21.9.08

* 02/II - ÍCARO. O VOO DA MITOLOGIA

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                                              O sonho de Ícaro era escapar da prisão, voando.




Dona Francisca escorrega uma das mãos pelo rosto até a garganta e começa a história num tom suave:

- Séculos e séculos atrás vivia em Atenas um menino chamado Ícaro, filho do arquiteto Dédalo. Tão inteligente e ativo que, aos doze anos de idade, surpreendia o pai com o que sabia sobre construção de casas e palácios. Tudo ia bem, até que um dia Dédalo desentendeu-se com um de seus operários e o feriu de morte. Com medo de ser preso, o construtor e o filho fugiram para Creta, uma ilha governada pelo poderoso rei Minos, filho de Zeus e de Europa.

Lá foram contratados, pelo palácio real, para construir um enorme e misterioso labirinto. Depois de tudo pronto, ao examinar a obra, Minos apontou muitos defeitos na arquitetura e resolveu não pagar nada pela construção. Dédalo protestou e acabou preso e deportado com o filho para outra ilha, longe de Creta.

Desolados com o cruel destino, pai e filho começaram a arquitetar planos para fugir do lugar. Observando os pássaros, Ícaro imaginou que se pregassem penas de aves ao corpo poderiam voar para longe e escapar da prisão. Assim foi feito. No dia marcado para a fuga, o rapaz ouviu do pai:

- Filho, não vá se embriagar pelas delícias do voo e cometer loucuras nas alturas. Mantenha-se em altitude média. Voando muito alto, o calor do sol pode derreter a cera e soltar as penas. Voando muito baixo, a umidade do mar torna as asas mais pesadas. Portanto, não quero que ponha tudo a perder, afogando-se no mar.

Dona Francisca faz uma pausa, raspa a garganta e continua:

- Ícaro abraça o pai e salta para o infinito. No entusiasmo de poder voar, esquece os conselhos que ouviu e se eleva cada vez mais no céu. Não deu outra.  A cera não suportou o calor do sol e se derreteu, depenando o rapaz. Desamparado no ar, Ícaro caiu no mar e no mar morreu.

Alberto fica de pé, aplaudindo.

- Lindo, mamãe! Lindo!

- Bom que você gostou, filho. E o resto da turminha? – pergunta a mãe sorridente.

Todos os filhos responderam numa só voz:

- Siiiiiimmmm.

- Pois bem, agora vamos todos dormir – finaliza dona Francisca. 

- Não, mãe. Com Dédalo o que aconteceu? – pergunta Alberto.

Dona Francisca ri e continua:

- Ah, o pior. Ao ver o filho morrer ele não quis mais saber de voar. Construiu uma pequena embarcação e, meses depois, conseguiu chegar à Cecília e se tornou o mais importante arquiteto do rei Cócalo.

Rosalina arredonda os olhos e quis saber:

- Papai, isso foi mesmo verdade?

- Não, claro que não. É uma história da Mitologia Grega.

- Hein? - antena Alberto.

- História da Mitologia Grega. Coisa dos povos antigos.

- Explique melhor, pai.

- Mitologia, Alberto, é a história dos deuses e heróis da antiguidade.

- Tudo de mentirinha, ‘né? - exclama Luís, fazendo muxoxo de pouco caso.

A mãe levantando-se da cadeira:

- Isso mesmo! Isso mesmo!

- Já acabou? – pergunta Rosalina.

- Amanhã eu conto mais. Agora, vamos dormir. Vocês prometeram...

- Só mais uma perguntinha, mamãe.

- Uma só, filha.

- A senhora disse que Dédalo e Ícaro construíram um labirinto em Creta. O que é isso?

 - Pois bem, meninos. Labirinto é uma construção cheia de caminhos e passagens dispostos um ao lado do outro - dona Francisca começa a gesticular com as mãos tentando reproduzir no ar a forma e a imagem de um labirinto. - Assim... Assim... Tudo confusamente entrelaçados. Um caminho que vai para lá, outro para cá. Uns tem saída, outros, não. Uma confusão danada!

- E aí, mãe? Por que o rei de Creta queria o labirinto? – pergunta Alberto.

Henrique Dumont interrompe:

- Isso é história para outro dia. Amanhã mamãe conta o outro episódio, não é Chiquinha?

- Isso mesmo, gente. O pai de vocês tem razão, são quase nove horas de noite.

- Ah, mãe! A gente vai dormir com esse mistério todo? - protesta Rosalina.

Os filhos pediram mais. Entreolham-se os pais, trocando risos e palavras.

- Esses meninos! - murmura Henrique Dumont, bocejando por baixo do sorriso.

Dona Francisca, para alegria de todos, de novo acomoda-se na cadeira, enquanto o pai voltava a se esticar no canapé, quase morto de sono.

- Tudo bem, meus meninos, para o bem de todos termino de contar a história do labirinto. Depois, cada um chispa para a sua cama, certo?

- Combinado – repetiram em coro.

- Muito bem!  Muito bem! – ela riu-se e retoma o fio da narrativa - Segundo a lenda, o rei Minos era muito cruel. Tão cruel que os deuses resolveram castigá-lo, dando-lhe um filho na forma de um monstro horrível: meio homem, meio animal. Isso mesmo..., e muito feroz.  Inconformado com a sorte, o rei denominou o infante de Minotauro e decidiu encarcerá-lo em um labirinto. Para piorar as coisas, a ordem dos deuses era que o monstro, todo ano, devorasse sete rapazes e sete moças atenienses, como punição a Atenas por ter perdido a guerra para Creta.

No terceiro ano do martírio, Atenas enviou entre os jovens o guerreiro Teseu, que tinha a missão de derrotar e matar o Minotauro. Muito bem, assim que desembarcaram na ilha do rei Minos, sua filha Ariadne, ao ver o belo jovem grego, logo se apaixonou pelo herói e fez de tudo para salvá-lo da morte. Usando a inteligência, a princesa passou a Teseu um novelo, com milhares de metros de linha, para ser desenrolado na medida em que fosse avançando dentro do labirinto. Assim fez o herói até encontrar, lutar e sacrificar o Minotauro.

Para sair do local com seus amigos, bastou enrolar a linha novamente. Mas, temendo a fúria do rei Minos, Teseu fugiu com Ariadne para a ilha de Naxos. Como não viveram felizes para sempre, o herói voltou para Atenas. Ariadne desposou o príncipe Dionísio, com quem viveu até o fim da vida. Ponto final.

- Lindo, mamãe, lindo – elogia Rosalina.

- Muito bem... Agora, agora cada um para sua cama.

Henrique Dumont logo se posiciona ao lado da esposa e, os dois, começaram a encaminhar as crianças para seus aposentos, abençoando cada um com um beijinho na testa e um pedido:

- Não se esqueça da oração ao menino Jesus, viu? Bom sono.

 

 

* FBN© - 2013 – Ícaro. O Voo da Mitologia  – Cap. 02 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/caro-o-vo-da-mitologia.html 

 

 

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