Em 21 de março de 1907, Santos-Dumont
lança SD-15, biplano do tipo celular, considerado um grande avanço tecnológico,
mas não o suficiente para garantir voos de alcance maior. Em seguida constrói
as aeronaves SD-16 e SD-17, porém sem os resultados esperados pelo inventor.
No dia 04 de abril de 1907, o 14-Bis
sofre um acidente em Saint Cyr e perde parte das asas. Diante do fato, em vez
de consertar as avarias do aparelho danificado, Santos-Dumont acelera a
construção do seu novo projeto, o hidroplano SD-18, que apresentou resultados
positivos ao criar um espaço maior para provar que o universo da aeronáutica é
uma coisa em expansão contínua.
Meses depois, Santos-Dumont, atinge o auge da
prosperidade técnica ao apresentar a primeira versão do SD-19, uma aeronave de
linhas arrojadas que permitia realizar um voo de até dezoito quilômetros.
O novo modelo, considerado a
evolução da evolução, foi estruturado em bambu com juntas de alumínio, hélice
de madeira no nariz, lemes de direção de profundidade na cauda e o eixo das
rodas no vértice inferior frontal do triângulo estrutural da fuselagem. E mais:
motor de cilindros horizontais opostos que ele mesmo criou, instalado na frente
da aeronave permitindo ao piloto viajar sentado. Medidas: 5,10 metros de
envergadura e oito de comprimento. Peso: 110 quilos. Revestimento: seda japonesa.
Com o novo aeroplano, batizado de Demoiselle pela amiga Cristina Prado, em desafio à
sua própria imaginação, Santos-Dumont fez inúmeras viagens em território
francês. Em janeiro de 1909, para coroar sua glória, foi agraciado pelo
Aeroclube da França com brevê número
01 da instituição.
Em 14 de setembro de 1909 bateu novo
recorde ao decolar numa pista de apenas 70 metros e realizar o
primeiro raid da aviação que se tem
notícia no mundo, indo de Saint-Cyr ao Castelo de Wideville, numa altitude de 30 a 40 metros, em sete
minutos e três segundos, provando mais uma vez que, se os pássaros foram feitos
para voar com grande habilidade, o homem também.
Ao receber o prêmio, assegura:
- Posso dizer que, a partir de
agora, será impensável a vida moderna sem a aviação. Um salto para um novo modo de vida, conforme afirmam teóricos da
civilização tecnológica, atentos às mudanças de comportamento em curso. O
Demoiselle vem demonstrando um excelente desempenho, tanto que nos leva a afirmar que qualquer cidadão poderá ter um avião
para uso próprio. Portanto, podemos festejar, não só o incalculável
serviço que o avião vai prestar à Humanidade, mas também a nova indústria que
empregará e beneficiará milhares de pessoas ao redor do mundo.
Em resposta a uma
pergunta de um repórter sobre a participação do piloto em novos raids:
- Minha preocupação na vida não é
ultrapassar os outros. Mas, sim, ultrapassar e mim mesmo, quebrar meus próprios
recordes, superar o dia de ontem, através do dia de hoje. Esse é aprendizado que
não deixo acabar nunca, pode crer.
- Depois de tanto sucesso no ar,
falta alguma coisa para o senhor se realizar?
- Não há
limites para a imaginação humana, rapaz. A cada dia, eu olho para o meu
trabalho e falo para mim mesmo: o próximo vai ser melhor, porque o sonho de todo
inventor é ver sua invenção melhorando a vida das pessoas cada vez mais.
- Não acha que, do jeito que tecnologia avança um dia a máquina pode
superar o homem?
- Nunca. Por mais perfeita que
seja um aparelho, quem vai comandar seu desempenho será sempre o homem, a
máquina mais perfeita que existe.
- O
avião daqui para frente será mais frequente nos céus de Paris?
- Não só de Paris, mas do mundo. Não
vão faltar aviões para serem tripulados em pleno voo, ou admirados por aqueles
que viajam nas asas da imaginação, sem tirar os pés do chão.
- Parabéns.
Durante a Primeira Exposição de Aeronáutica Mundial,
realizada no Grande Palácio Parisiense (Grand Palais), de 23 a 30 de dezembro de 1908,
com a pompa e as circunstâncias que mereciam a ocasião, o Demoiselle, foi
exposto no alto do canto superior direito do salão, arrebatando o primeiro
olhar de todos que visitavam o evento. Era a consagração de uma máquina que
exigiu muito planejamento, técnica e sabedoria para ser criada e colocada à disposição
da Humanidade.
Suspenso ali, imponente e admirado, o SD-19 permaneceu
até o fim da mostra como a máquina mais cobiçada do planeta, produzida para
reescrever a história da aerostação. No solo, vários outros modelos expostos,
como dos inventores: Farman, Blériot, Wright, Delagrange e Esnault-Pelterie,
entre outros. Hoje, o aparelho integra o acervo do Musée de L’Air et de L’Espace,
em Paris.
Durante a feira, perguntado por um
repórter norte-americano sobre o direito de copiar versão Demoiselle, Santos-Dumont
afiançou:
-
Se queres prestar-me um grande obséquio, declare pelo seu jornal que, desejoso
de propagar a locomoção aérea, eu ponho à disposição do público as patentes de
invenção do meu aeroplano. Toda gente tem o direito de construí-lo, e, para
isto, pode vir pedir-me os planos. O aparelho não custa caro – enfatiza - mesmo
com o motor não chega a 5.000 francos.
Como sempre, no crepúsculo de uma mostra dessa magnitude,
todos os olhos se voltam para a próxima aurora: quem serão os inventores convidados
em 1909? E o homenageado?
Mais tarde, em 1910, o Projeto
Demoiselle foi publicado na íntegra em edição especial da revista
norte-americana Popular Mechanics.
Para especialistas, o novo aparelho
representou um maciço de inteligência, indispensável à observação de todos os
interessados na mecânica aeronáutica. Tanto que o inventor e aviador francês
Louis Blériot, confessou ao projetista brasileiro: je n’ai fait que vous suivre et vous imiter. Votre nom pour les
aviateurs est un drapeu. Vous êtes notre chef de file. Isto é: não faço
mais do que segui-lo e imitá-lo. Seu nome para os aviadores é uma bandeira.
Você é nosso líder.
Em julho de 1910, cerca de 200 modelos
participaram da Semana da Aviação na cidade francesa de Rouen, afiançando ao
SD-20 o título do primeiro avião produzido em série no mundo. Por isso, ao
captar o ritmo cinematográfico de nosso tempo, o Demoiselle preparava o futuro
com a intensidade mais criativa possível, tornando-se o objeto utilitário mais
cobiçado da época, levando muita gente planar na atmosfera, onde encontrava
tudo que necessitava até para o exercício de um esporte radical, a natureza lá
embaixo e adrenalina em dobro no céu.
Entre os principais fabricantes desse modelo
figuravam as oficinas de Clement Bayard, de L. Dutheil & Chalmers, dos
irmãos Boeing e do inventor Fokker que, depois de algumas modificações no
modelo original, patenteou a nova versão como se fosse criação própria,
ganancioso das possibilidades abertas para levar o setor de fabricação de
aeronave como excelente investimento financeiro.
Santos-Dumont não contestou. Para o
gênio mais glorificado da arte de construir aparelhos para voar, parecia ter
sido apenas lógico ver a sua obra sendo multiplicada com sucesso pelo planeta.
- O futuro é coletivo - pensava o
cientista.