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Jornalista e escritor Lima Barreto
O nosso destino é modificado pelos nossos
pensamentos. Viremos a ser o que desejamos ser quando os nossos habituais
pensamentos corresponderem aos nossos desejos. Machado de Assis.
Enquanto descansava no Rio de Janeiro,
Alberto Santos-Dumont concede uma entrevista ao jornalista Lima Barreto para o
quinto número da revista Floreal, que circularia em dezembro de 1907.
* Lima Barreto: Ilustre aeronauta,
sempre pensou explorar o céu como via de navegação?
- Desde a infância. Na fazenda de
minha família, deitado à sombra de uma árvore ou na varanda da casa, me detinha
horas e horas a contemplar o firmamento brasileiro, admirando a facilidade com
que as aves atingiam as grandes alturas com suas longas asas abertas. De um
bando de andorinhas, riscando no céu mirabolantes desenhos, observava figuras
pontuadas pelo que minha imaginação mandava. Até mesmo o esboço de um mirabolante
objeto voador. Assim que
nasceu em mim o gosto pelo espaço celeste.
Na juventude, lendo Júlio Verne, pude sonhar em materializar tudo que o
escritor imaginava: um céu povoado aeronaves,
percorrendo o espaço e diminuído as distâncias entre os povos.
*
Quando teve a certeza de que o homem poderia voar um dia?
- Ser-me-ia impossível dizer. Mas, construí os meus primeiros papagaios
de papel muito cedo. Lembro-me, entretanto, nitidamente, das troças que faziam
de mim os meus camaradas, quando brincavam de ‘passarinho voa?’. O divertimento é muito conhecido. As crianças
colocam-se em torno de uma mesa, e uma delas vai perguntando, em voz alta:
Pombo voa? Urubu voa? E assim, sucessivamente. A cada chamada todos nós
devíamos levantar o dedo e responder. Acontecia, porém, que, de quando em
quando, gritavam: Cachorro voa? Raposa voa? Ou algum disparate semelhante, a
fim de nos surpreender. Se algum levantasse o dedo tinha de pagar uma prenda. E
meus companheiros não deixavam de piscar o olho e sorrir maliciosamente cada
vez que perguntavam: homem voa? É que no mesmo instante eu erguia o meu dedo
bem alto, e gritava: Voa! – respondia com entonação de certeza absoluta, e me
recusava obstinadamente a pagar a prenda. Quanto mais troçavam de mim mais
feliz eu me sentia. Tinha a convicção de que um dia os trocistas estariam do
meu lado. Tanto que, anos mais tarde, quando ganhei o ‘Prêmio Deutsche’, recebi
uma carta de um desses amigos de infância, o Pedro, que era um dos trocistas,
relembrando-me aqueles dias das brincadeiras de ‘passarinho voa?’, dizendo que
mudara o nome da brincadeira para “homem-voa?”. Fiquei gratamente emocionado.
* Como é ser o inventor da máquina
mais sonhada da história?
- Realizado. Na verdade, o homem
sonha e a obra nasce.
*Alguma
coisa mudou em sua vida?
- Mudou, mudou sim. Aumentou minha
responsabilidade diante da humanidade.
* Como pensador, idealizador e
construtor do primeiro avião, o que prevê para o futuro da aviação?
- Posso dizer que, onde existia um
fim eu via o começo. Plantei a semente com os balões dirigíveis. A partir desse
avanço, a tecnologia expandiu em minhas oficinas e, de lá para o mundo,
vencendo desafios da aerodinâmica. O avião, num futuro bem próximo, será um
veículo veloz, prático e infinitamente utilitário, quebrando limites
inimagináveis. Ainda temos páginas e páginas em branco para registrar avanços
no futuro. Quem viver verá.
* Pretende virar empresário da
aeronáutica?
-
Empresário!? Ainda não me convenci a viver da construção de máquinas voadoras.
* Depois do 14-Bis, tem algo em
mente?
-
Sempre ligado ao desafio de conquistar novos caminhos com projetos que veem das
asas da imaginação, tenho planos de lançar o SD-15, o SD-16, o SD-17 e o SD-18,
cada um com sua utilidade e força. Atualmente, estou finalizando o SD-19, como
fruto de uma tecnologia que se desenvolve muito rápida. Posso dizer que, sem
dúvida, trata-se de uma máquina que pode ser considerada o melhor resultado de
tudo que já fiz até hoje. Todas as dificuldades estão sendo superadas para o
domínio absoluto do espaço aéreo. Tudo está sendo, rigorosamente, aprimorado.
* Pode adiantar?
- Trata-se do Projeto Demoiselle. Diferente
de tudo, principalmente pela mobilidade para superar obstáculos. Será um
aparelho com autonomia para longas distâncias e pode ser pilotado por qualquer cidadão.
* Seguro?
- Nada mais
tranquilo, feito para voar em harmonia com a lei da gravidade. Em meus projetos o avião não é projetado
para cair, porque sei que o perigo da altitude não vai mudar nunca. O SD-19 voará com máxima segurança
possível, só perderá para o
elevador. Sem brincadeira, posso garantir que será o veículo mais veloz e mais
seguro da história da humanidade.
* Já saiu do papel?
Sim. Fiz a maquete e
agora entrará em fase de montagem. Reuni no projeto, de forma precisa, adequada
e simples, a essência de tudo já produzido no campo aeronáutico até os dias de
hoje.
*
O novo projeto sairá com patente reservada ?
Não. O inventor inventa, a Humanidade desfruta.
É assim que penso. O Demoiselle será um avião de código aberto, livre para ser
copiado, aperfeiçoado e modificado para atender a todas as necessidades de uma
nova era. Para compartilhar de forma definitiva, publicarei o projeto,
inclusive na sua revista, se interessar.
*
Claro que sim. Será um divisor de água nas reflexões sobre a aviação?
Posso garantir que sim. Uma revolução
científica, uma visão
nítida do futuro no planeta. Mais não posso adiantar. É segredo. E o
segredo é a alma do negócio, não é mesmo?
*
Seu pai, como engenheiro, influenciou na sua formação científica?
- Lógico. Mais do que um técnico meu pai
era um grande filósofo, um profícuo pensador e bom conhecedor das ciências
humanas e científicas. Recordo que, no escritório dele, entre vários objetos
que lembravam a França, nunca me esqueci de uma plaqueta de madeira com a
seguinte mensagem de William
Dwight Whitney, escrita a fogo: O mundo está dividido
entre as pessoas que fazem coisas e as pessoas que ganham os créditos. Tente,
se puder, pertencer à primeira categoria. Tem muito menos competição. Essas
palavras vaticinam todo o itinerário de minha vida. Enfim, meu pai
sempre foi meu grande mentor. Tanto é que, voando lá nas alturas, de tão
concentrado que fico nos ensinamentos dele, passo a ter o sentimento – e não é
nada místico – de que meu velho sempre viaja ali comigo.
*
Continua lendo livros de ficção científica?
- Leio de tudo. Leio por prazer, por
curiosidade e para ampliar meus conhecimentos, claro. Continuo grande admirador
de Júlio Verne. A generosidade intelectual desse ficcionista mostra que entre a
arte, a ciência e a tecnologia há um belo caso de parceria. Caminham juntas,
abrindo ao mundo um leque de possibilidades que não sabemos aonde vai parar.
*
Por isso escreveu dois livros?
-Também. Meu mesmo, apenas a obra ‘Meus
Balões’, lançado no ano de 1903, em
Paris. Nele relato minhas experiências aéreas, pensando ser uma boa forma de
contribuir para aproximar o leitor do livro. O outro: ‘A Conquista do Ar pelo Aeronauta Brasileiro Santos-Dumont’, impresso pela Editora Aillaud, em 1901,
não é de minha autoria. Não traz a assinatura do autor, mas é de um jornalista
amigo, meu primeiro biógrafo. Cada um
tem sua própria maneira de enxergar a vida, por isso achei que registrar meus
sentimentos e experiências através de um livro seria bom para as próximas
gerações.
*
Na história do balonismo, conhecia as teorias de Henri Giffard e de outros?
- Sim. Quando cheguei a Paris, no fim do
século passado, não vi nenhum balão dirigível no céu. Fiquei admirado. Então,
perguntei ao Professor Garcia: - Será que ninguém se aprofundou nas teorias de
Henri Giffard que defendia a dirigibilidade desde 1852? Ele respondeu: Não,
ninguém. Então, tomei o desafio para mim.
* O que tem
a dizer sobre Júlio César Ribeiro de Souza?
- Outro brasileiro que construiu três
balões em Paris: Victória, Santa Maria de Belém e Cruzeiro, todos fusiformes e
dissimétricos - coisa nunca vista. Ao projetar o SD-9 me inspirei nas suas
teorias. Quanto ao aparelho mais pesado do que o ar, ele defendia que somente
seria viável quando o peso do motor pudesse ser reduzido em relação ao empuxo.
Confirmei a teoria vinte e cinco anos mais tarde com o 14-Bis, graças à
evolução do motor a explosão. Outros balonistas também se inspiraram nele, como
Renard e Krebs, em 1884, que construiu o balão La France. Os alemães Wolff e
Wels, com o Bilfe, de 1885.
*
O que sabe sobre o francês Clément Ader?
- Ele voava em balões. Um dia apareceu
com um aparelho em forma de morcego a que deu o nome de avião. Não saiu do
solo, mas o nome passou a fazer parte de nomenclatura aeronáutica.
* E os
irmãos Wilbur e Orville Wright?
- Intrigas à parte, quando estive nos
Estados Unidos da América, logo após receber o prêmio do Aeroclube da França,
fui aclamado como o homem que voou pela primeira vez com um aparelho mais
pesado do que o ar. A sociedade científica norte-americana reconheceu meu
feito, além do que os jornais e as revistas de lá foram unânimes em publicar o
resultado de minhas competições com o 14-Bis. Daqui 100, 200, mil anos vão
falar dessa aeronave mãe. Em conversa com o cientista Thomas Edison, ele jamais
citou os irmãos Wright como os pioneiros da aviação. Portanto, se eles reclamam
a paternidade da aviação, ninguém tem que acreditar nessa coisa sem pé nem
cabeça. Controvérsia à parte, eles estão cacarejando sobre ovos alheios. Tudo
indica.
* A
Rússia, a Alemanha e a Inglaterra têm apresentado nomes que voaram antes do
senhor, é verdade?
- Na Inglaterra dizem que Sir Hiram
Stevens Maxim teria voado em 1894 com um artefato mais pesado do que o ar. Não
há provas. Muito menos sobre o pioneirismo do russo Nikolas Jonkovski, nem do
alemão Karl Jatho. Ambos alegam ter voado em 1903, mas nada devidamente
provado. Portanto, se eles construíram máquinas perfeitas para voar, por que
não foram a Paris disputar comigo os prêmios do Aeroclube da França?
* Por
que não apresentou o 14-Bis antes de 1906?
- O inventor, como a natureza,
não dá saltos. Progride de manso, evolui aos poucos. Minha trajetória começou
com o Balão Brasil, passando por mais de uma dezena de balões dirigíveis até
chegar ao mais pesado do que o ar, que já estava nos meus planos bem antes.
Evitava as discussões, porque sempre acreditei que o inventor deve trabalhar em
silêncio, e só trazer a público o resultado positivo de sua obra.
* Daí o sucesso com as máquinas voadoras?
- Pode ser. Invisto todas as energias em meus projetos e,
geralmente, os realizo. A inspiração para tal, eu busco naquilo que mais
acredito: na pesquisa incessante como base para a evolução da ciência.
* Como concluiu que o
homem poderia voar numa máquina mais pesada do que o ar?
- Existem várias maneiras de voar, não
é? Uma delas é por meio da imaginação. Pois bem, usando de tudo que a
imaginação pudesse me oferecer e, depois de anos e anos de pesquisas, desvendei
o segredo. Primeiro, descobri que a forma da asa é que faz a velocidade na
parte de cima ser maior do que a velocidade na parte de baixo. Isso cria uma
força para cima que sustenta o aeroplano no ar. E assim por diante, entendeu?
* O vento pode atrapalhar o voo de um biplano?
- Um pouco, sim. Ganhei a Taça Archdeacon
voando contra o vento, lembra? Ventos que sopram para cima ou para baixo
alteram o equilíbrio e sacodem o avião no ar. A isso chamo de turbulência.
Seria o mesmo que um automóvel rodando numa estrada toda esburacada.
*
E o campo de pouso, como imagina que deve ser?
- Sempre proporcional ao peso do
avião, quanto mais pesado, mais comprida terá que ser a pista para que ele
consiga levantar voo e pousar.
* Que
focos têm hoje seus estudos, além do Projeto Demoiselle?
- As ideias veem aos borbotões. Persigo
tudo: do arco-íris às cores que ele reflete. Mas estou concentrado no Demoiselle. Na primeira versão, já poderei expor a eficiência
de aviões menores e bem ágeis, com o objetivo de mostrar ao mundo que a Aerostação
não para de crescer.
*
Podemos dizer que o Projeto Demoiselle é a terceira etapa de seus ensaios?
- Dependendo do ponto de vista, sim.
É o resultado de arrojado estudo em busca de novas tecnologias. Um avanço
extraordinário! Descobrimos técnicas que permitem a real autonomia aos voos,
mais capacidade aos motores, maior resistência às asas e mais segurança às
aeronaves. O Demoiselle sairá da minha oficina pronto para ser desejado,
copiado e utilizado no mundo todo.
* Tanto empenho assim não o deixa esgotado?
- Para que isso não ocorra procuro
estar com a cabeça onde o corpo está. Assim, preocupo só no momento exato, ou
seja, diante do problema. Tenho vencido etapas sem me comprometer com a fadiga.
*
Lazer?
- Gosto de jogar golfe
nas minhas poucas horas de folga. A vida de inventor é muito enclausurada e o
golfe me proporciona bons momentos ao ar livre. Além disso, é o esporte mais
parecido com a criatividade e a mobilidade, porque exige foco, ritmo e
concentração.
* Considera um homem realizado?
- Não, ainda falta muita estrada, digo
céu pela frente. Entre um tropeço e outro vou realizando meus sonhos.
* Dê um
exemplo do que se fazia e não se faz mais?
- Encher balões para voar.
* O
relógio Santô é um sucesso como tudo que inventou até hoje, mas dizem que ele
não foi invenção sua nem do Louis Cartier, o que tem a dizer?
- Verdade. Lendo sobre a vida da rainha
Elizabeth I, descobri que, por volta de 1500, ela apareceu com um relógio usado
dessa forma. Também há relato de uso semelhante por militares, durante as
batalhas. Mas, a moda não pegou naquela época. Quando amarrei a medalhinha de
São Benedito, presenteada pela Princesa Isabel, no meu pulso veio a ideia de
desenhar um modelo de relógio inspirado no da rainha inglesa. Foi isso.
*
Qual a receita para um bom inventor?
* Além da afinidade pelos voos, você e Cristina
Prado partilham outras?
- Oh, não! Somos amigos,
bons amigos. Aliás, o nome desse novo projeto foi batizado por ela: Demoiselle.
Gostamos da companhia um do outro porque conversamos sobre muitos assuntos. Ela
é muito culta e muito avançada para o nosso tempo. Falamos de tudo: muita coisa
séria e muita bobagem também. Falamos das pessoas que conhecemos, dos problemas
do mundo de hoje e até da mocidade que nos escapa a cada dia. Enfim, em pouco
seremos dois velhinhos animados por um bom assunto, não é mesmo?
*
Qual o cientista com quem mais se identifica?
- Leonardo da Vinci.
* Por quê?
- A quase quatro
séculos, o visionário Leonardo da Vinci projetou objetos que veem mudando
radicalmente o futuro da Humanidade. Ele foi um grande pintor, mas transcendeu
a isso. Foi o inventor de uma máquina voadora com asas batentes, paraquedas,
asa-delta, bicicleta, macaco hidráulico, máquinas de perfuração e tração
empregadas na engenharia ..., tudo isso veio da imaginação desse gênio, cujos
alguns recursos tecnológicos devo me apropriar para expandir meus limites.
*
É verdade que visita o Museu do Louvre só para contemplar as obras dele?
- Les mots dans la peintura! Isso
mesmo. Procuro o Louvre para ouvir as palavras da pintura. Isso me acalenta a
alma. Vez ou outra, eu passo pelo Salon
Carré e procuro me envolver com as obras de Leonardo da Vinci. Mona Lisa,
principalmente. Adoro meditar sobre a serenidade do rosto da moça e a
brutalidade da paisagem ao fundo. Isso me fascina, lança-me para outro mundo,
bem próximo de Leonardo como se ele falasse comigo através do quadro. Com seu eterno sorriso enigmático a Mona
Lisa é suave, é lisa.
*
Acha que Mona Lisa era a mulher amada de Leonardo?
- Não, não era. Entre
as hipóteses menos fantasiosas, fico com a de que a tela foi pintada para a
mulher do florentino Francesco Del Giocondo. Como não gostou do quadro devolveu
ao pintor, dizendo a paisagem em que estava sua bela esposa era muito feia.
*
Não é estranho que um marido deixe um retrato de sua mulher com o pintor?
- Acho. Mas, tudo indica que deixou.
*
Teme pela destruição das obras dos grandes museus?
- Claro. Numa guerra,
por exemplo. Quem sabe é por isso mesmo que estou sempre indo ao Louvre.
Ninguém sabe do dia de amanhã. Ou sabe?
*
Qual o seu maior medo?
- Ter medo.
*
Pensa em voar com suas máquinas nos céus brasileiros?
- Penso. Com os balões
era praticamente impossível pela falta de condições técnicas. Agora, com o
aeroplano Demoiselle, acho que
poderei realizar esse sonho. Vamos dar tempo ao tempo.
* Como
tem sido sua recepção no Brasil?
-
Não poderia ser melhor, por ando passo recebo o carinho do povo.
* Um lugar no planeta?
- O Brasil, sem dúvida. É o
território com o céu mais azul do mundo. Admiro a religiosidade de nosso povo,
a graciosidade de nossas mulheres e a natureza, imensamente, diversificada.
Desembarquei em Paris com uma determinação: voar. Mais tarde, pretendo voltar a
morar com minha família em São Paulo, onde pretendo viver até o fim de meus
dias.
*
Uma cidade especial?
- Paris. Paris é tudo,
uma festa. Tudo tem fim, menos Paris. É uma lembrança eterna para quem lá tenha
vivido. Aonde quer que eu vá, Paris viaja comigo, é mesmo uma folia que me
segue. Por isso que digo, minha juventude, porém, há de nunca ter fim.
* Ainda é um homem que cultiva a fé em Deus?
-
Sim. Mas, acho mais fácil espelhar nos santos da Igreja Católica do que em
Deus, que é perfeito. Além disso, há um Santo para cada causa e assim fica mais
fácil saber a quem apelar. A fé dissipa dúvidas, fortalece o caminho. Veja,
aqui está meu São Benedito.
* Alberto Santos-Dumont é inventor, aviador,
projetista, mecânico, escritor, modista. Foi planejada essa atuação múltipla?
-
Não. Acho que é produto de um tipo de formação que tive e de pura curiosidade.
Quando criança todo mundo me chamava de “especula-cula”, expressão mineira
usada para alguém que sempre esta fazendo perguntas. Nunca fiquei satisfeito
com o que já sabia, seja nas leituras ou nas brincadeiras do tempo de criança.
Lá na infância que aprendi a sonhar. Hoje, posso dizer que perseguir um sonho
vale a pena, você é o reflexo do que pensa.
* O que faria
Santos-Dumont parar de voar?
- A única coisa que faz um aventureiro do ar parar de voar é uma
incapacidade física, mesmo assim se for muito grave, ou mental. Ou a morte.
* Você é bem nascido, bem sucedido, viajado, o
que falta?
Voltar ao Brasil e
viver bem. Mas acho que só daqui a 10 anos terei condições reais para tal. Tudo
bem. Só espero que ainda goze de saúde para gozar o clima tropical de nosso
país.
Lima Barreto: Le célèbre aeronaut
brésilien!!! Imensamente grato pelo que tem feito pela humanidade,
ofereço-lhe um exemplar de meu recente livro: Clara dos Anjos.
Santos-Dumont recebe a obra e lê, em
silêncio, a dedicatória na página de rosto:
Meu caro Alberto Santos-Dumont, sua
humildade é insuflada por um sopro de grandeza imensurável, nasceu para brilhar. A história, com certeza, erigirá seu
nome em sua verdadeira dimensão para que, no futuro, a juventude brasileira
possa se orgulhar ser seu compatriota. E mais: seguir como exemplo a trajetória
de uma das mais valiosas celebridades que o mundo já produziu até os dia de
hoje. Obrigado por existir, Lima Barreto.
E responde, emocionado:
- Nobre Jornalista e Escritor, para
mim foi uma honra conceder ao amigo essa entrevista para a Floreal, uma revista
que promete ser veículo de peso no cenário da imprensa brasileira. Quanto ao
livro que me oferece, ainda hoje mergulharei nas páginas de Clara dos Anjos,
certo de que me aprazarei numa leitura, literariamente, muito rica. Obrigado.
Alberto Santos-Dumont aperta com
força a mão de Lima Barreto. Ambos se despedem e o cientista volta para suas
acomodações no hotel.
* Entrevista
intitulada Num homem toda a História da Ousadia de Voar não foi publicada na
revista Floreal porque a edição nº
05, prevista para circular em dezembro de 1907, não saiu impressa. Nesse mesmo
mês, a empresa dirigida pelo jornalista e escritor Lima Barreto, encerrou suas
atividades.
* FBN©
- 2013 – Entrevista de Santos-Dumont a Lima Barreto. Um Ano Depois dos Prêmios com o 14-Bis.. – Cap.
26 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor:
Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em
português - IIustr.: Imagens da Internet - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/entrevista-de-santos-dumont.html