21.9.08

* 09/IX - ALBERTO RETOMA O INTERESSE PELOS BALÕES

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Navegando em Balão - Torres




                  
Mergulhada na euforia dos avanços tecnológicos e culturais do fim
do Século XIX, a Cidade Luz vivia intensa efervescência cultural. Motivado pelos
acontecimentos, Alberto Santos-Dumont passa a frequentar os lugares onde reuniam
as personalidades do mundo artístico, intelectual e científico, principalmente,
os café que eram o centro da vida social em Paris, o que abria caminho para discutir
os ideais futuristas de um jovem sonhador, vindo do outro lado do Atlântico.
Lugares como La Rotonde e o Dome, eram os fóruns onde a vanguarda do mundo intelectual
ia trocar ideias, onde Modigliani vendia seus desenhos para comer e beber.

 

 

 

 

         Alberto, cheio de entusiasmo, revela suas novas pretensões ao professor Garcia:

- Voltei a me interessar pelos balões, professor.
- Então quer mesmo voar?
- Oui.
- Espero que dessa vez dê certo.
- Nada vai me impedir agora. No Brasil, lastimei amargamente não ter insistido no meu projeto de ascensão. Longe de todas as possibilidades, as excessivas pretensões dos aeronautas, pareciam-me de pequena monta. Animei-me. Pensei comigo que não enganaria mais meus verdadeiros anseios. Voaria, custasse o que custasse. Enfim, pagarei o que for preciso por esses devaneios.
- Ótimo.
- É a minha inclinação.
O professor em tom de aviso:
- Olha aqui: o esporte tem seus riscos. Vez ou outra um balonista sofre acidente.
- Mesmo assim, arrisco.
         - Pretende procurar o pessoal do Aeroclube?
- Não. Minha dignidade não vendo, não troco, nem negócio.
- Está certo.
- Muito bem, com a ferida curada, agora eu vou atrás dos balonista Hilaire Lachambre e Machuron, autores do livro Andrée – Au Pôle Nord en Ballon. Conhece?
- Ah, sim.
Santos-Dumont dá um passo à frente e põe um exemplar do livro nas mãos do professor.
- Para o senhor.
- Merci. Pelo jeito gostou do que leu?
- Muito. O estímulo que precisava. Sem dúvida, esse livro impulsionou a minha definitiva adesão ao balonismo.
- Então está mesmo decidido?
- Sim. Amanhã mesmo procuro pelos irmãos balonistas.
- Você é mesmo um dínamo!
- Nasci para isso.
- Vou rezar para seu sucesso. Como também pedir ao seu anjo da guarda para redobrar a atenção com você.
Risos. Alberto:
- Amém.
- No que precisar de mim pode contar, viu?
- Obrigado. Vou nessa, professor. Tiau.
- Agradeço o livro. Vá com Deus.
No dia seguinte Santos-Dumont procura a Oficina Lachambre e se apresenta a um dos irmãos:
- Muito prazer, sou Alberto Santos-Dumont.
- Em que podemos ser útil, rapaz.
- Quero voar.
- De balão?
- Claro.
Machuron sorridente:
- Então quer sair por aí ao sabor dos ventos?
- Sim, monsieur.
- Acha tão simples assim?
Dumont esfrega as mãos:
- Sei que não é.
- Pois bem, se quer voar, está no lugar certo. Vamos conversar lá dentro?
- Prefiro aqui, ao som da bigorna – brinca o rapaz.
- Você é francês?
- Não. Sou brasileiro, neto de francês.
- Brasil! Ah, Brasil! Na sua terra sobe balão tripulado?
- Nunca vi nem tive conhecimento.
- Pois bem, então vamos ao que interessa. Temos ali um balão muito seguro para passageiros estreantes – aponta o balonista.
- Maravilha. Quanto vai custar uma ascensão?
Machuron conta nos dedos, concentrado na conta:
- Duzentos e cinquenta.
- Duzentos e cinquenta francos!
- Isso mesmo. Tudo incluído... Até o transporte de volta do balão em caminho de ferro.
- E as avarias?
- Não se preocupe. Caso ocorra, serão cobertas pela nossa empresa.
- E a segurança pessoal?
- Ai, é um risco que corremos.
- Sem dúvida.
- Ora, rapaz, não pense que vamos expor ao perigo uma vida humana. Antes, checamos tudo..., tin-tim por tin-tim. Mas, fique tranquilo porque nunca tivemos um acidente – garante o piloto.
- E quem sobe comigo?
- Eu.
Pausa. Alberto:
- Combinado. Pago agora ou depois do voo?
- Metade agora e o resto ao aterrarmos.
- Fechado.
- Muito bem, rapaz. Muito bem. Quando quer voar?
- O quanto antes.
- Amanhã de manhã, pode ser?
- Ó, claro. Claro. Então vamos torcer para que o dia esteja ensolarado.
- Vai estar, posso garantir.
Risos. Alberto Santos-Dumont paga a quantia combinada e deixa a oficina com o coração batendo a mil. Antes de ir para seu apartamento, volta à casa do Professor Garcia, Encosta a moto no muro do jardim e entra todo sorridente.
- Você por aqui a essa hora? Pergunta o professor surpreso.
- Perdoa-me. Tinha que lhe contar em primeira mão.
- O quê?
- Sabe da maior?
O professor vira um pouco a cabeça. Suas palpebras se entreabrem e olha Alberto com os olhos vermelhos de sono. Mas, sorri-lhe.
- Pois, fala.
- Contratei meu primeiro voo para amanhã.
- Amanhã?!
- Acertei com os irmãos balonistas.
- Lachambre e Machuron?
- Sim.
- Muito bem.
- A vida é muito curta para a gente passar os dias complicando as coisas, portanto desenrolei logo.
- Se isso é o quer, assistirei sua ascensão. Posso?
- Claro. Vai ser muito bom ter meu preceptor por perto. Pego o senhor por volta das sete horas da manhã. Pode ser?
- Combinado.
- Tiau.
            - Até amanhã, rapaz. Prenez soin de vou.
            - Pode deixar. Eu me cuido.
            Radiante, Alberto se despede do professor Garcia. Passa no Café Maxim’s, toma uma taça de vinho para relaxar e segue para seus aposentos cantarolando uma polca francesa.

 

 

 

* FBN© - 2013 – A retomada do Interesse pelos Balões – Cap. 09 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/retomada-do-interesse-pelos-bales.html

 

 

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