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Réplica do Baladeuse de Santos-Dumont no programa de TV
- Voar como um passarinho é a realização de um sonho de menino.
Ir e vir com autonomia no céu parisiense é muito bom! Quando estou lá em cima, confesso, meu ego infla ao ver a admiração e o espanto de uma multidão entusiasmada. É a prova de que meus estudos e projetos estão corretos - Alberto Santos-Dumont
Com o Balladeuse, Santos-Dumont flutuava
serenamente entre o céu e o chão de Paris todos os dias, cometendo ousadias
incríveis no ar. Tanto que seu novo balão passou a ser meio de transporte para
ir de um lado a outro da cidade a serviço de sua oficina ou visitando amigos.
Bem desenhada, a aeronave era admirada
por todos como um curioso objeto de arte da ciência em movimento no céu, algo
diferente de tudo. Certa vez disse aos jornalistas, justificando:
- Eu quis por lá em cima os sonhos e as criações de um brasileiro, louco e
obcecado pelo voo de uma aeronave que fosse também um meio de transporte.
Numa terça-feira ensolarada do dia 23 de
junho de 1903, para a surpresa de quem passava pela Avenida Campos Elíseos, que
assistiu o pioneiro com um ‘que’ a mais, a sobrevoar as ruas de Paris em busca
de melhor sentido da vida. Na altura da Rua Washington, Santos-Dumont aterrou
seu SD-9 na porta do prédio onde morava, deixou a aeronave estacionada e entrou
em casa para tomar um café. Ao voltar, explicou aos jornalistas e curiosos que
se acumulavam em torno do seu balão:
- Olá, gente. Não estou fazendo nada demais. Dirigi respeitando o meio urbano com
suas regras de transito. Vim pela mão certa, fiz o balão contornar o Arco de
Triunfo e estacionei na Rua Washington, onde moro. Esse é o roteiro que, no
dia a dia, eu fazia à pé ou de coche de aluguel. Agora, com nova autonomia para
voar, posso cumprir esse destino pelo espaço aéreo desde que o céu esteja
claro. Tanto é assim que da abertura
arredondada da minha janela olhava, em baixo, a aeronave. Se a cidade me
permitisse num instante eu faria construir no prolongamento dessa janela uma
plataforma ornamental para as minhas decidas, logicamente, que respeitando
as regras de convivência urbana. Isso muda o jogo, não seria ótimo?
E completa com um largo sorriso no
rosto:
- Então esse balão será o seu novo veículo de transporte urbano? – pergunta um
jornalista.
- O que você acha disso?
- No mínimo, interessante.
- Versátil como é posso considerar que
sim. Amplia a visão geográfica de Paris de maneira formidável, tanto que dá
para bisbilhotar das nuvens o que é feito em terra. A partir de agora, pode
anotar, será mais intenso o vai-e-vem de aeronaves no espaço aéreo de Paris.
Quer dizer, será cada vez mais comum as pessoas olharem para cima e ver esses
pontinhos voando por ai, explorando o céu da Capital francesa com o propósito
de encurtar a distância entre a casa de cada um e o mundo – afiança o piloto
com a crença de quem conseguia tornar viáveis e eficientes as ideias
mirabolantes da navegação em balões.
- Podemos dizer que o senhor acaba de realizar um sonho até então impensado,
pousar um balão em pleno centro de uma metrópole como Paris? – quis saber outro
Jornalista.
Seu criador,
sabe, no fim do século XIV,
- Ah, sim. Parece até mágica, mas é o
avanço da tecnologia. Por enquanto é praticamente inviável o projeto a ser
aplicado, mas, abusar da criatividade, faz com que a concepção de futuro dos
centros urbanos sejam otimistas. Breve, muito breve, aeroplanos vão transportar
passageiros pelos céus do planeta como se fosse um bonde suspenso no ar.
- Isso é um sonho mais do que impossível,
mestre! – retruca o outro.
- Quem viver, verá. Planejo tudo para
que isso venha acontecer um dia: tornar perto o que é longe. Muito bem...,
agora, posso dizer que além de uma aeronave de corrida possuo outra de passeio:
esse lindo balãozinho que vocês estão tocando com as mãos. Muito bom! Com seu
voo suave e silencioso, divirto-me flanando sobre essa velha e misteriosa urbe.
Agora, sim, podem me chamar de um sportman
da Aerostação.
- Flanando! Flanando! - exclama uma pessoa do povo, encantada.
- Flanando – repete o cientista. Com o Balladeuse eu posso
avançar no espaço sem direção certa, voando ociosamente, perambulando. Como
dizia Balzac: ir por aí, de manhã, de
tarde, de noite..., e lá de cima observar o ajuntamento das pessoas nas
ruas, nas praças, nas sacadas.
- Tão fascinante assim? - apressa o repórter ao seu lado.
- Nesses momentos, também exercito o gostoso esporte de não
fazer nada, apenas olhando a vida que passa lá embaixo. Não é bom?
No dia seguinte, L’Figaró saiu com a seguinte manchete:
L’SANTÔ ESBANJA TALENTO PARA USAR E ABUSAR DA NAVEGAÇÃO AÉREA
O Balladeuse atraia a atenção de todos em Paris, principalmente
da juventude. Tanto que, seduzido pela beleza e pela simpatia da jovem cubana
Aída da Costa, Santos-Dumont permitiu que ela pilotasse o SD-9 num passeio
pelos céus de Paris, tornando-se a primeira mulher do mundo a dirigir um balão,
que ao posar ela revelou à imprensa:
- Nada mais emocionante! Irrecusável!
Um momento inesquecível para a história do avanço comportamental da mulher.
Posso jurar que sim. Quero voar sempre de balão.
- Não acha deselegante uma demoiselle sair pelos ares numa atitude
puramente masculina? – pergunta um jornalista com certa formalidade.
- Uuuuuu, nem tão séria assim! Claro que não, muito menos vai
afetar meus dotes femininos, mesmo numa metrópole moderníssima como Paris,
ainda que exagerada nas contingências preconceituosas. Apenas, provei que uma
mulher pode dirigir um balão como qualquer homem. E bem, sem meio termo e com
um toque de classe. Nada de errado, monsieur.
Depois de um suspiro prolongado. Aída:
- Meu Deus, o senhor acaba de me mostrar
que, para as feministas de hoje na França, a areia é ainda movediça. Por isso
mesmo que se agarrar à amizade de um homem vanguardista como Santos-Dumont,
pode ser uma boia de salvação para vivermos muito mais coisas ao mesmo tempo, cierto?
Risos. Alberto, emocionado ao seu
lado:
- Voar em um Balão é para todos, independentemente, de gênero. A adrenalina
sobe. Aída comprovou isso ao desfilar pelo céu, com toda graça e habilidade
feminina. Sinto-me envaidecido. Parabéns, menina de sangue bom.
Mais tarde, com o objetivo de dar maior brilho às comemorações ao dia da Queda
da Bastilha e aumentar o orgulho nacional, em 14 de julho de 1903,
Santos-Dumont aceitou o convite do Exército Francês para sobrevoar, ao leme do
Balladeuse, a parada militar no Hipódromo de Longchamps, onde milhares de pessoas assistiam o desfile de soldados
marchando ao lado de canhões em carretinhas puxadas por tração animal. Ao fim
da solenidade, lá do alto, o aviador
felicitou o presidente da França, Émile Loubet, com uma salva de 21 tiros de
festins, para marcar esse momento de lembrar a história e homenagear os heróis
da revolução francesa.
A desenvoltura do SD-9 desperta no Exército Francês a ideia de utilizar modelos
do aparelho em campanhas militares. A proposta foi, amplamente, discutida com o
ministro da guerra Général André, seus oficiais e Alberto Santos-Dumont. Após
assinar o acordo com o Ministério da Guerra, o cientista declarou:
- Pus à disposição do Governo da
República, em caso de hostilidade com um país qualquer que não fosse das duas
Américas, a minha flotilha aérea. Assim agindo, eu não fazia mais que dar uma
fórmula escrita ao que eu considerava um dever, se as circunstâncias previstas
pela minha carta dirigida ao Ministro da Guerra se produzissem durante minha
estada na França. Foi na França que encontrei todos os encorajamentos; foi na
França, e com material francês, que realizei todas as minhas experiências, e a
maior parte dos meus amigos são franceses. Excetuei as duas Américas, porque
sou americano. Ajuntei que, no caso impossível, duma guerra entre a França e o
Brasil, eu me julgava obrigado a oferecer os meus serviços ao país que me viu
nascer e do qual sou cidadão.
No ano de 1904, no dia 18 outubro, Santos-Dumont apresenta o
SD-10, um dirigível-ônibus com 48 metros de comprimento e 8.5 de diâmetro,
impulsionado por um motor Clemente Bayard de 4 cilindros, 46 hp e capacidade
para transportar até dez passageiros em nacelas individuais.
Em 1905 projeta os balões: SD-11, um monoplano bimotor; o SD-12,
um helicóptero com duas hélices de sustentação; o SD-13, uma aeronave com dois
balões destinada a longas viagens e o SD-14, equipado com um motor Peugeot de
dois cilindros com 14 hp.
A partir daí, sabendo-se que boa parte do êxito de Santos-Dumont
residia em sua infinita criatividade, começa a trabalhar na construção de um
aparelho mais pesado do que o ar.
* FBN©
- 2013 – Balladeuse. Voar, voar, subir, subir. –
Cap. 22 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada –
Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto
original em português - IIustr.: Imagens da Internet - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/balladeuse-voar-voar-subir-subir.html
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