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O sonho de Ícaro era escapar da prisão, voando.
Dona Francisca escorrega uma das mãos pelo rosto até a
garganta e começa a história num tom suave:
- Séculos e séculos atrás vivia em Atenas um menino
chamado Ícaro, filho do arquiteto Dédalo. Tão inteligente e ativo que, aos doze
anos de idade, surpreendia o pai com o que sabia sobre construção de casas e
palácios. Tudo ia bem, até que um dia Dédalo desentendeu-se com um de seus
operários e o feriu de morte. Com medo de ser preso, o construtor e o filho
fugiram para Creta, uma ilha governada pelo poderoso rei Minos, filho de Zeus e
de Europa.
Lá foram contratados, pelo palácio real, para construir
um enorme e misterioso labirinto. Depois de tudo pronto, ao examinar a obra,
Minos apontou muitos defeitos na arquitetura e resolveu não pagar nada pela
construção. Dédalo protestou e acabou preso e deportado com o filho para outra
ilha, longe de Creta.
Desolados com o cruel destino, pai e filho começaram a
arquitetar planos para fugir do lugar. Observando os pássaros, Ícaro imaginou
que se pregassem penas de aves ao corpo poderiam voar para longe e escapar da
prisão. Assim foi feito. No dia marcado para a fuga, o rapaz ouviu do pai:
- Filho, não vá se embriagar pelas delícias do voo e
cometer loucuras nas alturas. Mantenha-se em altitude média. Voando muito alto,
o calor do sol pode derreter a cera e soltar as penas. Voando muito baixo, a
umidade do mar torna as asas mais pesadas. Portanto, não quero que ponha tudo a
perder, afogando-se no mar.
Dona Francisca faz uma pausa, raspa a garganta e
continua:
- Ícaro abraça o pai e salta para o infinito. No
entusiasmo de poder voar, esquece os conselhos que ouviu e se eleva cada vez
mais no céu. Não deu outra. A cera não
suportou o calor do sol e se derreteu, depenando o rapaz. Desamparado no ar,
Ícaro caiu no mar e no mar morreu.
Alberto fica de pé, aplaudindo.
- Lindo, mamãe! Lindo!
- Bom que você gostou, filho. E o resto da turminha? –
pergunta a mãe sorridente.
Todos os filhos responderam numa só voz:
- Siiiiiimmmm.
- Pois bem, agora vamos todos dormir – finaliza dona
Francisca.
- Não, mãe. Com Dédalo o que aconteceu? – pergunta
Alberto.
Dona Francisca ri e continua:
- Ah, o pior. Ao ver o filho morrer ele não quis mais
saber de voar. Construiu uma pequena embarcação e, meses depois, conseguiu
chegar à Cecília e se tornou o mais importante arquiteto do rei Cócalo.
Rosalina arredonda os olhos e quis saber:
- Papai, isso foi mesmo verdade?
- Não, claro que não. É uma história da Mitologia Grega.
- Hein? - antena Alberto.
- História da Mitologia Grega. Coisa dos povos antigos.
- Explique melhor, pai.
- Mitologia, Alberto, é a história dos deuses e heróis da
antiguidade.
- Tudo de mentirinha, ‘né? - exclama Luís, fazendo muxoxo
de pouco caso.
A mãe levantando-se da cadeira:
- Isso mesmo! Isso mesmo!
- Já acabou? – pergunta Rosalina.
- Amanhã eu conto mais. Agora, vamos dormir. Vocês
prometeram...
- Só mais uma perguntinha, mamãe.
- Uma só, filha.
- A senhora disse que Dédalo e Ícaro construíram um
labirinto em Creta. O que é isso?
- Pois bem,
meninos. Labirinto é uma construção cheia de caminhos e passagens dispostos um
ao lado do outro - dona Francisca começa a gesticular com as mãos tentando reproduzir
no ar a forma e a imagem de um labirinto. - Assim... Assim... Tudo confusamente
entrelaçados. Um caminho que vai para lá, outro para cá. Uns tem saída, outros,
não. Uma confusão danada!
- E aí, mãe? Por que o rei de Creta queria o labirinto? –
pergunta Alberto.
Henrique Dumont interrompe:
- Isso é história para outro dia. Amanhã mamãe conta o
outro episódio, não é Chiquinha?
- Isso mesmo, gente. O pai de vocês tem razão, são quase
nove horas de noite.
- Ah, mãe! A gente vai dormir com esse mistério todo? -
protesta Rosalina.
Os filhos pediram mais. Entreolham-se os pais, trocando risos e
palavras.
- Esses meninos! - murmura Henrique
Dumont, bocejando por baixo do sorriso.
Dona Francisca, para alegria de todos, de novo acomoda-se
na cadeira, enquanto o pai voltava a se esticar no canapé, quase morto de sono.
- Tudo bem, meus meninos, para o bem de todos termino de
contar a história do labirinto. Depois, cada um chispa para a sua cama, certo?
- Combinado – repetiram em coro.
- Muito bem! Muito
bem! – ela riu-se e retoma o fio da narrativa - Segundo a lenda, o rei Minos
era muito cruel. Tão cruel que os deuses resolveram castigá-lo, dando-lhe um
filho na forma de um monstro horrível: meio homem, meio animal. Isso mesmo...,
e muito feroz. Inconformado com a sorte,
o rei denominou o infante de Minotauro e decidiu encarcerá-lo em um labirinto.
Para piorar as coisas, a ordem dos deuses era que o monstro, todo ano,
devorasse sete rapazes e sete moças atenienses, como punição a Atenas por ter
perdido a guerra para Creta.
No terceiro ano do martírio, Atenas enviou entre os
jovens o guerreiro Teseu, que tinha a missão de derrotar e matar o Minotauro.
Muito bem, assim que desembarcaram na ilha do rei Minos, sua filha Ariadne, ao
ver o belo jovem grego, logo se apaixonou pelo herói e fez de tudo para
salvá-lo da morte. Usando a inteligência, a princesa passou a Teseu um novelo,
com milhares de metros de linha, para ser desenrolado na medida em que fosse
avançando dentro do labirinto. Assim fez o herói até encontrar, lutar e
sacrificar o Minotauro.
Para sair do local com seus amigos, bastou enrolar a
linha novamente. Mas, temendo a fúria do rei Minos, Teseu fugiu com Ariadne
para a ilha de Naxos. Como não viveram felizes para sempre, o herói voltou para
Atenas. Ariadne desposou o príncipe Dionísio, com quem viveu até o fim da vida.
Ponto final.
- Lindo, mamãe, lindo – elogia Rosalina.
- Muito bem... Agora, agora cada um para sua cama.
Henrique Dumont logo se posiciona ao lado da esposa e, os
dois, começaram a encaminhar as crianças para seus aposentos, abençoando cada
um com um beijinho na testa e um pedido:
- Não se esqueça da oração ao menino Jesus, viu? Bom
sono.
* FBN© - 2013 – Ícaro. O Voo da Mitologia –
Cap. 02 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada –
Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto
original em português - IIustr.: Imagens da Internet - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/caro-o-vo-da-mitologia.html
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