21.9.08

23/XXIII – 14 BIS. SONHOS SEM LIMITES.

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14-BIS

Uma das maiores emoções de Santos-Dumont era o prazer intelectual
de antever o futuro com suas glórias. Foi assim com os balões dirigíveis. Pelos vistos, resultou. Agora, num incansável exercício de genialidade o cientista passava todo seu tempo envolvido com outro desafio, bem mais ousado: inventar uma versão de aeronave, mais pesada do que o ar, constituída de asas e um motor a gasolina.
 



Em março de 1905, Alberto Santos-Dumont surpreendeu a comunidade aerocientista da França ao assinar um artigo na revista L´Aerophile, que revelou dois projetos para construir uma aeronave mais pesada do que o ar,  passando por um transformação tecnológica muito grande. Primeiro: um aparelho capaz de deslocar com hélice a girar no plano vertical, o helicóptero. Segundo: um aparelho com hélice horizontal, baseado numa estrutura inspirada no planador de Sir George Cayley, o primeiro a voar com estabilidade há mais de cem anos, em 1804.

 

A partir daí, Alberto Santos-Dumont permanece afastado das discussões que envolviam tecnologias por certo período. Dos holofotes também. Cancela sua participação no primeiro GP - Grande Prêmio de Corrida Automobilística, disputado no circuito de La Sarthe, próximo a Le Mans, nos dias 26 e 27 de julho de 1906.

Depois de uma temporada viajando pelo mundo, incluindo passagem pelos Estados Unidos da América, onde foi recebido pelo presidente Theodore Roosevelt e por Thomas Edison, o cientista visita o Brasil e alguns países da América do Sul.

Em 18 de julho de 1906, ele retorna a Paris. Depois de trabalhar em segredo por longo tempo, certo de que a transitória dos balões chegara aos limites, surpreende o planeta com a apresentação de sua nova aeronave: o aparelho mais pesado do que o ar, que recebeu o nome de 14-Bis, completamente, diferente de tudo até então feito na França.

Lembrando a aerodinâmica de um pato, o modelo media dez metros de comprimento, quase cinco de altura e 160 quilos de peso. Numa estrutura de bambu e alumínio tinha asas duplas com envergadura de 11,5 metros, revestidas de seda japonesa.  Inspirado no cientista australiano Lawrence Hargrave, que fazia experimentos com pipas compostas por células na forma de caixas, o brasileiro aplica o mesmo conceito na construção do 14-Bis, onde dispôs células em forma de ‘V’ para que elas forçassem o ar a entrar por baixo, criando um efeito de apoio para sustentar o aparelho no ar. Na cabeceira, outra célula para funcionar como leme na função de mover a frente da aeronave para a esquerda ou para a direita.

A aeronave foi equipada com motor Lavavasseur-Antoinnete de 50 HP, dois carburadores, hélice na horizontal, manche para controlar a subida e a descida e trem de pouso com três rodas de bicicleta. No cockpit, a cabine construída de vime, tinha o piloto, ao alcance de suas mãos, todos os instrumentos necessários para operar e comandar o voo.

            Os primeiros testes para avaliar a eficiência dos comandos, estabilidade, sustentação e potência da nova aeronave foram executadas da forma mais inusitada possível. Santos-Dumont prendia o aparelho sob o invólucro do SD-14 e, diariamente, realizava uma série de provas até que, no dia 7 de setembro de 1906, o inventor isola o aeroplano do balão e realiza o primeiro voo autônomo durante alguns segundos. Entusiasmado, batiza o aparelho de 14-Bis, que também ficou conhecido como Ave de Rapina ou Kanard, porque a força de sustentação estava nas asas. Após um dos últimos testes, declara:

            - O ponto fraco nos aeroplanos era o leme. Dei sempre a maior atenção a essa peça e seu comando, para os quais sempre empreguei cabos de aço de primeira qualidade, os que são usados pelos relojoeiros em relógios de igreja. Lutei, a princípio, com as maiores dificuldades para conseguir a completa obediência do aeroplano. Neste meu primeiro aparelho coloquei o leme à frente, pois era crença geral, nessa época, a necessidade de assim fazer. A razão que se dava era que, colocado ele atrás, seria preciso forçar para baixo a popa do aparelho, a fim de que ele pudesse subir. Não deixava de haver alguma verdade nisso, mas as dificuldades de direção foram tão grandes que tivemos de abandonar essa disposição do leme. Era o mesmo que tentar arremessar uma flecha com a cauda para frente.

            No dia 13 de setembro de 1906, Santos-Dumont faz uma demonstração pública de seu aeroplano em campo livre, testemunhada por dezenas de pessoas de olho na máquina de voar. Entre elas, o presidente do Aeroclube da França, Ernest Archedeacon e do senhor Surcoul, secretário da Comissão Mista de Cronometristas.

            O 14-Bis decola e voa 100 metros a 96 centímetros do solo numa velocidade média de 32 quilômetros por hora, e aterrissa com sucesso. Ao deixar a aeronave, o piloto foi calorosamente aplaudido pelo povo e, do presidente do Aeroclube recebeu um demorado abraço e elogios:

- Bravo!... Bravo!... Alberto Santos-Dumont, você sai da sombra do balonismo e nos brinda com um aeroplano mais pesado do que o ar. É incrível!...

 

Alberto Santos-Dumont, um brasileiro de apenas 33 anos de idade, que não escondia sua vocação para a modernidade, dava um passo decisivo na conquista do ar. Como a estrela de Belém, a nova invenção fazia brilhar a esperança da humanidade ao ver uma máquina voadora quebrar as barreiras do espaço aéreo.

 

 

* FBN© - 2013 14-bis. Sonhos sem Limites. – Cap. 23 de SANTOS-DUMONT. A FORÇA DE UM SONHO – Gênero: Biografia Enovelada – Autor: Welington Almeida Pinto - Categoria: Prosa Infanto-Juvenil – Texto original em português - IIustr.: Imagens da Internet  - Link: http://albertosantos-dumont.blogspot.com.br/2008/09/14-bis-sonhos-sem-limites.html

 

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