21.9.08

• 15/XV - PRIMEIRA GRANDE VITÓRIA.

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SD-6. O monstro voador corta bufando o céu da velha cidade de Paris.
Voa sobre o Hipódromo de Longchamps, contorna a Torre Eiffel, cruza a linha de chegada em Saint-Cloud e toca o solo serenamente entre os gritos entusiasmados da multidão que assistia o espetáculo.
 


 
 
Para, novamente, participar do Prêmio Deutsche, Santos-Dumont constrói o SD-6 e usa, pela primeira vez, tubos de alumínio. No lugar da barquinha, uma quilha de 14 metros sustentando o motor Buchet 4 C, de 20hp, além da hélice de duas pás com quatro metros de envergadura e um sistema de comando remodelado.

Na data marcada para a prova em Saint-Cloud, 19 de outubro de 190l, o dia amanhece frio e revestido por uma mancha cinzenta, ocultando boa parte de Paris, além de ventoso. Tão desfavorável que, até duas horas da tarde, hora fixada para a largada, dos 20 membros da comissão de juízes apenas cinco estavam presentes: Deutsche de la Meurthe, de Aion, de Fonvielle, Besançon e Aimé.

Passados 30 minutos da hora prevista para o início da prova, mesmo com o céu ainda nublado, Alberto Santos-Dumont decide levantar voo com seu balão. Exatamente, às 14 horas e 42 minutos o piloto aciona o motor do SD-6, surpreendendo a expectativa de dezenas de pessoas presentes no local.

Ao sinal de partida, imediato Santos-Dumont decola, ganha altura e voa 12 minutos numa confortável trajetória linear. Mas, ao se aproximar da Torre Eiffel, o vento muda de direção e começa a soprar cada vez mais forte, ameaçando jogar sua aeronave contra o monumento de ferro. Diante do perigo, o piloto foi obrigado a praticar manobras bruscas e arriscadas para recolocar o aeróstato na linha de retorno.

No solo, euforia total. Muita gente para não perder um só lance da aeronave no ar, como numa procissão, seguia a pé, a cavalo, de bicicleta ou de mototriciclo o trajeto do SD-6. Pessoas de todas as idades acenavam com lenços nas mãos, chapéus e bengalas, bradando:

- Salve Petit Santô!.... Viva Petit Santô!... Viva!...

O brasileiro, lá do alto, assistia tudo com emoção. Para retribuir o carinho dos parisienses, ele passou a agitar duas bandeirolas, estampadas com as cores da França e do Brasil.

Logo o SD-6 atinge o ponto de chegada numa altura de 150 metros do chão. Faz a curva e pousa no exato lugar de onde partiu às 15 horas, 11 minutos e 30 segundos. Antes de descer do balão, Santos-Dumont olha satisfeito para a grande multidão e percebe em cada rosto sorrisos de simpatia e sinais de aprovação.  Emocionando, levanta o punho da mão direita, ciente de que os europeus faziam esse gesto nos momentos de euforia coletiva, e saúda a multidão que, aos gritos, fazia de tudo para se aproximar do piloto.

- Salve Petit Santô!...

Enquanto isso, na comissão julgadora, dois juízes pediam a desclassificação de Alberto Santos-Dumont. Um por entender que ele cruzou a linha de chegada 30 segundos a menos. Outro, querendo computar o final da prova quando o balão aterrissou, às 15 horas, 12 minutos e 40 segundos, isto é, 40 segundos além do tempo regulamentar. Impasse decidido no voto, por sugestão do príncipe Roland Bonaparte, que logo aclamou Alberto Santos-Dumont como ganhador do Prêmio Deutsche.

               Sensibilizado, o inventor sobe na robusta mesa em torno da qual reuniam os jurados, passeia o olhar pela multidão, eleva os dois braços em sinal de vitória e agradece em voz alta:

              - Viva os novos tempos!... Viva a França!... Meu coração agradece a essa nação que tanto amo e me acolheu como filho. Pela França me comprometo trabalhar para colocar a humanidade em uma nova, surpreendente e promissora era. A era da navegação aérea. Por tanto e por tudo, dedico essa vitória ao povo francês, com quem mantenho estreita relação de carinho e confiança. Não estou aqui competindo apenas por competir, porque vencer obstáculos sempre fez parte da minha filosofia de vida, estou aqui para garantir o desenvolvimento social no planeta.

A resposta da multidão veio no mesmo instante:

- Viva a França!... Viva Petit Santô!...

Uma semana depois, o galardão do Prêmio Deutsch foi entregue ao piloto na sede do Aeroclube da França ao som dos hinos da França e do Brasil.

Emocionado o brasileiro volta a agradecer:

- Haja coração!... Muito me honra receber esse prêmio, nada mais incentivador às minhas pesquisas aeronáuticas.

E virando-se para o engenheiro Gustave Eiffel, ao seu lado:

- Mais ainda me custou contornar a Torre Eiffel, um dos colossos nacionais. que, todavia, era tento de realização imprevisível, e sem precedentes em dias de competição. A satisfação foi indescritível quando me vi emparelhado ao topo desse monumental projeto, um dos símbolos mais conhecidos do universo, que domina Paris durante o dia. À noite, ilumina a Capital do Mundo.

O engenheiro Gustave Eiffel, entusiasmado com o avanço da tecnologia da aeronavegação, saúda em Santos-Dumont um novo gigante da aerostação.

- Fantástico!... Fantástico!... Não há mais dúvidas: o ser humano ergue-se do chão, sustenta-se no ar e comanda seus movimentos em todos os sentidos, em todas as direções. Bravo!... Agora, podemos dizer com todas as palavras: o homem não tem asas, mas pode voar. Acho que foi Deus que enviou a Paris esse homem para pavimentar a mais ambiciosa via de navegação de todos os tempos, a aérea. Hoje é um dia muito especial, porque podemos dizer que, no mundo da tecnologia, alcançamos o futuro. Parabéns, amigo! Parabéns! Viva a França!

Gustave faz uma pequena pausa e continua:

            - Sinto-me duplamente grato pelas palavras do amigo Alberto Santos-Dumont, estimável parceiro de sonhos. Primeiro porque minha monumental obra foi o marco estabelecido para a grande prova do Prêmio Deutsche. Segundo, porque esse brasileiro, com sangue de francês, propelido pelo destino veio a Paris e aceitou o desafio de tornar possível dirigir com segurança um voo de balão, revolucionando a analogia do homem com a máquina. Com seu balão, emparelhou-se e contornou o extremo de nossa torre da forma mais ambiciosa possível: Voando!... V o a n d o ! . . . Tudo simétrico, perfeito como um relógio. Fabuloso! Durante muito tempo os céticos afirmavam que era um sonho equivalente a tornar realidade os devaneios do escritor Júlio Verne de o homem chegar à lua. A aposta de Santos-Dumont começa a ganhar contorno de realidade. Estamos entrando em uma nova era, sinalizando que o futuro não é mais o que era. Tai um real motivo para seu SD-6 entrar para a história dos grandes inventos da humanidade.

Ao receber os 129 mil francos do prêmio, com coração em descompasso e a emoção escapulindo pelos poros, o inventor dá um destino surpreendente ao dinheiro, declarando:

- Meu maior prêmio foi vencer o Deutsche e ter o povo para testemunhar o fato sob o céu de Paris. Quanto à generosa recompensa de 129 mil francos, quero que 50 mil sejam distribuídos entre os funcionários de minha equipe de trabalho.  O restante, eu entrego ao chefe de Polícia de Paris para tirar da Casa de Penhores todas as ferramentas de trabalhadores que nela se encontram apreendidas. Se alguma coisa ainda sobrar, reparta com os necessitados que vagam por aí arrastando seu abandono pelas ruas de nossa cidade. Fica melhor.

Assim se formou um duplo mito em torno de Santos-Dumont na França. O do criador arrojado com a surpreendente maneira de reconstruir o balonismo e o do homem altruísta que mostrava seu lado humano, ultrapassando o rótulo de inventor pragmático, totalmente, desprendido dos valores materiais.

Consagrado pela conquista do Prêmio Deutsche, Alberto Santos-Dumont torna-se centro de atenções em todo o mundo. Passa a transitar pelo meio social parisiense com mais autoridade, sem que ninguém pudesse contestar suas atitudes e opiniões científicas. Essa era sua meta.

O prêmio foi o coroamento de uma fase e o princípio de outra. A que elevaria Santos-Dumont à mais estupenda gloria com a invenção do mais pesado do que o ar.





* FBN© - 2013 – A Primeira Grande Vitória – Cap. 15 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/primeira-grande-vitria.html






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