito bem, vamos ao meu projeto?

- Claro, mocinho, claro. Usamos a melhor tecnologia para qualquer que seja o arquétipo. Pode ser um balão com ar quente ou gás, com barquinha para uma, duas ou até mais pessoas. Como imaginar.

- Bom saber.

- Acima de 250 metros cúbicos de gás já sai da oficina equipado com as manobras de praxe, prontinho para subir com segurança absoluta. Para decolar, solta o lastro. Para descer, abre a válvula.

- Legal. Desejo um balão com medidas especiais.

- Maior ou menor?

- Menor. Pretendo construir um balão mais leve e ágil, com capacidade para cem metros cúbicos de gás.

- Pequeno. Muito pequeno, rapaz! Construir um balão tão miúdo assim para voar tripulado é impossível - ajuíza o construtor de balões.

- Nada é absolutamente impossível, senhor Machuron. Vamos lá, o senhor disse-me ontem que o peso dessa seda, depois de envernizada, é de tantos quilos; o gás hidrogênio puro eleva tal peso. Desejo uma barquinha minúscula, e apenas um saco de lastro me será o bastante para passar algumas horas no ar; eu peso 50 quilos. Conclusão: quero um balão de cem metros cúbicos.

- Cem metros!

- Exatamente.

- Que tecnologia é essa?

- Avançada.

- Arriscado demais, fils. Com certeza terá problemas com a estabilidade.

- Por quê?

- Porque o centro de gravidade vai se localizar muito perto do bojo. Melhor dizendo: da esfera.

- Simples. Aumentemos o comprimento dos cordões de suspensão. Aí, transferimos o centro de gravidade mais para baixo – assegura Santos-Dumont.

- Não é possível. Pesquisamos balões há muito tempo e posso garantir que seu projeto é impraticável.

- Ora, amigo, levantei todas as hipóteses e cheguei à conclusão que meus cálculos, nesse caso, garantem a estabilidade.

- Permita-me?

- Evidente, monsieur.

- Eis a questão!

- Sim.

- Você acha que podemos modificar as condições naturais de uma lei natural?

- Evidente. A ciência está aí para isso.

- Prove! – exige o aeronauta. – Aqui comigo não basta dizer, é preciso provar, ali na batata!

Risos. Alberto com segurança:

- O certo é que, com o aumento do comprimento das cordas de suspensão da barquinha, isso torna possível.

- Simples assim?

- Eu não acordei um dia e disse vou fazer isso. Não. Estudei o tempo, a atmosfera, o vento.

- Imagino.

Santos-Dumont em tom de seguro:                             

- Não pense que estou querendo transgredir as leis da física. Nada disso, calculei tudo direitinho.

- Suponho. Porém...

- Fui criterioso o bastante, Machuron.

- Não estou dizendo que não foi, porém...

- Sou futurista, sim. Mas não solto as rédeas do presente, pode crer.

- Caramba!

Nesse momento, Alberto Santos-Dumont retira de sua pasta o desenho do projeto e mostra os detalhes ao construtor ao mesmo tempo em que gesticulava com as mãos demonstrando no ar o que imaginava.

- A barquinha vai operar como se fosse um pêndulo de um relógio. Está aqui o ponto de estabilidade que precisamos. Veja bem.

Machuron, ainda desconfiado:

- Meu Deus, será que isso pode dar certo?

E não muito pacífico admite:

- Não, não me arrisco não.

- Não?

- Olha, meu filho, o risco é grande. Desafio assim em campo de ciências exatas, eu não encaro.

- Respeito sua opinião, Machuron, mas estou tão certo da precisão de meu projeto no campo da matemática e da física. Meu balão terá 99% de segurança. Tanto que este balão já tem nome.

- Nome?

- Sim, nome e sobrenome.

- Arre! Qual a alcunha de seu invento?

Dumont infla o peito e pronuncia, olhando firme para o balonista:

- Balão Brasil.

- Brasil?

- J'ai deux amours, mon pays et Paris.

- Emocionante, mas...

- Isso mesmo, em homenagem ao meu país e a Paris.

Nesse momento, Hilaire Lachambre se aproxima e quis saber o teor da conversa do seu irmão com o novo cliente da oficina. Santos-Dumont explica tudo de novo ao outro piloto. Ponderado, ele logo critica o irmão:

- Machuron, qual a dúvida?

- É que...



- Apesar de ser o balonismo um campo novo de pesquisas, sujeito a muitas especulações, é importante para a nossa oficina se manter atualizada nas tecnologias das explorações aéreas. Mais ainda, conhecer e apoiar o potencial da juventude de hoje, interessada nesse assunto.

- Sim, mas...

- Ter intenção sem ação é pura ilusão. Não adianta nada. Ora, seja mais flexível, frère, com jovem que propõe fazer diferente tudo aquilo que todo mundo faz igual. Pense nisso.


- E deixe de ser teimoso, viu?

- Juro que não sei se vai dar certo. Tenho cá muitas dúvidas.

- Ora, mano, esqueceu aquela regra de que um verdadeiro gênio revoluciona os métodos de seu ofício e, por isso, quase sempre é incompreendido por seus contemporâneos. Portanto, saiba barganhar com esse inventor.

Virando-se para Alberto, Hilaire pergunta:

- É um jovem que quer transformar o mundo através das ideias, não é mesmo?

- Tenho, sim, mil ideias na cabeça. Derrubar fronteiras é uma promessa que vou levar até o fim de meus dias, pode crer.

O mecânico ri e elogia:

- Projeto ambicioso e inovador, rapaz. Do ponto de vista tecnológico não é um projeto insignificante não, merece toda a atenção de nossa parte.

Alberto reabre o sorriso, agradecido. O mecânico continua a elogiar:

- Pelo que vejo, seu trabalho é dotado de impressionante vitalidade, sim. Transmite uma visão positiva do avanço de técnicas viáveis para simplificar o voo de um balão.

- Sim, senhor.

- Muito bem. Antes de tudo, precisamos fazer uma avaliação minuciosa de seus cálculos. Sendo viável, nada impede de construir seu pequeno grande balão. No mais, é extraordinário a curiosidade e o conhecimento técnico que você demonstra possuir sobre o balonismo. Isso prova que é um jovem que domina a tecnologia sobre o aparelho que pretende construir. Parabéns.

- Evidente, Monsieur – agradece Alberto envaidecido.

- Vamos materializar seu desejo, sim. A oficina está à sua disposição, fique tranquilo. Sou daqueles que acreditam que, quando o homem sonha o mundo desenvolve, porque o real passou pela fantasia de alguém.

- Bravo! Assim é melhor – aplaude o brasileiro.

- E depois, Machuron, eu confesso que nunca vi uma maquete assim tão bem feita – enaltece Hilaire, voltando-se o rosto para o irmão - Não vejo porque não acreditar no talento do rapaz que, através de teorias científicas notáveis, nos convida a ver o mundo de outra forma. Eis a questão! Ou quer perder a encomenda?

- Não, mano - responde Machuron meio embaraçado, enquanto assuava o nariz na folha de um lenço de pano.

Risos. Lachambre filosofando:

- Reinventar é preciso. Fico alegre quando vejo que a cultura da inovação tecnológica lança raízes na França de forma tão segura. Pela primeira vez, alguém se mostra disposto a fazer apostas em projetos para a área do balonismo, como se apontasse que o modelo de nossos balões já está obsoleto, ultrapassado.

- Pode até ser.

- E, nesse jogo, esse jovem é sangue novo e antenado em tecnologia. Pode confiar no seu projeto que será um sucesso no céu.

Risos. Machuron já convencido:

- É isso, mano. Para pensar o futuro, pensa-se também o passado do futuro. Viva!

- Claro, mano.

- Dizem as boas línguas que a razão só é capaz de operar pela via da experiência – reafirma Lachambre.

- Evidente, mano – concorda Machuron, meneando a cabeça.

Santos-Dumont esfrega as mãos e abre mais o sorriso:

- Bom que chegamos a um acordo. Agradeço.

- Estou certo disso – garante Hilaire.

- Muito bem. Qual o tempo para me entregar o balão?

- Cerca de 30 dias.

- Menos.

- Por que tanta pressa?

- Sou movido a curiosidades, Lachambre. Como já deve ter percebido não gosto de engolir as coisas prontas, gosto de ir lá e fazer minha própria história.

- Vinte dias, fechado?

- Melhor. Preço?

- Vou calcular tudo direitinho e, amanhã mesmo, apresento-lhe o orçamento.

         O rapaz com seus grandes olhos pretos e imperiosos, balança a cabeça, afirmando:

- Tudo bem. Esse é o primeiro projeto e não será o último, senhor Lachambre. Pretendo abraçar a carreira de balonista.

- Parabéns.

Durante a construção do Balão Brasil, o inventor realizou várias ascensões em esféricos comuns, alugados ou, a ele confiados para provas técnicas. Santos-Dumont nunca se intimidava diante dos desafios de sair pelos céus em uma aeronave ao sabor dos ventos, mesmo que tivesse de enfrentar tempestades súbitas e aterragens distantes da cidade - problemas inevitáveis que contribuíram para apurar seu domínio de pilotagem.

Nesses voos:... inteiramente só, ao mesmo tempo capitão e passageiro único, Santos-Dumont observava detalhes de construção e de comportamento das máquinas voadoras no ar. Experiências fundamentais como mote para concluir os estudos de um avançado projeto de balões dirigidos.

Em meados de maio, o Balão Brasil fica pronto. Depois de testá-lo várias vezes, Santos-Dumont marca para 4 de junho de l898, no Jardim da Aclimação, a ascensão definitiva. No dia do voo, diante de milhares de curiosos, jornalistas e membros de uma comissão oficial do Aeroclube da França, o brasileiro demonstrou no ar o sucesso de um balão, tecnologicamente, mais avançado.

Ao aterrar, empolgado com o resultado, declara aos jornalistas:

- O Balão Brasil é muito manejável no ar e muito dócil. É, além do mais, fácil de embalar após a descida. Foi com razão que espalharam que eu o carreguei numa maleta. Para se ter ideia do que é esse balãozinho em comparação com os outros basta dizer-se que tem 113 metros cúbicos de capacidade, pesando o invólucro somente 3 quilos e meio; acrescido das camadas de verniz, davam-lhe um peso de 14 quilos. A rede, que geralmente pesava 50 quilos, não passou de 1.800 gramas. A barquinha, que era de 30, pesa apenas 6 quilos. Finalmente, a âncora, substituída por um arpeu de ferro, que pesa só 3 quilos.

E completa:

- Outro progresso: pesquisando o material para construir o Balão Brasil, descobri que a seda japonesa é mais leve e mais resistente, capaz de suportar uma grande tensão. Não tive dúvidas, revesti com ela a esfera do meu balãozinho.

A segurança e a calma do Balão Brasil no espaço aéreo coroaram o talento de seu projetista, abrindo para ele aproximação e espaço no seleto grupo de cientistas estabelecido na França.  Pouco tempo depois, ao participar de uma prova entre 12 competidores, Santos-Dumont saiu vitorioso. Atingiu com seu balão uma altitude superior a todos os concorrentes, mantendo-se no ar por 21 horas e 50 minutos.

No chão, em tom de brincadeira, desafia:

- Quem se arrisca voar comigo para ver Paris lá do alto? Debaixo desse céu azul existem mais coisas entre os prédios de Paris do que os olhos possam enxergar. Posso garantir que são momentos de pura satisfação, deslumbrante. Até porque, todos nós sonhamos com altitude, não é mesmo? Meu balãozinho eleva-se e atravessa Paris tão levemente que mais parece uma grande bolha de sabão na sua extrema transparência, arranhando o céu. É fascinante!

Mais entusiasmado reforça, apontando:

- Lá em cima, tudo é muito bonito de ver. A gente se emociona ao enxergar essa região bordada por antigas construções de forma panorâmica. O vale é soberbo!  No espelho d’água do canal, em sua luz cambaleante e fugaz, o Anjo Dourado da Bastilha ganha contornos fantasmagóricos, como se uma miragem flutuante no céu. Incrível.

Risos entre as pessoas presentes. O piloto despede-se da multidão e acompanha os amigos para comemorar a vitória no Maxim’s, onde todos foram servidos com o Filet de sole Dumont, prato feito de linguado com cogumelos e lagostins com molho à base de lagostim, criado pela mãe do inventor e passado ao proprietário do restaurante.

O chef gostou tanto da receita que a incorporou ao cardápio da casa em homenagem ao Petit Santô, aguçando a gula de todo mundo.

 

 

 

* FBN© - 2013 – Balão Brasil. Imaginação e Muita Emoção em Jogo – Cap. 11 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link:


http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/balo-brasil-imaginao-e-muita-emoo-em.html


 

 

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