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SD-6. O monstro voador corta bufando o céu da velha cidade de Paris.
Voa sobre o Hipódromo de Longchamps, contorna a Torre Eiffel, cruza a linha de chegada em Saint-Cloud e toca o solo serenamente entre os gritos entusiasmados da multidão que assistia o espetáculo.
Para, novamente, participar do Prêmio Deutsche,
Santos-Dumont constrói o SD-6 e usa, pela primeira vez, tubos de alumínio. No
lugar da barquinha, uma quilha de 14 metros sustentando o motor Buchet 4 C, de
20hp, além da hélice de duas pás com quatro metros de envergadura e um sistema
de comando remodelado.
Na data marcada para a prova em Saint-Cloud, 19 de
outubro de 190l, o dia amanhece frio e revestido por uma mancha cinzenta, ocultando
boa parte de Paris, além de ventoso. Tão desfavorável que, até duas horas da
tarde, hora fixada para a largada, dos 20 membros da comissão de juízes apenas
cinco estavam presentes: Deutsche de la Meurthe, de Aion, de Fonvielle,
Besançon e Aimé.
Passados 30
minutos da hora prevista para o início da prova, mesmo com o céu ainda nublado,
Alberto Santos-Dumont decide levantar voo com seu balão. Exatamente, às 14
horas e 42 minutos o piloto aciona o motor do SD-6, surpreendendo a expectativa
de dezenas de pessoas presentes no local.
Ao sinal de partida, imediato Santos-Dumont decola, ganha
altura e voa 12 minutos numa confortável trajetória linear. Mas, ao se
aproximar da Torre Eiffel, o vento muda de direção e começa a soprar cada vez
mais forte, ameaçando jogar sua aeronave contra o monumento de ferro. Diante do
perigo, o piloto foi obrigado a praticar manobras bruscas e arriscadas para
recolocar o aeróstato na linha de retorno.
No solo, euforia total. Muita gente para não perder um só
lance da aeronave no ar, como numa procissão, seguia a pé, a cavalo, de
bicicleta ou de mototriciclo o trajeto do SD-6. Pessoas de todas as idades
acenavam com lenços nas mãos, chapéus e bengalas, bradando:
- Salve Petit Santô!.... Viva Petit Santô!... Viva!...
O brasileiro, lá do alto, assistia tudo com emoção. Para
retribuir o carinho dos parisienses, ele passou a agitar duas bandeirolas,
estampadas com as cores da França e do Brasil.
Logo o SD-6 atinge o ponto de chegada numa altura de 150
metros do chão. Faz a curva e pousa no exato lugar de onde partiu às 15 horas,
11 minutos e 30 segundos. Antes de descer do balão, Santos-Dumont olha
satisfeito para a grande multidão e percebe em cada rosto sorrisos de simpatia
e sinais de aprovação. Emocionando, levanta
o punho da mão direita, ciente de que os europeus faziam esse gesto nos
momentos de euforia coletiva, e saúda a multidão que, aos gritos, fazia de tudo
para se aproximar do piloto.
- Salve Petit Santô!...
Enquanto isso, na comissão julgadora, dois juízes pediam
a desclassificação de Alberto Santos-Dumont. Um por entender que ele cruzou a
linha de chegada 30 segundos a menos. Outro, querendo computar o final da prova
quando o balão aterrissou, às 15 horas, 12 minutos e 40 segundos, isto é, 40
segundos além do tempo regulamentar. Impasse decidido no voto, por sugestão do
príncipe Roland Bonaparte, que logo aclamou Alberto Santos-Dumont como ganhador
do Prêmio Deutsche.
Sensibilizado, o inventor sobe na robusta mesa
em torno da qual reuniam os jurados, passeia o olhar pela multidão, eleva
os dois braços em sinal de vitória e agradece em voz alta:
-
Viva os novos tempos!... Viva a França!... Meu coração agradece a essa nação
que tanto amo e me acolheu como filho. Pela França me comprometo trabalhar para
colocar a humanidade em uma nova, surpreendente e promissora era. A era da
navegação aérea. Por tanto e por tudo, dedico essa vitória ao povo francês, com
quem mantenho estreita relação de carinho e confiança. Não estou aqui competindo
apenas por competir, porque vencer obstáculos sempre fez parte da minha
filosofia de vida, estou aqui para garantir o desenvolvimento social no
planeta.
A resposta da multidão veio no mesmo instante:
- Viva a França!... Viva Petit Santô!...
Uma semana depois, o galardão do Prêmio Deutsch foi
entregue ao piloto na sede do Aeroclube da França ao som dos hinos da França e
do Brasil.
Emocionado o brasileiro volta a agradecer:
- Haja coração!... Muito me honra receber esse prêmio,
nada mais incentivador às minhas pesquisas aeronáuticas.
E virando-se para o engenheiro Gustave Eiffel, ao seu
lado:
- Mais ainda me custou contornar a Torre Eiffel, um dos
colossos nacionais. que, todavia, era tento de realização imprevisível, e sem
precedentes em dias de competição. A satisfação foi indescritível quando me vi
emparelhado ao topo desse monumental projeto, um dos símbolos mais conhecidos
do universo, que domina Paris durante o dia. À noite, ilumina a Capital do
Mundo.
O engenheiro Gustave Eiffel, entusiasmado com o avanço da
tecnologia da aeronavegação, saúda em Santos-Dumont um novo gigante da
aerostação.
- Fantástico!... Fantástico!... Não há mais dúvidas: o
ser humano ergue-se do chão, sustenta-se no ar e comanda seus movimentos em
todos os sentidos, em todas as direções. Bravo!... Agora, podemos dizer com
todas as palavras: o homem não tem asas, mas pode voar. Acho que foi Deus que
enviou a Paris esse homem para pavimentar a mais ambiciosa via de navegação de
todos os tempos, a aérea. Hoje é um dia muito especial, porque podemos dizer
que, no mundo da tecnologia, alcançamos o futuro. Parabéns, amigo! Parabéns!
Viva a França!
Gustave faz uma pequena pausa e continua:
- Sinto-me duplamente grato pelas palavras do amigo
Alberto Santos-Dumont, estimável parceiro de sonhos. Primeiro porque minha
monumental obra foi o marco estabelecido para a grande prova do Prêmio Deutsche.
Segundo, porque esse brasileiro, com sangue de francês, propelido pelo destino
veio a Paris e aceitou o desafio de tornar possível dirigir com segurança um
voo de balão, revolucionando a analogia do homem com a máquina. Com seu balão,
emparelhou-se e contornou o extremo de nossa torre da forma mais ambiciosa
possível: Voando!... V o a n d o ! . . . Tudo simétrico, perfeito como um
relógio. Fabuloso! Durante muito tempo os céticos afirmavam que era um sonho
equivalente a tornar realidade os devaneios do escritor Júlio Verne de o homem
chegar à lua. A aposta de Santos-Dumont começa a ganhar contorno de realidade.
Estamos entrando em uma nova era, sinalizando que o futuro não é mais o que
era. Tai um real motivo para seu SD-6 entrar para a história dos grandes
inventos da humanidade.
Ao receber os 129 mil francos do prêmio,
com coração em descompasso e a emoção escapulindo pelos poros, o inventor dá um
destino surpreendente ao dinheiro, declarando:
- Meu maior prêmio foi vencer o Deutsche e ter o povo para testemunhar o fato
sob o céu de Paris. Quanto à generosa recompensa de 129 mil francos, quero que
50 mil sejam distribuídos entre os funcionários de minha equipe de
trabalho. O restante, eu entrego ao
chefe de Polícia de Paris para tirar da Casa de Penhores todas as ferramentas de trabalhadores que nela se encontram
apreendidas. Se alguma coisa ainda sobrar, reparta com os necessitados que
vagam por aí arrastando seu abandono pelas ruas de nossa cidade. Fica melhor.
Assim se formou um duplo mito em torno de Santos-Dumont
na França. O do criador arrojado com a surpreendente maneira de reconstruir o
balonismo e o do homem altruísta que mostrava seu lado humano, ultrapassando o
rótulo de inventor pragmático, totalmente, desprendido dos valores materiais.
Consagrado pela conquista do Prêmio Deutsche, Alberto Santos-Dumont torna-se centro
de atenções em todo o mundo. Passa a transitar pelo meio social parisiense com
mais autoridade, sem que ninguém pudesse contestar suas atitudes e opiniões
científicas. Essa era sua meta.
O prêmio foi o coroamento de uma fase e
o princípio de outra. A que elevaria Santos-Dumont à mais estupenda gloria com
a invenção do mais pesado do que o ar.
* FBN© - 2013 – A Primeira Grande Vitória – Cap. 15 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM
SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto -
Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.:
Imagens da Internet - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/primeira-grande-vitria.html
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