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Santos-Dumont
O SONHO DE VOAR
Se cuidar da aparência é um luxo, uma obsessão, coisa do sexo frágil,
pode até ser que alguém, que não me conhece bem, pense desse modo. Mas não é verdade, nem sou
tão excêntrico assim. Apresento-me bem porque foi essa a educação de tive de meus pais,
desde a infância. Sou tão grato a eles que até eventuais suspeitas a respeito da minha sexualidade costumo relegar sem mágoas’ – afirmava Alberto Santos-Dumont.
Alberto Santos-Dumont balizou mudanças
importantes na sociedade mundial, não só nas ciências, mas na maneira de vestir
das pessoas daquela época, revelando a consciência de sua identidade pessoal
como também viveu, conscientemente, dentro dela. E dela tirou proveito para a
sua ascensão como cientista.
Apesar
de aparentar, tanto no ar como em terra, um jovem de atitudes frias,
calculadas, ele tinha um sorriso no rosto e uma palavra de carinho para todos
que dele se aproximavam. Dessa
forma era impossível que Santos-Dumont não bebesse das novas inquietações
estéticas em Paris.
Movido
por uma excitação inovadora, nos idos de 1901, apresentou um verdadeiro estalo
de gênio ao revelar, entre outras virtudes, a de estilista para inspirar aos
homens uma nova maneira de se vestir. Tanto foi assim, que passou a influenciar
a moda da época, invadindo o guarda-roupa masculino na França e em todo o
planeta, ao riscar a roupa mais desejada pelos homens, pratica e sofisticada.
Imitar
o brasileiro era fashion. A partir
daí, o piloto passou a imprimir sua marca nos aparelhos voadores, na decoração
de sua casa, nas suas atitudes e nas roupas que usava - todas desenhadas por
ele, cortadas e confeccionadas pelo atelier de costura de Amelie Matisse,
esposa de Henri Matisse que também figurou como modelo em inúmeras telas do
pintor, fazendo com que a sociedade burguês francesa, a do chapéu de coco, dos
cabriolés e dos bondes puxados a cavalo, aderisse aos moldes projetados por
Santos-Dumont.
De pequena estatura, mas arrojado nos
seus 1,55 de altura, realçava seu porte através de botinas de sola grossa e
salto ligeiramente elevado, fazendo o estilo que ficou conhecido como maxi
plataforma. Usava ternos de listas verticais, tipo risca de giz, camisas com
colarinho dobrado sobre si mesmo e, na cabeça, chapéu de palha ondulado e copa
alta. Em ocasiões de gala, Santos Dumont não dispensava um cinto largo sobre o
colete e, na lapela do smoking não
podia faltar um cravo vermelho. Para voar, em contraste com os outros pilotos
que viviam sujos de graxa, o brasileiro preferia trajes esportivos como os
calções ¾, boné e óculos de proteção.
Bom de desenho, Santos-Dumont não encontrou dificuldades para
criar suas roupas, introduzindo o stretch
na moda masculina, o que chamou a atenção da sociedade parisiense e do mundo.
Logo, o estilo ‘L’Santô’ tornou-se
figurino da moda. Mesmo assim, vivia dizendo que não tinha a menor vocação para
ser modelo a ser copiado e os moldes que criava era para facilitar sua vida no
ar e em terra firme.
Certa vez, ao sobrevoar o Rio Sena, o motor do seu balão começou
a pegar fogo. Sem outro recurso, Santos-Dumont abafou as pequenas labaredas com
o seu chapéu. Ao aterrar em Puteaux, com o indumento todo amassado e chamuscado
na cabeça foi retratado por vários repórteres, entre eles Robert Demachy e
Louis Vert. No dia seguinte, a imagem do piloto com o chapéu amarfanhado estava
estampada nas páginas dos principais jornais da França. Imediatamente, os
homens passaram a usar Chapéu Panamá de copa amarrotada, ponta para cima e abas
caídas para baixo.
Muitos cavalheiros também passaram a
repartir os cabelos no meio da cabeça, penteado adotado na época apenas pelas
mulheres. Isso veio confirmar a influência do piloto, não só no meio
científico, mas no fechado e aristocrático universo de normas que dominavam a
sociedade europeia no princípio do Século XX, como se uma “dumontmania” tomasse
conta do planeta.
Orgulhoso, ele assumia e explicava:
- Sou vaidoso e gosto de vestir bem. Não
quer dizer que defendo o direito ao supérfluo para atender ao jogo de
aspirações. Nada disso! Por outro lado, não concordo com o sociólogo alemão
Georg Simmel que, em um dos seus últimos artigos publicados na imprensa
parisiense, mostrou sua apreensão com a maneira como um homem imita o outro em
seus costumes. Para ele, isso é um luxo nocivo e, que o anseio pelo fausto,
pode trazer angústias e gerar violências sociais. Discordo, inteiramente. Não é
por aí. O gosto estético promove a satisfação e a estima de qualquer pessoa,
rica ou pobre. Entramos numa era moderna, dominada pela criatividade, pela
imaginação e por uma tecnologia que, muito em breve, permitirá a um operário
sonhar com uma viagem aérea, ter um carro, um telefone e um corte melhor para
suas roupas confeccionadas nas cores que desejar, até rosa shocking. Tudo que eu quero é que o consumo inteligente e
democrático seja acessível a todos.
Outro objeto do desejo implantado na
sociedade mundial por Santos-Dumont foi o relógio de pulso. Pensando em liberar
as mãos, sempre ocupadas com as inúmeras cordas e controles dos Dirigíveis,
desenhou o modelo de um relógio prático e entregou ao amigo Louis Cartier. Poucos
dias depois, o relojoeiro brindava o inventor com o primeiro exemplar do novo
relógio com o mostrador quadrado e pulseiras de couro para ser usado no punho -
aparelho industrializado com sucesso de vendas.
Alberto Santos Dumont, mais uma vez,
confirmava sua aguçada inteligência inventiva ao influenciar a maneira de
vestir no princípio do século XX. Como o sol nasce para brilhar, vestir como
ele virou febre entre os homens da época e também ficou como adereço de sua
trajetória de vida.
* FBN©
- 2013 – Um
homem genial. Tão Elegante que Virou Coqueluche Copiar seus Trajes.
– Cap. 20
de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor:
Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em
português - IIustr.: Imagens da Internet - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/um-homem-genial-to-elegante-que-virou.html