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Alberto Santos-Dumont
Sonhos do cientista brasileiro
Alberto Santos-Dumont
Sonhos do cientista brasileiro
- Completei 59 anos de idade; excetuando aqueles parentes
e amigos
que, por um motivo ou outro, foram ficando pelo caminho,
vejo essa revolução
com profunda tristeza.
É um combate de irmãos contra irmãos. Não há como suportar!...
De uma forma ou de outra, estou contribuindo com essa
matança indiscriminada - Alberto
Santos-Dumont
Dilacerado no corpo e no espírito, Alberto
Santos-Dumont sofria profundamente com o desdobramento da Revolução
Constitucionalista, em São Paulo. Para ele era um atentado violento à
integridade nacional do país, promovendo a matança coletiva entre irmãos.
Diante desse quando sangrento, o
cientista, após as festas do seu aniversário comemorado em família, parte com o
sobrinho Jorge Dumont para uma temporada em Guarujá, no litoral paulista.
Na
tarde do dia 22 de junho de 1932, procurado para uma entrevista, recebe no hall do Grande Hotel de La Plage a
reportisa Eugênia Brandão, do jornal carioca Última Hora.
*
Primeiramente, quero parabenizá-lo pelo aniversário, comemorado anteontem.
Obrigado. Muito obrigado.
* Como é
se aproximar dos sessenta anos?
Arre! Confesso que eu não sei bem, ainda não
parei para pensar. Tudo foi muito rápido. Até parece que foi ontem que
desembarquei em Paris para realizar meu sonho de voar.
*
Considera-se realizado?
Dependendo do ponto de vista, sim. Acho que
poderia ter feito mais, principalmente, pela paz mundial. Gandhi resumiu bem
quando disse que a diferença entre nossa
capacidade de fazer e o que realmente fazemos poderia resolver todos os
problemas do mundo.
* Aborrecido
com Movimento Constitucionalista?
Claro! Mesmo aqui na praia, eu posso
ver e ouvir o rumor arrepiante dessas máquinas voadoras em combate. Uma
perseguição! Intolerável! Meu Deus, onde já se viu uma guerra assim entre
irmãos? Posso dizer que, para muitos jovens paulistas, alistar-se como soldado
de guerra é o seu primeiro emprego. Arre! Que podemos esperar dessa gente
quando essa barbaridade terminar?
*
Antes de deixar São Paulo chegou a ver a cidade como campo de batalha?
Infelizmente,
sim. Bombas e tiros de canhão pipocavam a todo instante no espaço aéreo de São
Paulo. Um horror! Verdadeiro teatro do absurdo, interpretado por pessoas
que matam e morrem por ideais nada convincentes. É bom lembrar que, além
da verdade sinistra da guerra, existe um espaço comum para a angústia quando
ela revela a barbárie. É o fim, aniquila tudo. Para que tanto ódio, tanta violência?
*
O senhor continua fazendo restrições ao uso do avião em guerra?
Lógico que sim. Na Primeira Guerra
Mundial, o uso intensivo dos aviões como máquinas de guerra, me permitiu
imaginar o grau de destruição que as aeronaves poderão atingir no futuro. Nessa
missão são diabólicas, dispersadoras da morte. Não só entre as forças
combatentes, mas também entre as pessoas inofensivas da zona de retaguarda.
Nada mais cruel. Quando uma guerra termina, por muito tempo, o sofrimento
permanece como irrespondível enigma da crueldade humana.
*
Até o início da Primeira Guerra Mundial, o senhor chegou a mostrar vantagens de
um país incorporar o avião em seu arsenal de defesa. Por quê?
Convencido por ministros da defesa de
vários países europeus não tive outra saída. Arre! Fiz coisas que não se
deveria ter feito, reconheço. Mas, quando vi a Europa mergulhada numa
carnificina sem igual, destruída pelas máquinas que inventei, mudei de posição.
Uma barbárie! Depois disso, minha vida nunca mais foi a mesma.
* Pois
bem, fale do século XX que o senhor ajudou a construir.
Esse século já nasceu pronto para
brilhar e realizar sonhos, apesar de muita turbulência. Ainda nesse século o
homem voará mais alto e, quem sabe, vai realizar outras conquistas espaciais
imaginadas por Júlio Verne, como desbravar a estratosfera e alcançar a Lua.
Ninguém é capaz de imaginar o que a ciência ainda reserva à humanidade.
* Tudo isso
a partir do voo histórico do 14-Bis?
Posso dizer que o 14-Bis é o
resultado de uma grande ideia com grande resultado. Ele definiu os pilares
básicos da aviação. Para chegar a ele, principalmente, tive que descobrir os
meios para manter o equilíbrio transversal de um aeroplano no espaço. A partir
daí avancei nas pesquisas até chegar ao Demoiselle, que pavimentou de vez os
alicerces para o desenvolvimento tecnológico da aviação.
* Cite
três fatos que mais impressionaram o senhor na evolução das máquinas voadoras.
- Três apenas? Ah, são tantos! Mas
vou falar de três acontecimentos memoráveis. Primeiro: ... o voo de Aída Costa, la première aero-chauffeuse
du monde, em 29 de julho de 1903. A jovem cubana de apenas 19 anos pilotou,
durante uma hora e meia, um dos meus dirigíveis com segurança absoluta. Um
sucesso! Segundo: a ousadia do piloto Louis Blériot, quando cruzou o Canal da
Mancha, em 25 de julho de 1909, e ganhou o prêmio do jornal britânico Daily
Mail. Um grande avanço! Por fim, em 1911, ao saber da habilidade do piloto
norte-americano Eugene Ely que, com o aeroplano Curtiss, construído a partir do
meu Demoiselle, pousou na proa do cruzador Pennsylvania, ancorado na Baía de
São Francisco. Fantástico!
* Quem
primeiro cruzou o Oceano Atlântico com um avião: Lindbergh ou João Ribeiro?
Não tenho dúvida
que foi João Ribeiro de Barros. O brasileiro voou da Europa para o Continente
Americano partindo de Gênova, na Itália, com o avião Jahu e aterrissou em 28 de
abril de 1927, no Arquipélago de Fernando de Noronha. Formalmente, seu voo não
foi reconhecido. Charles Augustus Lindbergh, com seu monomotor Epirit of Saint
Louis, saiu de Nova Iorque e pousou no Campo de Le Bourget, Paris, em 21 de
maio de 1927, portando trinta e poucos dias depois. Ele voou 5.790 quilômetros
sobre o mar, em 33 horas e meia. Pelo mérito, ganhou o prêmio de 25 mil dólares,
oferecido pelo Aeroclube da França, ao aviador que fizesse o primeiro voo, sem
escala, de Nova Iorque a Paris. Foi isso.
* O
senhor foi uma criança-prodígio e teve fama precoce, mas conseguiu preservar a
sua privacidade. Acha que a fama pode ser perigosa?
Depende do ponto de vista. Eu tive
muita sorte de ter pais e professores inteligentes e sensíveis, que souberam me
encaminhar na vida, desde a infância. Isso me faz concordar com os
profissionais da educação quando dizem que, o que acontece nos primeiros anos
de vida de uma criança, tem reflexos no resto de sua existência. A fama pode, sim,
ser perigosa. Tem que saber lidar com ela.
* Educação
no Brasil?
Preocupado com a educação em nosso país, em
várias cartas a Benjamin Constant, titular do Ministério da Instrução, eu defendia
a expansão da educação secundária pública nos moldes positivistas do filósofo
francês Auguste Comte. Ele foi o educador que introduziu o ensino de ciências
físicas e naturais na Europa. No Brasil essa planilha escolar seria muito bem-vinda,
pode crer.
* Seu conceito pleno?
Aquilo que enche o coração.
* Uma
cláusula pétrea?
O amor.
* Então
fale um pouco do amor?
O amor, ah, o amor! Amei tudo com
intensidade: minha família, meus amigos, meus estudos, minhas invenções. Amei a
natureza com a magnitude de um apaixonado pelas pessoas, pelas árvores, pelos
bichos, pelo céu, pelo mar. Não casei porque meu trabalho impediu-me de
contrair matrimônio quando jovem. Quando acordei, estava velho e doente. Daí,
eu pensei: qual mulher aventuraria a se casar comigo? Sem um amor para dividir
os dias, fui obrigado a tocar a vida quase sozinho, cuidando de tudo, fazendo de
tudo. Iolanda Penteado é apenas uma grande amiga. Diante disso, criei laços
fortes com a ciência exata e as pessoas amistosas em torno de mim. Posso dizer
que não padeci pelo amor romântico, mas nada contra sofrer de amor pela mulher
amada. Esse atropelamento, muitas vezes, é inevitável na calçada da vida.
* Velhice?
Não sou um velho feliz, apesar do
carinho da minha família e das pessoas que me cercam. Com a idade, as coisas
mudam. A idade, lamentavelmente, avança revelando as dores de um corpo que se
definha com os anos consumidos. Nada mais rude. Mas, por outro lado, posso afirmar que eu já
fui um cara que divertiu bastante, tanto no espaço como em terra firme.
- Lei da Entropia?
- Invariavelmente. Essa lei diz que a energia
de um corpo tende a se degenerar e com isso a desordem do sistema aumenta.
Portanto, tudo que foi composto será decomposto, tudo que foi construído
será destruído, tudo foi feito para acabar. É assim mesmo, não podemos ir
contra a tecnologia, mesmo a biológica.
* Acha que, no Brasil, as
pessoas mais velhas são respeitadas como deveriam?
Talvez não. Em nosso país sinto que a
sociedade gosta cada dia menos de velhos. Somos vistos como problemas. Na Europa é diferente. Lá o sinal da idade é
um orgulho para a coletividade. O Brasil precisa refletir mais sobre o assunto,
e educar nossos jovens a ter uma convivência proveitosa com as pessoas mais
velhas, porque são elas que alimentam melhor nossa jurisdição interior.
* Teme a morte?
Essa pergunta é enorme, e a discussão muito longa. Mas, digo que
não temo a morte. Nem a anunciada. Particularmente, defendo que a
autodestruição é um problema filosófico digno de ser discutido até a exaustão.
* Religião?
Ainda tenho muitas dúvidas, mas respeitos todas. Veja essa correntinha. Desde
que ganhei essa relíquia da princesa Isabel, não a tiro mais do braço. Uso por
uma questão de respeito a ela e também porque gostei muito de conhecer a
princesa.
* O que mais agrada o senhor em Guarujá?
Gosto da companhia de meu sobrinho,
sobretudo. Gosto de acordar e fazer o que me dá vontade. Gosto das coisas
simples, de estar com as pessoas do povo que fico conhecendo na praia, de
passear a pé no centro da cidade. Enfim, hoje em dia, não faço planos nem para
o dia seguinte.
* O que representa o Brasil na sua
vida?
Amo nosso país, demasiadamente.
Aqui, assisti a inúmeras mudanças sociais e políticas. Em 1888, aos quinze
anos, pude deixar de ter vergonha de nossa nação por causa da escravatura.
Depois, em 1889, o império de Dom Pedro II foi substituído pelo regime
republicano. Tudo de forma civilizada, sem conflitos armados nem revoltas
arrebatadas. E depois, não há no mundo terra tão rica em biodiversidade, não é
mesmo?
* De que
forma o senhor gostaria de ser lembrado?
Como o cientista que inventou do
avião, essa máquina que hoje metralha e, ao mesmo tempo, salva vidas, transpõe
obstáculos e diminui as distâncias entre as nações. Quero ser lembrado como um
cidadão que, desde a infância, pelo engenho e pela curiosidade, lutou para
realizar o desejo de voar.
* Pretende voltar a Paris?
Não. Lá vivi enquanto jovem, fiz e realizei.
Foi um sonho com muitos desafios. Retornei ao Brasil com o sentimento de missão
cumprida. É isso.
* Obrigado
pela entrevista.
Há muito não recebia repórteres,
impedido pelo meu estado de saúde, como também pelo ressentimento com as nações
que promovem guerras. Obrigado pela paciência de me ouvir, mademoiselle Eugênia Brandão. Tomara que outras moças com a sua
habilidade sigam seu ofício de reportisa, o que muito vai enriquecer a redação
dos veículos de imprensa. A participação da mulher é imprescindível em todo
seguimento profissional de uma nação que se moderniza.
-
Para mim foi uma honra entrevistar o Pai da Aviação, monsieur Alberto Santos-Dumont. Como também agradeço a oportunidade
de estar na presença de um ser humano,
extraordinariamente, único. Até mais.
- Revoir!
No dia seguinte Santos-Dumont amanhece mal,
como se acometido por um desespero interior grave. Oscilava entre o remorso de
ver sua invenção matando gente inocente numa guerra sem precedentes - um dos capítulos mais
tristes da história do Brasil - e momentos de intensas dores físicas pelo
corpo.
Mesmo assim, desce até o refeitório do hotel e senta-se ao lado do sobrinho,
em seu lance matinal.
- Sentido bem, tio? –
pergunta Jorge.
- A cabeça pesa um pouco,
sem falar das dores fortes no corpo. Arre, essa doença!
- Tomou seus remédios?
- Sim.
- Não pode esquecer nenhum
deles, viu?
Santos-Dumont sorri, olha
para longe através da janela.
- Puxa vida! Até aqui eu
acordo com os aviões militares, fazendo estripulias nos céus paulistanos. Ah, é
de amargar!
- Desliga tio. Relaxa.
- Como? O barulho dessas máquinas é
desesperador.
- Precisa distrair com outras
coisas, tio. Assim é melhor. Ah, o senhor tomou seu tranquilizante?
- Ah, esqueci. Também com essa
afobação toda.
- Quer que eu busque para o senhor?
- Não se preocupe, faço isso depois
do meu pão com manteiga. Há anos travo essa luta diária com a doença, não se
preocupe. Arre! Ainda bem que meu corpo sempre arranja uma gambiarra para fazer
circular meu sangue e assim continuar vivendo, não é mesmo? Muito bem, muito
bem, vou tomar meu cafezinho e você vai dar sua circulada pela orla marítima.
Agasalhe, está frio e venta muito lá fora. Encontramos no almoço, certo?
- Prefiro que venha comigo – insiste
o sobrinho.
- Não, não. Quero ficar no hotel. Lá
fora vou sofrer mais ainda ao ver tantos aviões planando sobre a praia. Hoje não
dá, amanhã...
- Tudo bem, tio.
Santos-Dumont faz um breve silêncio,
contrai a testa e censura:
- Para o inferno os dirigentes
políticos de nosso país. Absurdo o que estão fazendo com a nação... Meu Deus,
matar irmãos! Quando é que essa gente que dirige o Brasil vai entender isso?
-
Calma tio, calma. Espere aqui que vou buscar seu calmante – levanta-se de
chofre Jorge.
- Não se preocupe, senta-se. Não
precisa se preocupar. Na verdade, amanheci com as pernas meio preguiçosas, por
isso não o acompanho no passeio.
- Entendo.
- Vamos, filho, aproveite seu dia.
Vou procurar me entreter conversando com as pessoas do hotel. Pelo menos, posso
parar de pensar, o que é muito bom. Caso contrário, isso continua e não termina
nunca.
- Prometo não demorar. Até logo.
- Fique tranquilo que não você
morrer longe de seus cuidados.
- Se cuide, tio.
Para tranquilizar mais ainda o
sobrinho, Santos-Dumont disfarça um sorriso e brinca:
- Vê se pode, tem gente que diz não temer a morte. Eu temo. Falo no
assunto com a esperança de empurrar o momento para cada vez mais longe. Vai com
Deus. Espero você para o almoço, viu?
Era o começo da manhã do dia 23 de
julho de 1932, um mês depois do início da Revolução Constitucionalista. O céu
em Guarujá estava claro e um vento frio castigava a cidade. Alberto
Santos-Dumont, após o lanche da manhã, recolhe-se aos seus aposentos, fustigado
pelo ronco dos aviões que atravessavam as praias do litoral paulista.
Através da vidraça, surpreende-se ao
ver uma esquadrilha aérea em voos rasantes sobre o mar. Abomina a cena. Bate
com brutalidade a janela e começa a andar inquieto pelo quarto. A dor de cabeça
aumentava, latejando. De repente teve uma visão: alguém tinha caído de cara na
escrivaninha e sangrava. A caneta rolara no sangue e a tinta escorrera toda
sobre a superfície do móvel, dividindo o rego de sangue em dois braços. Era como
se estivesse sendo assaltado por espectros bruscos de sua mãe, que se movia
angustiada na cama ao lado. Arre! Sinto-me
como um homem sentado num banquinho de três pernas no fundo de um poço muito
escuro e silencioso - murmura de si para si, cada vez mais atormentado.
Parecia cansado,
e suas mãos tremiam. Mesmo assim, ele caminha até a janela e, de novo, abre a
vidraça e olha para o céu aflito, enquanto suas mãos percorriam inquietas a sua
blusa de pijama e o seu pescoço, como se fossem duas aranhas gigantes.
Nenhuma aeronave
passava naquele momento. Após um suspiro doído e o olhar pregado no infinito, murmura:
- Onde estás, ó Deus, que não respondes? Ó, Castro, roça-me a testa o hálito
da morte! Sinto vontade de dar um salto e sair, de fazer alguma coisa para me
distrair, mas algo estranho me prende nesse quarto. Não, não quero. Não quero
que isso me aconteça na companhia de meu sobrinho. Arre! Mas não posso impedir.
Não posso...
Depois de um
movimento de ombros violento para se livrar de tantas vozes interiores que o
perturbavam, o Cientista caminha até a escrivaninha, senta-se e puxa para si o
bloco de papel – tivera uma visão apenas, o papel branco continuava na mesa, ao
lado da caneta e do tinteiro. Certo de que não poderia viver em paz nunca mais, Alberto pega a caneta, olha em torno de si os
móveis e começa a escrever algumas palavras que justificassem o autoextermínio.
Ao terminar a mensagem, levanta-se, abre
a porta do armário e tira de lá duas gravatas de seda, uma vermelha e outra
branca. Passeia com elas nas mãos pelo quarto por alguns minutos, como se meditasse
um pouco mais antes da extrema decisão.
Depois, entra no banheiro e enlaça no
pescoço uma gravata sobre a outra. Sem mais o que pensar, sobe na borda da
banheira esmaltada, amarra as pontas das tiras de pano no cano do chuveiro,
tranca o olhar e, sem mesmo um gesto de arrependimento, salta no espaço vazio,
entregando-se ao silencioso ritual da morte.
Morre Alberto Santos-Dumont. Aos 59 anos o corpo despediu-se dele e ele despediu-se do corpo,
cumprindo um destino cheio de altos e baixos. O ato, para a história, consagrava o último instante de
uma celebridade desiludida com o país, e com a própria existência há anos
envolvida pela tragédia
neurastênica, como também pelo vírus fulminante da depressão.
Pouco tempo depois, o camareiro
Adelino encontra o corpo do inventor sem vida. E, assim que a notícia da morte
de Alberto Santos-Dumont espalhou-se, mensagens de pesar foram editadas nas
principais estações de rádio do Brasil e do mundo.
A Rádio Nacional foi a primeira
estação a ler no ar o bilhete com as últimas palavras do cientista brasileiro,
escrito poucas horas antes de seu falecimento: Foi - posso dizê-lo hoje - uma prova um tanto dolorosa para mim
assistir, após os meus trabalhos sobre os dirigíveis e o mais pesado do que o
ar, a ingratidão daqueles que me cobriam de louvores alguns anos antes. Eu
inventei a desgraça do mundo. E completa: ... Busco na morte a reparação de
uma culpa. Tudo acabado, agora. Guarujá, 23 de julho de 1932,
Na tarde do mesmo dia,
um jornal paulista saiu com uma manchete louvando o Pai da Aviação:
MORREU
SANTOS-DUMONT.
O CIENTITAS QUE
DEU ASAS AO HOMEM.
A extenuação de Alberto Santos-Dumont marcou o início de
tréguas entre o presidente Getúlio Vargas e os revolucionários paulistas.
Politicamente, o Governo Paulista tentou explorar o fato anunciando que Alberto
Santos-Dumont havia posto fim em sua vida ao ver que as Forças Armadas
Brasileiras usavam o avião como arma de guerra.
Getúlio contestou
e proibiu que, no atestado de óbito, constasse a palavra suicídio como causa mortis - a verdadeira certidão de óbito do inventor
permaneceu guardada pelo serviço secreto de inteligência do governo federal por
mais de 23 anos. Acreditavam os líderes do poder que não ficava bem na história
nacional um herói suicida.
Por outro lado, o general Góes Monteiro, comandante das
tropas federais, dirigia-se ao povo de São Paulo afirmando que... Em homenagem à memória do imortal pioneiro
da aviação, as unidades aéreas do Destacamento do Exército Leste deixarão de
bombardear hoje as posições militares inimigas.
Ao decretar luto oficial por três
dias pela morte do cientista, o presidente Getúlio Vargas pronuncia:
- O brasileiro Alberto Santos-Dumont, inventor da direção dos balões e do
voo mecânico, dotou a Humanidade de novos engenhos para o seu desenvolvimento,
estreitou os laços entre as nações e cooperou para a paz e solidariedade entre
os povos, tornando-se, assim, merecedor da gratidão do Brasil, cujo nome honrou
e glorificou.
O corpo do Pai da Aviação
foi embalsamado pelo médico Walter Harberfeld, que retirou e conservou o
coração do gênio até 24 de outubro de 1944, quando fez a doação do órgão ao
Ministério da Aeronáutica. Colocado numa escultura de jade e protegido por uma
esfera de ouro, o órgão continua até hoje exposto no Museu Aeroespacial do Rio
de Janeiro, como testemunha de um passado que representou muito orgulho e história
para o Brasil.
Em 21 de dezembro de 1932 os restos mortais do cientista
brasileiro foram transladados para o Cemitério São João Batista, no Rio de
Janeiro, então Capital Federal, onde jaziam os corpos de seus pais - cerimônia
feita com honras de Ministro de Estado. Curiosamente, no instante em que
Santos-Dumont era inumado, um forte temporal caiu na região, como se o céu,
vertesse lágrimas pela morte daquele que fez de sua vida um explorador do
espaço celestial. Mais tarde, no centenário de nossa Independência, foi colocada
sobre o túmulo uma estátua de Ícaro, réplica do monumento em Saint-Cloud, doada
ao Brasil pelo governo francês.
Entre centenas de homenagens pós-mortis prestadas a Alberto Santos-Dumont, no Brasil e no
exterior, a Casa da Moeda cunhou moedas metálicas do valor de 5.000 réis com o
perfil de Santos-Dumont no anverso e, no reverso, uma asa aberta.
Em 2006, nas comemorações do Centenário
da Aviação, o Brasil mandou ao espaço o astronauta Marco César Pontes que, da
estação em órbita, apresentou para o mundo os selos e as medalhas comemorativos
da Missão Centenária do 14-Bis, produzidos pela Empresa Brasileira de Correios
e Telégrafos e pela Casa da Moeda do Brasil.
Como o mineiro Carlos Drummond emendou a
gramática para se despedir de Cacilda Becker, faço o mesmo com Alberto
Santos-Dumont: como patriarca bíblico da ciência aeronáutica, ele foi ‘muitos’
a favor do desenvolvimento científico no século XX, em todos os sentidos.
Alberto Santos-Dumont ganhou diversos prêmios, recebeu muitas
homenagens de governos do mundo todo, atenção especial da imprensa por seu
trabalho com a aeronáutica. Mas, rico e famoso, esse modesto gênio permaneceu
até o fim um homem simples, alheio às sedução da celebridade.
E, como acontece em todas as sagas heroicas,
o fim do herói costuma ser trágico.