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Paris - 1900
Paris - 1900
Alberto Santos-Dumont era descrito pelos jornais como um
homem sonhador que não temia o desconhecido. Possuía a agilidade
de um gato, a pisada segura de um montanhista, as mãos de um hábil engenheiro e uma
convicção inabalável que tornava a ficção de Júlio Verne em realidade
Três dias
após receber o Prêmio Deutsche, Alberto Santos-Dumont recebe a imprensa na sede
do Aeroclube de Paris para uma entrevista coletiva, concedida a vinte e oito
repórteres nacionais e estrangeiros.
Sentados
numa mesa, devidamente, forrada com as bandeiras da França e do Brasil, os
senhores Barão Henry Deutsche de la Meurthe, Alexandre Gustave Eiffel, Sem,
Louis Cartier e o professor Garcia. Ao lado o fotógrafo François Kollar e o
jornalista Gordon Bennett, promotor do evento, que inicia a sessão convidando o
cientista brasileiro para ocupar a cadeira do centro, entre as autoridades
presentes.
Santos-Dumont saúda a todos e senta-se
sob aplausos da plateia. Logo, Bennett acena para a reportisa Béatrice Flaubert
abrir a roda de perguntas. Com um sorriso largo no rosto, ela fica de pé e
inicia a entrevista:
- Prezado cientista, inventor e piloto
Alberto Santos-Dumont..., prezados senhores da mesa..., prezados colegas jornalistas,
coube-me a honra de abrir a sessão de um evento inédito na mídia francesa.
Desse modo, dirijo ao ilustre aviador a seguinte pergunta: Qual a sensação de
vislumbrar Paris lá de cima, contornar a Torre Eiffel e mostrar ao mundo a
certeza de que o homem já pode voar, com total domínio do espaço aéreo? E como
foi ganhar o Prêmio Deutsche?
O cientista ergue-se, cerimoniosamente, cortejando a jornalista e os demais
profissionais presentes no auditório.
- Antes de responder à Mademoiselle
Béatrice preciso dizer que meu coração, que não é de ferro, está muito alegre e
lisonjeado com a presença de grandes jornalistas nesse encontro histórico em
Paris. Muito me honra, obrigado a todos.
Novamente acomodado na sua cadeira, o brasileiro responde com o rosto voltado
para a repórter:
- Belle!
Sublime! Paris é uma cidade esplêndida, mais não há no mundo. Do alto
vislumbram-se mais ainda todos os seus arredores geográficos. Agora, contornar
a Torre Eiffel foi para mim o certificado de que o homem dominou de vez a
capacidade de explorar o espaço aéreo, conforme sua vontade. Posso dizer que,
se os pássaros foram feitos para voar em qualquer direção, provei que o homem
agora pode também fazer o mesmo. Quanto à conquista da cobiçada medalha do
Prêmio Deutsche, agradeço aos céus pela glória mais celestial que um balonista
pode alcançar. Nada mais gratificante! Por outro lado, veio consolidar meu
trabalho que representa anos de dedicação, investimento e muita pesquisa.
Palmas no auditório. Gordon agradece o entrevistado e, em seguida, se dirige
aos colegas:
- Conforme ajustado na ordem de chamada, a próxima pergunta cabe a Jaurès, sentado na segunda cadeira da primeira fila, para dar sequência à roda de perguntas ao monsieur Alberto Santos-Dumont. Em seguida, será a vez de seu colega ao lado. E assim por diante até chegar a hora de Georges Goursat, lá no fundo. Por favor, Jaurès.
Jaurès: Ilustre inventor, a história do voo mecânico terminou para o senhor?
- Ao contrário, estamos no começo. Arrebatar o Deutsche não quer dizer que venci a guerra, apenas ganhei um hound nessa trajetória de voo. O ‘dirigível’, conforme afirmam os especialistas na área, foi um pequeno passo para o homem, mas um grande salto para ciência aeronáutica. Agora, mais do que nunca, precisamos de competência, sabedoria e coragem para realizar os avanços tecnológicos que a sociedade espera no futuro. Para tal, o apoio da imprensa é imprescindível, porque dela dependem os leitores interessados em saber como a ciência pode mudar a vida de cada um e, consequentemente, o rumo do planeta.
Robert Demachy: O senhor tem mais
projetos na prancheta?
- Como nasci para voar e, desassossegado como sou, apresentarei em breve
aeronaves mais ágeis no ar, mais modernas.
Louis Vert: Pode adiantar alguma coisa?
- Ainda é cedo. O inventor nunca deve pôr tudo à vista, se não, perde o encanto
e deixa de aguçar a imaginação do povo. Em Minas Gerais, lá no Brasil, muito
cedo aprendemos que a palavra é de prata e o silêncio de ouro.
Jean Marc: Medo dos concorrentes?
- Talvez. Depois de um tempo, a gente aprende que o sol queima se ficarmos
expostos por muito tempo aos seus raios. Posso afirmar que um cientista que se
coloca diante dos desafios e encara como tarefa interpretar seus horizontes em
toda a sua amplitude, não tem medo de se aventurar. Portanto, na hora certa,
saberão em primeiro lugar.
Nicolas Hénin: Como se sente ao dominar o
espaço aéreo?
- Nunca pensei que o espaço aéreo fosse indomável. Nunca. Por isso mesmo travei
uma luta incomum até driblar as barreiras do sistema atmosférico e usufruir,
com autoridade, dessa eficiente estrada disponibilizada pela natureza.
Pierre Torres: Diante de tantos
acidentes, como enfrenta a crítica negativa?
- Ufa! Dos acidentes perdi
a conta, cai em terra e no mar. Alguns graves, outros até anedóticos. Ainda bem
que nunca tive fraturas, o mais sério foi um corte sobre o cílio direito, que
precisou de uma sutura de seis pontos. Nada mais comprometedor. Depois de cada
acidente, sempre digo a mim mesmo: não
desanime! Não desista! Do chão que se levanta... Como sou um indivíduo
teimoso por natureza, me recuso a aceitar limitações. Até hoje, ninguém me
ensinou que algo é impossível. Quanto à crítica, lembro-me de uma frase de
Pierre Beaumarchais:... Sem o poder da
crítica, nenhum elogio é válido.
Dominique P.: Como o povo vê seu
trabalho?
- Quando sofri meu primeiro acidente pensei que seria vaiado e xingado pela
multidão que me assistia. Nada disso aconteceu. Em Paris, onde quer que eu
esteja com meus balões, recebo o carinho e o estímulo da população, que tem
sede por novas tecnologias a serviço da humanidade.
Thomas Dandois: Que tem a dizer ao povo
Francês?
- Obrigado pelo acolhimento que tive nessa cidade. Posso dizer que o francês é
um povo atualizado, vive e faz parte do futuro. Sem o apoio dessa gente seria
tudo muito mais difícil. Minha gratidão é tanta que ofereci o Prêmio Deutsche aos franceses. Pela França quero fazer
mais, muito mais. Comprometo-me transformar os atuais conceitos balonístico em
avançados projetos de aviação.
Pierre Creisson: Senhor Santos-Dumont,
pretende se naturalizar francês?
- Devo fidelidade à França, adoro a França. Aqui se estuda e aqui se
pratica o que aprendeu. Metade de meu sangue é francês, mas nasci brasileiro.
Portanto, a França continuará a ser minha segunda pátria, porque amar o país em
que nasceste é amar a si mesmo. Para mim, o que é importante para o Brasil é
importante para a França.
Sessão interrompida pelos aplausos da plateia. Em seguida:
Ghislaine Dupont: O senhor poderia dizer
se já foi acometido, em pleno voo, por uma tempestade e como enfrentou a
situação?
- Ah, sim! Antes de responder-lhe, Mademoiselle, para melhor ilustrar drama
dessa natureza, cito trecho de uma carta de Cristóvão Colombo aos reis da
Espanha, em 1503. Ao enfrentar forte tormenta em alto mar, escreveu o
navegador: ... Durante esse tempo todo
não encontrei guarida, pois não pude nem me deixaram as tormentas do céu, da
água, trovões e relâmpagos encabáveis pareciam o fim do mundo. Bem, agora
voltando à sua pergunta, digo que, certo dia, quando eu testava um balão de
porte médio, vivi momentos de muita aflição ao ser surpreendido por um vendaval
repentino. Logo o tempo fechou, o céu tornou-se uma massa cinza medonha,
seguida de um temporal danado. Tão bravo que não via mais nada na minha frente,
a não ser a luz dos relâmpagos faiscando sem dar trégua em meio a inúmeros
trovões que, um seguido do outro, explodiam como se estivesse pegando fogo no
céu. Meu balão, por sua vez, dando solavancos no ar num ritmo frenético, à
deriva avançava nas trevas numa grande velocidade, empurrado pela força voraz
da natureza. Diante dessa turbulência infernal eu tive medo, bastante medo, é
claro. - Meu Deus, cheguei ao inferno de
Dante! – pensava assustado já sentindo o beijo da morte. Sem poder fazer
nada, procurei manter a calma e confiar na proteção do meu anjo da guarda, até
que passasse a tormenta. Apenas isso. No mais era ficar quieto e observar o
comportamento do balão no meio daquela tempestade considerável. Assim foi por
mais de uma hora. Quando a chuva parou e a visibilidade voltou, felizmente,
pude sentir o peso da mão divina no leme da minha história existencial. Agradecido,
aterrei ainda com o dia claro, porém mais de cem quilômetros distantes de
Paris. No dia seguinte, não teve jeito, contrai uma gripe brava, mas escapei de
um mal maior.
Claude Verlon: O Senhor cultiva alguma crença religiosa?
- Nasci católico, mas respeito
todas as religiões. Dizem por aí que existem duas maneiras de viver: uma é como
se na vida nada fosse milagre. A outra é como se tudo fosse um milagre. Eu
confio na soma das duas propostas e estou satisfeito. Fui criado aprendendo a
ter fé em Deus, no progresso da ciência e, no aeroplano, como meio de
transporte de massa. Portanto, minha prece é o meu trabalho.
Jacque-Laurent: Caso encontrasse com Deus um dia, o que
gostaria que ele dissesse ao senhor?
- Vou apresentar a você
Leonardo da Vinci.
Risos na plateia pelo bom humor do cientista.
Hervé G.: O senhor recorre ao uso de
alguma droga para criar coragem cada vez que sai por aí voando?
- Não. Nem de álcool. Não frequento os fumeies
para consumir ópio, nem as farmácias para comprar cocaína, muito menos os bares
para beber absinto. Gosto de vinho, mas degusto socialmente. Por mais que se
fale na liberalidade de uma belle-époque
francesa, não acho legal o uso das drogas associado à modernidade, como se fosse
addiction élégante. O patife que se
aventurar por esse caminho, em busca de alucinações, encontrará uma felicidade
falsa. Pode pagar caro pelo estrago que as drogas produzem no organismo humano.
O próximo, por favor.
Stephanie T.: Como foi o voo para ganhar
o Prêmio Deutsche, e por que avançou
a linha de chegada?
- Emocionante! Muito, muito emocionante! Quanto ao avanço, devo dizer que o
regulamento não apontava se o concorrente deveria cruzar a linha de chegada no
ar, ou no chão. Atravessei a marcação como um cavalo passa adiante do disco,
uma regata avança ou um automóvel continua a rodar depois da linha de chegada.
É isso.
Repórter: A caminho da vitória qual foi
sua maior emoção?
- No trajeto para a Torre Eiffel, nem uma só vez olhei para os telhados de
Paris. Meus olhos estavam mirados no monumento. Na volta, a uma altitude de 150
metros, ai sim, pude me emocionar com aquela gente toda lá embaixo, na maior
fé, acompanhando o trajeto do meu balão como numa procissão.
Repórter: A experiência que adquiriu com
os aerostáticos ajudou a vencer os desafios de manobrar um dirigível.
- Certamente sim. Ajudou, e muito. Principalmente para manobrar um balão
alongado, equipado com motor e propulsor.
Repórter: Quando teve certeza absoluta
que havia dominado a técnica da dirigibilidade de um balão?
- Uma vez conversando com meu pai, o saudoso engenheiro Henrique Dumont, disse
a ele que meu intento era juntar a força do motor a petróleo, que conheci em
Paris, em 1892, ao balão suspenso. Ele me encorajou e me passou alguns
elementos técnicos para desenvolver o projeto. Anos mais tarde, depois de
incontáveis noites sem dormir, desenhando e redesenhado projetos, construí o
SD-1 e o SD-2, protótipos que me deram a certeza de que poderia dirigir um
balão no ar.
Repórter: Como e quando percebeu que era
agraciado de um espírito criador?
- Desde muito cedo. Deitado à sombra da varanda de minha casa, eu me detinha a
contemplar o céu brasileiro, admirado com a facilidade com que as aves maiores
se elevavam tão alto. Nesses voos dos pássaros, dentro de minha cabeça,
materializava-se a visão de uma máquina voadora criada para o homem conquistar
o espaço aéreo. Ainda menino de calça curta, quando a molecada se reunião para
brincar de ‘O homem voa?”, eu sempre respondia “Sim”. Todos riam. Quanto mais "troçavam" de mim, maior
minha convicção. Assim foi durante toda minha infância e juventude,
meditando sobre a exploração do grande oceano celeste nas asas da prosperidade.
Tais devaneios, eu os guardava comigo. Alguma coisa me dizia que, um dia,
aquilo tudo poderia se tornar realidade. Com meus pais aprendi que o homem que semeia empenho e cultiva sonhos colhe
realizações. Portanto, estou começando a colher frutos dos meus sonhos.
Repórter: Desde pequeno já demonstrava
interesse pela mecânica?
- Ah, sim! Como fui criado numa grande fazenda de café, aos cinco, seis anos de
idade ficava boquiaberto diante de uma locomotiva, tanto que meu brinquedo
preferido era uma miniatura de um trem de ferro que meu pai comprou em Paris,
quando terminou seu curso de engenharia.
Durante as férias escolares, minha vida era fuçar as oficinas e operar
as máquinas da propriedade rural de meus pais. Tanto que, mal completara 10
anos de idade, eu já desmontava e montava qualquer engenhoca sem me embaraçar. No meu quarto de estudos eu desenhava,
retratava cenas e esboços de utensílios de todo tipo. Mas, foi na prática que
descobri o dinamismo da mecânica, através das locomotivas. Desde o dia em que apalpei
o corpo de metal de um vagão de carga, e meu olho se deteve na engrenagem de
uma locomotiva em pleno sol, puxando toneladas de grãos de café, tracei o meu
destino. Isso me ensinou mais do que muitas escolas curriculares que
frequentei. Dificilmente se conceberia
meio mais sugestivo para a imaginação de uma criança que sonhava com invenções
mecânicas.
Repórter: O senhor hoje é um dos homens
mais populares da França, mas não perdeu nem a simpatia nem a simplicidade,
como está lidando com a fama?
- Fama! Ora, essa gente me aplaude
porque estamos intimamente felizes com os resultados de minhas experiências.
Invento para o povo e o povo sabe disso. Por isso que as pessoas me acompanham,
me incentivam, me confortam nos momentos de fracasso. Isso é uma forma de
reconhecimento, de carinho, de parceria que muito me orgulha. Nada mais do que
uma relação de uma confiança forte. A fama não mudou em nada a minha vida.
Repórter: - Em algum momento houve
patrocínio de governos aos seus projetos?
- Nunca, também não procurei. Na minha
opinião o Estado não tem que me dar nada por exercer o trabalho de inventor. O
dinheiro que banca meus estudos, pesquisas e construções de balões vêm do
Brasil, de meus pais. Tudo muito caro, posso dizer. Antes que me façam uma
pergunta curiosa, eu respondo: meus pais eram proprietários de uma enorme
propriedade rural que cultivava e exportava café para o mundo todo. Como era um
produto de alta qualidade, não foi difícil colher daí uma grande fortuna com o
ouro verde. Deles herdei um patrimônio capaz de sustentar a mim e minhas
experiências em Paris por toda a minha vida – teria sido impossível enfrentar
essa jornada sem o auxílio financeiro de minha família. Muito bem, já viram um
grão de café in natura? Para quem não
conhece o fruto eu explico: o café é uma bebida que quando se bebe é algo preto
e tem a peculiaridade de, quando verde, ele é vermelho e vendido a preço de
ouro. Entenderam? Assim definem os italianos: Nero com la notte/forte come um pecatto/Dolce come l’amorre/Caldo com
l’inferno.
Risos entre os espectadores, totalmente descontraídos com a brincadeira feita
pelo entrevistado. Em seguida:
Repórter: Nem da Universidade de Paris
recebeu apoio aos seus empreendimentos?
- Também não pedi. Mesmo reconhecendo que as universidades têm um papel
relevante no desenvolvimento das civilizações, através das pesquisas
acadêmicas, achei por bem trabalhar meus projetos aeronáuticos com recursos
próprios.
Repórter: A fazenda de café de seus pais
era tocada por escravos negros?
- No princípio, sim. Bem antes da promulgação da Lei Áurea, a lei que libertou
os escravos no Brasil, a Fazenda Dumont não mais dispunha de mão obra escrava -
os afrodescendentes que ali permaneceram eram trabalhadores livres e ganhavam
ordenados pelos seus afazeres. Posso garantir que os cativos, enquanto
existiram em nossa propriedade, nunca foram tratados como animais, nem pelos
feitores, por ordem expressa de meus pais, que dispunham de um respeito muito
amplo por aquela gente. Lá não havia tronco, gargalheiras ou qualquer outro
instrumento de castigo e tortura, muito menos tanques de salmoura usados para o
mergulho do escravo depois de açoitado para não ‘zangar’ as feridas. Nunca
ouvimos nas senzalas o som dos tambores do jongo, aquele batuque com mensagens
cifradas, usado para combinar fugas. Na frente da sede da fazenda, jamais vimos
a “Dança do Chorado”, uma coreografia feita pelas escravas aos patrões para
diminuir o castigo dos maridos. Eu e meus irmãos, desde novinhos, aprendemos
que nenhuma pessoa pode dispor da outra ao seu bel prazer e, por isso, éramos
criados brincando, pés descalços, de igual para igual, com os filhos dos
servos. Muitos deles aprenderam a ler com minha mãe e minhas irmãs. A partir de
1888, meu pai passou a contratar também os quilombolas que apareciam para
trabalhar na lavoura.
Repórter: Sempre condenou a
escravocracia?
- Lição que aprendi com meus progenitores. Eu nasci e cresci entre negros,
num ambiente em que senhores e escravos conviviam numa relação amistosa
de trabalho. A infância passada no campo descortinou para mim a realidade do
regime escravocrata, que aprendi a combater desde a infância.
Repórter: Verdade que o senhor usa
pernas-de-pau para sentar à mesa de sua residência?
Diante da pergunta Santos-Dumont franzi as sobrancelhas, apaga dos lábios o
sorriso e assumi uma expressão crítica. Depois de um breve silêncio, repõe nos
olhos o pince-nez, leva uma das mãos
ao colarinho, como se o ajeitasse melhor no pescoço, e fixa o olhar na direção
do interlocutor:
- Uso, meu caro. Minha mesa de refeição e uma das cadeiras ficam dependuradas
no teto. Sabe por quê? Isso me logra a chance de exercitar o hábito de
permanecer a alguns centímetros do chão, condição si ne qua non da própria vida de aviador. Pois, o espaço aéreo é o
território de meu alvedrio.
As pessoas no auditório voltam a descontrair-se com a inteligente resposta do
cientista. Depois dos aplausos, outro jornalista retoma a entrevista:
Repórter: Fale mais de sua religiosidade
e de sua relação com Deus?
- Sou cristão, como já disse. Para mim, a formação religiosa me ensinou a amar
o próximo e a distribuir amor. Em Londres, durante meus estudos na Bristol,
tive contato com o movimento ‘Perfeita Evolução Católica’, que se deu entre
1891 e 1892. Foi bom. Para um aviador, a presença de um ser superior é muito
confortante, não é mesmo? Portanto, posso afiançar uma coisa: ciência sem religião é manca e a religião
sem ciência é cega.
Repórter: Além de ser um cientista
conceituado, pretende ser um ditador de moda entre os homens?
- Vai saber! Dizem que revolucionei a
moda masculina em Paris. Não é bem assim, nem sou estilista. Gosto de me vestir
bem. Quando desenho meus trajes, crio uma calça ou uma camisa especial, um
relógio ou um sapato diferente, é porque estou pensando, egoisticamente, em meu
trabalho. A vaidade maior que tenho é a interior. Cultivo a inteligência, até
porque, para tocar o belo temos que
transitar pelo saber, já doutrinava Apolo. Numa cidade como Paris, tudo é
permitido, inclusive o uso de roupas parecidas com as minhas. Mas, nada é
obrigatório.
Repórter: Pode nos adiantar sobre o
futuro da aviação?
- Promissor. Nos próximos anos teremos tecnologias preciosas para a humanidade.
O melhor é torcer para que sejam empregadas em benefício de uma sociedade mais
moderna e humana. Sobretudo, pacífica.
Repórter Georges Goursat: Cultua o senhor
boa relação com os outros balonistas?
- Ótima. Somos amigos, tanto no chão como no ar. Quase sempre temos a mesma
história de uma vida inteira dedicada ao desejo de voar.
O jornalista Gordon Bennett encerra o evento com a seguinte pergunta: Senhor Alberto Santos-Dumont, fale um pouco
de seu país, o Brasil.
- Oh, Terra Brasilis! Oui, nous avons du talent! Imensidão tropical que fascina os
viajantes, desde o século XV, pelo coração de ouro em peito de ferro, como
dizia o engenheiro francês Henri Gorceix. O Brasil goza da vantagem de hospedar
todas as raças, religiões e pensamentos que se misturam e se fortalecem nos
cruzamentos que acontecem de forma abençoada, sem lutas étnicas, confrontos e
sectarismo. É um país, muitos sotaques. Uma nação de todas a cores, de todas
as castas, um arco-iris social, que nasceu pelo desbravamento dos portugueses, mas logo recebeu
colonizadores franceses, italianos, espanhóis, africanos e tantos outros que
continuam dando o sangue pelo desenvolvimento de nosso país. Da plasticidade
do europeu, da sistemática cotidiana da índia, da magia doméstica da negra, o
Brasil se enredou numa miscigenação saudável para formar o mais belo povo do mundo. É só observar os
desenhos do artista francês Debret, que mostram a presença da nossa música
animada, desde os tempos coloniais, em um cenário voltado para um mundo de paz.
No Brasil vive e respira a paz, basta dizer que, sem guerras, tornou-se
independente, aboliu a escravidão negra e implantou uma república democrática.
É uma nação mágica. Os brasileiros são, incrivelmente, carinhosos e sempre
recebem seus amigos extrangeiros de braços abertos. É um Brasil de todo mundo. Convido todos
a visitar o meu país de origem, com sua cultura rica em sons e ritmos. Merci.
Ao encerrar a entrevista, os repórteres não pouparam aplausos ao aerocriador.
Em seguida Santos-Dumont levanta-se proclama em tom solene:
- Muito bem! Muito bem! Quero agradecer o trabalho da imprensa que sempre abriu
suas páginas com notícias e reportagens sobre o desenvolvimento de meu
trabalho. Muito obrigado. Merci. Merci.
Satisfeitos, os jornalistas aplaudiram o
cientista por um longo tempo. Em seguida, Alberto Santos-Dumont convida a todos
para tomar café no Le Cascade.
Entre amigos e simpatizantes, ao seu
lado estava a atriz francesa Mademoiselle Lantelnne, ligada por sólida amizade
ao inventor, como também a jornalista Béatrice Flaubert.
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Jornalista Gordon Bennett, que se tornou amigo de Alberto Santos-Dumont,
coligiu dados para sua biografia, classificando por número e datas a vasta
produção de balões e centenas de voos do piloto em Paris.